Rashid Khalidi, da Universidade Columbia, abandona curso devido à adoção de definição de antissemitismo que limita debates sobre o Oriente Médio – Leia seus argumentos, em carta aberta
Brasília, 03 de agosto de 2025
Rashid Khalidi, historiador com mais de 50 anos de carreira, 23 deles na Universidade Columbia, em Nova Iorque, anunciou que não ministrará um curso planejado para o outono devido a restrições impostas pelo governo de Donald Trump.
A Columbia, primeira universidade a ceder às pressões de Trump, adotou a definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA) em suas políticas disciplinares após a suspensão de US$ 400 milhões em fundos federais.
Essa definição, segundo críticos, confunde críticas a Israel com ataques a judeus, limitando o ensino sobre temas como a Nakba palestina ou a Lei do Estado-Nação de 2018.
A decisão da Columbia, comunicada pela presidente interina Claire Shipman, também inclui supervisão governamental sobre o departamento de Estudos do Oriente Médio e reformas nas regras de protestos no campus.
Kenneth Stern, coautor da definição da IHRA e diretor do Centro para o Estudo do Ódio da Bard College, criticou a medida, alertando que ela pode sufocar vozes pró-palestinas, incluindo as de judeus antissionistas, e gerar processos judiciais.
Ele já havia expressado preocupações à universidade no último outono, mas a pressão financeira prevaleceu.
A revolta no corpo docente é notável. Marianne Hirsch, especialista em genocídio, considera deixar a Columbia, argumentando que a definição da IHRA impede comparações históricas, como analogias com o Holocausto, essenciais para o ensino.
Em carta aberta (leia a íntegra no final), Khalidi destacou que a medida torna “impossível” lecionar sobre políticas de Israel sem o risco de ser acusado de antissemitismo, o que compromete a liberdade acadêmica.
A universidade também suspendeu ou expulsou cerca de 80 estudantes por protestos pró-palestinas, intensificando as tensões no campus.
Defensores da medida, como Kenneth Marcus, do Centro Louis D. Brandeis para Direitos Humanos sob a Lei, afirmam que ela protege estudantes judeus.
No entanto, organizações como a Human Rights Watch e a ACLU alertam que a definição da IHRA é usada para silenciar críticas a Israel.
A Columbia também firmou parceria com a Liga Anti-Difamação (ADL) para treinamentos sobre antissemitismo, o que críticos veem como alinhamento com grupos pró-Israel.
O caso reacende debates sobre a liberdade de expressão e pode influenciar outras universidades.
LEIA A CARTA:
“Cara Presidente Interina Shipman,
Escrevo-lhe esta carta aberta, já que a senhora achou por bem comunicar as recentes decisões do conselho de curadores e da administração de maneira semelhante.
Essas decisões, tomadas em estreita colaboração com o governo Trump, tornaram impossível para mim lecionar história moderna do Oriente Médio, área da minha pesquisa e ensino por mais de 50 anos, 23 dos quais na Columbia.
Embora eu tenha me aposentado, estava programado para ministrar um grande curso de palestras sobre esse tema no outono como “professor especial”, mas não posso fazê-lo sob as condições que a Columbia aceitou ao capitular perante o governo Trump em junho.
Especificamente, é impossível lecionar este curso (e muito mais) diante da adoção pela Columbia da definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA).
A definição da IHRA deliberadamente, de forma mentirosa e desonesta, confunde judaicidade com Israel, de modo que qualquer crítica a Israel, ou mesmo descrição das políticas israelenses, se torna uma crítica aos judeus.
Citando seu potencial efeito intimidatório, um dos coautores da definição da IHRA, o Professor Kenneth Stern, repudiou seus usos atuais.
No entanto, a Columbia anunciou que ela servirá como guia em questões disciplinares”.








