“Muitos me procuraram perguntando o que aconteceu com o jornal, e, honestamente, não sei o que responder“, diz o jornalista sobre o “artigo” do inelegível até 2030, no jornalão
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O jornalista Ricardo Kotscho, colunista do UOL, ex-Folha e ex-Secretário de Imprensa na primeira gestão do Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), teve um artigo postado na Folha de S. Paulo, no fim da noite desta segunda-feira (11/11), em que demonstrou estranheza com o fato de o jornal ter postado, na noite de domingo (10/11), outro artigo escrito pelo ex-presidente declarado inelegível até 2030, Jair Bolsonaro (PL), cujo título deixou o profissional de imprensa incrédulo: “Aceite a democracia“.
Kotscho critica a Folha por ter publicado o texto de Bolsonaro, a quem classificou como um “notório golpista“, pois o jornal não o contestou firme e imediatamente sobre “absurdos, mentiras e insultos lançados contra a imprensa e as instituições“. O jornalista relatou que, após pessoas de seu entorno lerem o artigo do ex-presidente no jornalão, perguntaram “o que aconteceu” e ele disse: “…honestamente, não sei o que responder“.
“O que está em jogo é a credibilidade de um veículo com mais de 100 anos de história. Esse é o momento em que a instituição deve uma resposta clara e firme a seus leitores“, opinou o jornalista. “Era necessário um editorial vigoroso que desmascarasse, ponto por ponto, as falácias do impostor que, há pouco tempo, buscava silenciar essa mesma imprensa antes mesmo de tomar posse“, acrescentou Kotscho.
Bolsonaro diz na Folha que os ventos da democracia indicam uma preferência por candidatos e partidos de direita na Argentina, Brasil e Estados Unidos, com analistas tentando caracterizar essa tendência como uma guinada “ao centro” e que não é, pois as escolhas da população refletem apoio à ordem, desenvolvimento, liberdade econômica, liberdade de expressão, respeito às famílias e religião, e patriotismo, valores defendidos pela direita mesmo diante de ameaças autoritárias.
“Nada consegue conter a onda conservadora“, afirma Bolsonaro. “Nem a censura, nem os cancelamentos, nem o boicote econômico, nem as perseguições policiais, nem as longas, arbitrárias e injustas prisões“, argumenta implicitamente sobre o 8 de Janeiro.
De acordo com o investigado no inquérito da trama golpista, a resistência da direita se deve à expressividade de suas bandeiras, que refletem os anseios da maioria da sociedade, e nenhuma medida repressiva consegue alterar essa realidade, já que é inútil tentar eliminar uma ideia que conquistou a alma do povo.
“A moda é nos acusar de inimigos da democracia. Mas quem mostra dificuldade de aceitar a democracia é a esquerda, quando a maioria do povo decide por caminhos diferentes do que ela gostaria. Basta olhar a reação da esquerda às suas derrotas“, diz o texto atribuído a Bolsonaro.
O ex-presidente inacreditavelmente afirma ainda que democratas, autonomeados “salvadores da democracia“, “pisoteiam na democracia quando podem” e “vivem numa realidade paralela, ilhados dentro das suas bolhas, afastados do povo e dos trabalhadores que um dia disseram representar”.
“São incapazes de compreender que não é possível, a não ser numa ditadura absoluta, impedir a manifestação da vontade popular, da qual os líderes são apenas portadores. Se suprimirem um líder, outro aparecerá“, diz o texto do ex-presidente, que destaca, no âmbito dos resultados das eleições municipais, que “o cenário da esquerda é de envelhecimento e desolação“.
E usa palavras de efeito, “…o jardim da política só floresce quando é irrigado pela vontade popular“, para dizer que a política se desconectou do sentimento da maioria e definhou. E que o destino da esquerda “está traçado“; “destinada à irrelevância, ou mesmo a desaparecer“.
Decepcionado com o jornal, por ter publicado isso, Ricardo Kotscho disse que “os leitores mereciam uma análise contundente, que relembrasse” o histórico de Bolsonaro e “seu histórico de ataques contra as instituições e a tentativa de golpe ao perder as eleições“. E disse que é “um golpe no estômago” o jornal “permitir que alguém inelegível, cuja trajetória está marcada por afrontas à democracia, publique sem contrapeso um texto com o título “Aceitem a democracia”“.
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