O PCC prosperou mesmo com seu líder de longa data, Marcos Willians Herbas Camacho, atrás das grades, diz legenda no jornal estadunidense The Wall Street Journal / Foto: Sergio Lima / AFP / Getty Images
Brasília (DF) 06 de maio de 2026
A influência do Primeiro Comando da Capital (PCC) deixou de ser um problema restrito às fronteiras brasileiras para se tornar um dor de cabeça geopolítica para os Estados Unidos.
O influente jornal The Wall Street Journal expôs como a facção nascida nos presídios de São Paulo estruturou-se como uma verdadeira “multinacional do crime”, com operações sofisticadas em solo americano.
De acordo com a apuração do jornal, autoridades dos EUA já mapearam a atuação do PCC em pelo menos seis estados.
Indivíduos ligados à facção foram identificados na Flórida, Nova York, Nova Jersey, Connecticut, Tennessee e Massachusetts. Neste último, o gabinete do procurador federal denunciou formalmente 18 brasileiros no ano passado por tráfico de armas e fentanil, evidenciando a capilaridade do grupo.
‘Fortuna, não fama’: a lógica corporativa do tráfico
O grande trunfo do PCC para se infiltrar silenciosamente nos EUA é a sua filosofia operacional. Diferentemente de outras organizações, como os cartéis mexicanos ou as milícias colombianas, o PCC preza pela discrição absoluta, diz a jornalista Samantha Pearson.
Ela descreve no WSJ que os membros da facção mantêm “um perfil discreto e profissional, buscando fortuna, e não fama – e evitando os tipos de violência gratuita que atraem a polícia e as equipes de reportagem da TV”.
Essa abordagem “low profile” permite que o grupo lave bilhões de dólares através de fintechs, igrejas evangélicas (fenômeno chamado de “narcopentecostalismo”) e até mesmo o mercado imobiliário.
A ‘Divisão Norte-Americana’ e a disputa geopolítica
A internacionalização do PCC é tão avançada que o grupo já conta, dentro do seu organograma, com uma “Divisão Norte-Americana”.
As investigações levaram o Departamento do Tesouro dos EUA a congelar bens de Diego Gonçalves do Carmo, acusado de lavar cerca de US$ 240 milhões (aproximadamente R$ 1,2 bilhão) para a facção.
A reação do governo Donald Trump – que pressiona para classificar o PCC como Organização Terrorista Estrangeira – precisa ser vista com cautela.
Enquanto a administração republicana enxerga a facção como uma ameaça à segurança nacional, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) resiste à medida.
A alegação do Itamaraty é a de que as facções brasileiras não têm motivação ideológica ou religiosa, focando apenas no lucro.
Há, no entanto, um temor legítimo por trás da recusa brasileira. Especialistas ouvidos pelo WSJ e pelo The New York Times alertam que a classificação como terrorista poderia servir de justificativa jurídica para uma intervenção estrangeira na Amazônia, sob o pretexto de combater o crime organizado.
A Amazônia é hoje a principal rota de trânsito da cocaína produzida na Colômbia, Peru e Bolívia, escoada pelo Porto de Santos.
Eficiência de multinacional e alianças globais
A reportagem destaca ainda o nível de profissionalismo do PCC, comparável à máfia italiana ‘Ndrangheta e ao Yakuza japonês, com quem mantém alianças.
O procurador Lincoln Gakiya, do Gaeco-SP, afirma que o grupo se tornou “um governo do mundo ilegal”.
Para transportar a droga, a facção chega a utilizar mergulhadores e soldadores para esconder carregamentos nos cascos de navios.
O jornalista e pesquisador Bruno Paes Manso explica que a estrutura horizontalizada do PCC, diferente de uma hierarquia rígida, permite uma expansão acelerada e dificulta o combate pelas autoridades.
“Nenhum integrante está acima das regras em uma facção que valoriza ‘igualdade’ e ‘união’, mas qualquer um pode prosperar desde que permaneça leal”, disse Manso ao periódico.
Com 40 mil membros espalhados por 30 países, o PCC já não é visto apenas como um problema do sistema prisional paulista, mas como um ator global que desafia a soberania e a capacidade de articulação diplomática dos países sul-americanos.
FAQ Rápido
O que diz a reportagem do The Wall Street Journal sobre o PCC?
O jornal afirma que o PCC se tornou uma “potência global da cocaína” com estrutura de multinacional, possuindo uma “Divisão Norte-Americana” e células ativas em seis estados dos EUA, incluindo Flórida e Nova York.
Por que o governo Lula resiste em classificar o PCC como terrorista?
O governo brasileiro alega que a legislação nacional exige motivação política ou religiosa para a classificação. Nos bastidores, o Itamaraty teme que a medida abra precedentes para intervenção militar estrangeira na Amazônia.
Como o PCC age nos Estados Unidos?
Diferente de grupos violentos, o PCC age de forma discreta, focando na lavagem de dinheiro (via criptomoedas e igrejas) e no tráfico de armas e fentanil, evitando chamar a atenção da mídia e da polícia local.
SIGA NAS REDES SOCIAIS

![]()
Compartilhe via botões abaixo:
