Populismo é a democracia vingando seu próprio fracasso, define filósofo francês

20/12/2018 0 Por Redação Urbs Magna

O Autor examina o “par singular” formado pelos conceitos de populismo e democracia, tão discutidos nos últimos tempos. Sem “povo”, não há democracia, e seria vão reduzir o “povo” a uma identidade.

Populismo e democracia formam um par singular. O primeiro recusa o caráter pejorativo que o seu nome representa para a segunda, ao mesmo tempo em que denuncia a hipocrisia desta última. A segunda se diz a única forma legítima de existência comum. Ambos se afirmam soberanamente populares. Sua oposição virulenta no discurso ambiente só tem de igual a indecisão que paira sobre os seus respectivos sentidos. 

De que “povo” eles falam juntos e separadamente? O “populus” latino e o “demos” grego, que, não obstante diferenças importantes, foram traduzidos um pelo outro, possuem um traço comum: referem-se ao conjunto daqueles que pertencem a uma coletividade organizada enquanto realidade pública (“res publica” —este último termo aparentado a “populus”). 

Considerado como totalidade, o povo é idêntico à coisa pública, ela mesma identificada como cidade, nação, pátria, Estado ou precisamente “República”. A palavra funciona como uma espécie de tautologia de um pertencer.

Considerado a partir do interior da República, o povo se distingue ao mesmo tempo das instâncias da autoridade pública (veja a famosa fórmula “senatus populusque romanus”, ou “o senado e o povo romano”) e do “povão” cuja pertença permanece duvidosa: a “plebe” (outra palavra da mesma família). Entre as distinções internas e a identidade externa se passam incessantes atrações e repulsões.

Com efeito, para dizer de maneira sumária, a identidade é de razão e não de fato. Ela não está dada, sendo preciso concebê-la e instituí-la, ao passo que as distinções são de fato: o contrato dito social não acontece sem a necessidade de governar nem sem os assaltos das recusas e dissidências. O assentimento à instituição pública não se passa sem o dissentimento das paixões (sejam elas de interesse, de inclinação ou de ímpeto). 

É também por isso que não há bem um contrato, mas sobretudo uma contração difícil num processo de parto: o povo deve, em suma, produzir-se como coisa pública ou comum (comunismo) mesmo quando nele se pressione uma anarquia indomável. De ambos os lados, identifica-se a mesma dificuldade, porque se trata da mesma legitimidade profunda que não quer nem pode se deixar reduzir ao idêntico.

Tudo isso é bem conhecido. Isso rumina e atormenta todos os pensamentos da sociedade e da política quando não são representações de uma ordem inteiramente dada e identificada —teocrática, autocrática ou, se for possível dizer, “ontocrática” ou monocrática (patriotismo, nacionalismo, autonomismo). 

Ou melhor, tais representações são solicitadas e valorizadas quando o dissentimento atravessa, de maneira dilacerante, o assentimento. Isso se produz tão logo desponta o ressentimento: o fracasso da democracia produz insatisfação, amargura e revolta no povo que não mais se reconhece como povo. Assim “populismo” significa “democracia vingando seu próprio fracasso”.

Ora, o fracasso é inegável. Mas o erro é acreditar que em questão está o fracasso de uma democracia que teria existido. De fato, a democracia só existiu como nome e sua ideia para acompanhar uma transformação gigantesca das condições de vida de toda a população humana (e, mais amplamente, da população de todo vivente). 

Essa transformação chama-se “técnica” e compreende tanto as técnicas financeiras e jurídicas como as mecânicas, biológicas e informacionais. Hoje, um patamar já seriamente implosivo ou explosivo dessa transformação foi alcançado em todos os planos: economia (enriquecimento e empobrecimento exponenciais), ecologia (recursos naturais excedidos), escola (nada mais a ensinar a não ser técnicas). 

E portanto vão tentar substituir um povo sofrendo o mal da identidade por um povo falsamente identificado como vingador e reparador de sua própria identidade. E vão opor o ressentimento ao dissentimento e aí acreditar encontrar um assentimento. Uma tarefa bem mais exigente nos é proposta: é preciso nos refazer “povo”, é preciso nos repovoar de todos os modos imagináveis. 


Jean-Luc Nancy, filósofo francês, é autor de “Arquivida. Do Senciente e do Sentido” (Iluminuras) e “Banalidade de Heidegger” (Via Verita).

Tradução de Marcia Sá Cavalcante Schuback.

via Folha de São Paulo

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