
📷O ministro do STF, Alexandre de Moraes, conversa com o procurador-geral da República, Paulo Gonet Branco / Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil | Ao fundo, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em seu gabinete no Senado Federal, em Brasília, aponta para a foto de seu pai quando era presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, hoje preso por tentativa de golpe de Estado e inelegível devido a ataques ao processo eleitoral / Foto: Brenno Carvalho / O Globo
| Brasília (DF)
02 de junho de 2026
A Procuradoria-Geral da República (PGR) decide nesta terça-feira (3/jun) se inclui o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no inquérito que apura se o deputado cassado Eduardo Bolsonaro atuou nos Estados Unidos para pressionar autoridades brasileiras e favorecer uma anistia aos envolvidos na trama golpista.
A manifestação do procurador-geral Paulo Gonet ocorre sob a lupa de uma operação que já enviou R$ 61 milhões ao exterior sob a justificativa de financiar o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro.
O caso transcende as suspeitas de irregularidades financeiras e toca em temas sensíveis à soberania nacional e à solidez democrática.
A decisão da PGR, que pode ser anunciada a qualquer momento, tem o poder de transformar o cenário político a sete meses das eleições, ao atingir em cheio a pré-campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.
O rastro de R$ 61 milhões e a sombra de Eduardo
A investigação teve início após reportagens do portal The Intercept Brasil revelarem mensagens de áudio nas quais Flávio Bolsonaro solicita dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para custear o filme sobre o pai.
Vorcaro, que está preso por comandar a maior fraude já registrada contra o sistema financeiro nacional, teria destinado R$ 134 milhões à produção, dos quais aproximadamente R$ 61 milhões foram transferidos para os Estados Unidos.
A Polícia Federal (PF), em um parecer favorável enviado à PGR, aponta que o elevado valor e o fato de a maior parte das filmagens ter ocorrido em território brasileiro levantam fortes suspeitas.
A principal linha de apuração da corporação é que o dinheiro teria sido usado, na verdade, para financiar a permanência de Eduardo Bolsonaro nos EUA e suas ações contra o Estado Democrático de Direito.
Eduardo já é réu no Supremo Tribunal Federal (STF) sob a acusação de coação no curso do processo, por supostamente articular sanções econômicas e restrições de vistos contra ministros da Corte e outras autoridades, como forma de pressionar o Judiciário a não condenar seu pai.
A PF avalia que, se comprovado o financiamento a Eduardo, os envolvidos podem responder por colaboração com esse crime, além de evasão de divisas e organização criminosa.
Encontro com Trump acirra tensão sobre soberania nacional
Em paralelo ao inquérito do “Dark Horse”, a Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) protocolou na última segunda-feira (1º/jun) uma representação na PGR para que Flávio Bolsonaro seja investigado pelo crime de atentado à soberania nacional.
O gatilho foi o encontro do senador com o presidente norte-americano Donald Trump na Casa Branca, no dia 26 de maio, e sua atuação para que os EUA classificassem as facções PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.
Dois dias após a reunião, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, anunciou a medida, que pode abrir espaço para sanções e bloqueios financeiros contra o Brasil.
Para a ABJD, a iniciativa de Flávio representa uma interferência estrangeira em um tema que cabe exclusivamente ao Estado brasileiro.
A entidade pede a aplicação do artigo 359-I do Código Penal, que pune negociar com governo estrangeiro para provocar atos hostis contra o país.
O encontro de Flávio e Eduardo com Trump ocorreu no mesmo dia em que o ministro Alexandre de Moraes deu o prazo para a PGR se manifestar, e a foto foi amplamente divulgada nas redes sociais como um gesto de força política.
O cenário atual e os próximos passos
A decisão de Paulo Gonet deve seguir os parâmetros definidos pelo ministro Alexandre de Moraes na terça-feira (26/mai), quando ele determinou o envio do pedido do deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) para a apreciação da PGR, com um prazo de cinco dias para manifestação.
A estratégia da defesa de Flávio Bolsonaro, que confirmou ter solicitado os recursos, mas nega qualquer irregularidade, tem sido a de tentar descolar sua imagem do escândalo.
O senador afirma que a totalidade dos recursos foi destinada exclusivamente à produção do filme e que possui documentos para comprovar a aplicação dos valores.
A PGR se encontra em um dilema delicado. Incluir Jair e Flávio Bolsonaro no inquérito pode ser visto como um excesso, mas deixá-los de fora, diante das evidências robustas apresentadas pela PF e das manifestações da sociedade civil, seria um desserviço à Justiça.
A expectativa é que o parecer de Gonet sinalize um caminho do meio, autorizando a investigação de Flávio por alguns dos crimes (como lavagem de dinheiro ou organização criminosa) enquanto arquiva a parte que envolve atentado à soberania, para não atritar com os EUA em ano eleitoral.
A decisão final, no entanto, caberá ao STF, que terá a palavra final sobre o destino político da família Bolsonaro.
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FAQ Rápido
1. O que a PGR decide hoje sobre Jair e Flávio Bolsonaro?
A Procuradoria-Geral da República analisa se há elementos para incluir o ex-presidente e o senador no inquérito que apura o financiamento do filme “Dark Horse” e a atuação de Eduardo Bolsonaro nos EUA. A decisão pode tornar os dois formalmente investigados por crimes como lavagem de dinheiro e organização criminosa.
2. Qual a ligação de Eduardo Bolsonaro com as pressões nos Estados Unidos?
O deputado cassado é réu no STF por coação no curso do processo. A PF suspeita que parte dos R$ 61 milhões enviados para os EUA sob a justificativa de produzir o filme teria custeado a permanência de Eduardo no país e suas articulações para aplicar sanções contra ministros do Supremo.
3. O encontro de Flávio Bolsonaro com Trump em maio influencia a investigação?
Sim. A Associação Brasileira de Juristas pela Democracia pediu à PGR a abertura de investigação por atentado à soberania nacional. O senador articulou com o governo Trump a classificação de facções criminosas brasileiras como terroristas, medida que o senador defendeu publicamente como forma de “pressionar” o sistema de Justiça do Brasil.
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