Documento de 170 páginas revela tensões internas na direita, influência de líderes religiosos e embates familiares, enquanto aliados apontam motivações políticas na divulgação às vésperas de julgamento crucial
Brasília, 21 de agosto de 2025
Um relatório de 170 páginas da Polícia Federal (PF), divulgado na quarta-feira (20/ago), trouxe à tona detalhes inéditos sobre as dinâmicas internas do bolsonarismo, expondo rachas na direita, a influência de figuras como o pastor Silas Malafaia e a relação conturbada entre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
O documento, que detalha mensagens extraídas do celular de Bolsonaro, foi classificado por aliados como “vazamento político” com o objetivo de desgastar a imagem da direita antes das manifestações de 7 de setembro e do julgamento de uma suposta trama golpista, marcado para setembro no Supremo Tribunal Federal (STF), segundo a CNN Brasil.
As conversas revelam um Jair Bolsonaro aparentemente passivo diante das críticas contundentes de Eduardo, que, em mensagens, chegou a xingar o pai com termos como “VTNC, seu ingrato do caralho” após discordâncias sobre estratégias políticas.
A insatisfação de Eduardo se intensificou com elogios de Bolsonaro ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), em entrevista ao Poder360 em 15 de julho.
Vivendo nos Estados Unidos desde fevereiro, Eduardo expressou frustração, escrevendo: “Me fudendo aqui! VC ainda te ajuda a se fuder aí!”, indicando ciúmes e desconfiança em relação às ambições políticas de Tarcísio para 2026.
O relatório também destaca a influência do pastor Silas Malafaia, apontado como uma figura central no bolsonarismo, e expõe tensões com o STF, especialmente com o ministro Alexandre de Moraes, acusado por aliados de orquestrar uma “jogada política” para enfraquecer a direita.
A divulgação do documento ocorre em um momento delicado, com Bolsonaro em prisão domiciliar desde 4 de agosto, por decisão de Moraes, após descumprir medidas cautelares ao aparecer em vídeo em uma manifestação, publicado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Fontes recentes apontam que o indiciamento de Jair e Eduardo Bolsonaro pela PF está relacionado a tentativas de buscar apoio nos Estados Unidos para pressionar o STF, reforçando a narrativa de divisão no bolsonarismo.
O analista William Waack, em comentário na CNN Brasil, destacou que o relatório expõe um “profundo racha” no movimento, com possíveis candidatos à presidência em 2026 hesitando em criticar Bolsonaro para não perder votos, mas já ensaiando voos próprios.
Além disso, perfis nas redes sociais indicam que aliados como o deputado Marcel van Hattem acusam uma aliança entre Lula, STF e agências de checagem, como Lupa e Aos Fatos, de sufocar a liberdade de expressão no Brasil, intensificando a retórica de perseguição política.
Outro ponto relevante é a pressão de Eduardo Bolsonaro em Washington, onde, junto ao jornalista Paulo Figueiredo, buscou apoio para sanções contra o Brasil, gerando críticas até de aliados do Centrão e do PL, como o presidente Valdemar Costa Neto, que teme prejuízos à imagem do partido.
A Folha de S.Paulo também reportou que bolsonaristas planejam obstruir projetos no Congresso, como o PL 2628/2022 sobre proteção de crianças no ambiente digital, alegando riscos de censura, enquanto tentam avançar pautas como a anistia para Bolsonaro.
O relatório da PF não apenas expõe as tensões familiares e políticas, mas também reforça a percepção de que o bolsonarismo enfrenta sua pior crise, conforme análise do jornalista Caio Junqueira.
Ele aponta que o movimento está em “estado de tensão, divisão e fragilidade”, com aliados tentando afinar a defesa de Bolsonaro diante da possibilidade de prisão após o julgamento no STF.
Apesar disso, o núcleo duro do bolsonarismo, estimado em 20% a 25% do eleitorado, mantém apoio incondicional, vendo as investigações como perseguição política.
A proximidade das manifestações de 7 de setembro e do julgamento no STF amplifica o impacto do relatório, que, segundo aliados, serve como “espetáculo” para detratores.
A atuação de Eduardo nos EUA e a postura de Bolsonaro diante das pressões internas e externas sugerem que o bolsonarismo, mesmo fragilizado, seguirá mobilizando sua base, enquanto enfrenta desafios jurídicos e políticos que podem redefinir seu futuro.







