A bolsonarista “demonstrou ter dificuldades de conviver com a pluralidade democrática” ao chamar – duas vezes num mesmo dia – Benedita de “Chica da Silva”, diz representação
A cúpula da PGR (Procuradoria-Geral da República) afirmou que a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) foi “infeliz” , mas não se configurou racismo o fato dela chamar a “colega” Benedita da Silva (PT-RJ) de “Chica da Silva”, pois, segundo interlocutores de Paulo Gonet, para configurar o crime seria preciso comprovar que a bolsonarista teve intenção de ofendê-la.
Outro argumento que circula nos bastidores da PGR é a relevância histórica da figura de Chica da Silva, que se tornou uma das mulheres mais importantes da sociedade colonial de Minas Gerais devido à sua ascensão social. Seria, portanto, uma associação nada pejorativa, na avaliação de integrantes da PGR.
A PGR deverá se manifestar sobre o caso em uma representação que o líder do PT na Câmara, Odair Cunha (PT-MG) apresentou contra Zambelli, na última quarta-feira (3/7).
Na terça-feira (2/7), Zambelli chamou Benedita de “Chica” enquanto reclamava de não ter espaço de fala na Reunião de Mulheres Parlamentares do P20, que ocorreu em Maceió (AL). O evento reuniu parlamentares de países-membros do G20 para discutir temas como combate às desigualdades e representatividade feminina.
“Eu não vou ter poder de fala, né? Eu não vou falar porque provavelmente… não sei por que que não vou falar. Parece que já foi montada pela Secretaria da Mulher, que é a Chica da Silva”, disse Zambelli.
Racismo é CRIME e Carla Zambelli tem que ser responsabilizada por chamar a deputada Benedita da Silva de "Chica da Silva", além de responder processo por quebra de decoro parlamentar. Posturas como essas, é que fazem desse, O PIOR congresso da história. pic.twitter.com/GeyTXfnQzE
— Matteus Henrique (@matteush13) July 3, 2024
Benedita da Silva é a atual coordenadora da Secretaria da Mulher na Câmara dos Deputados. Durante a reunião em Maceió, Zambelli também trocou o nome da colega em outra oportunidade, chamando “Benedita” de “Chica”, em entrevista à TV Câmara.
Odair alega que Zambelli “demonstrou ter dificuldades de conviver com a pluralidade democrática” ao chamar – duas vezes num mesmo dia – Benedita de “Chica da Silva”, filha de uma mulher negra escravizada e de um português, nascida no século XVIII na região de mineração de diamantes do arraial do Tejuco, atual cidade mineira de Diamantina.
“Claramente se vislumbra que a comparação com a personagem é usada pela deputada agressora no contexto de sua fala de forma pejorativa, para desqualificar sua identidade racial e, especialmente, sua história política de luta pelos direitos das mulheres”, sustenta Odair, conforme transcreve O Globo.
Mas a própria parlamentar bolsonarista, por meio de nota, alegou que confundiu os nomes e que se desculpou com a colega ainda durante o evento em Alagoas. “Zambelli lamenta o referido lapso, mas torna público que não houve qualquer intenção de ofensa à sua colega de Parlamento. Mais uma vez, Carla Zambelli pede desculpas à deputada Benedita da Silva”, diz o comunicado.
Contudo, o jornalista Helder Maldonado questiona: “Desde quando o nome Benedita lembra Chica? É como confundir Carla com Burra. Só rola se for deliberado“. Ele compartilhou imagens em que Zambelli novamente troca os nomes:
Desde quando o nome Benedita lembra Chica? É como confundir Carla com Burra. Só rola se for deliberado https://t.co/Wk8ClEojqt
— Helder Maldonado (@heldermaldonado) July 4, 2024
Benedita afirmou que a fala teve, sim, cunho racista e que Zambelli “terá a correção necessária”. Um vídeo de quatro minutos da deputada argumentando sobre Chica da Silva Viralizou nas redes sociais:
Chica da Silva
Chica da Silva, também conhecida como Francisca da Silva de Oliveira, foi uma figura proeminente na história do Brasil, vivenciando a vida tanto como escrava quanto como proprietária de escravos no período colonial de Minas Gerais.
Nascida por volta de 1731-1735, filha de uma escrava e de um capitão português, foi vendida quando ainda era criança a um médico português. Apesar de ter tido um filho com ele, mais tarde foi vendida a João Fernandes de Oliveira, um oficial do governo envolvido na mineração de diamantes.
Eles mantiveram um relacionamento público, embora não formalizado pelo casamento, e ela foi libertada. Essa ascensão não convencional na sociedade causou desconforto entre a elite branca devido à ameaça que representava às normas estabelecidas da sociedade escravocrata.
Apesar das críticas, Chica assertou sua posição participando de eventos sociais, financiando irmandades religiosas e demonstrando notável inteligência e autonomia. Ela desfrutava de um estilo de vida luxuoso, chegando até mesmo a possuir e explorar inúmeros escravos.
Após a partida de João Fernandes para Portugal com seus herdeiros homens, Chica permaneceu no Brasil, gerenciando suas propriedades e negócios até sua morte em 1796, deixando para trás um legado como figura influente na elite da sociedade de Tejuco.
