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    “Flávio pode reivindicar autoria do atentado”, ironiza Leitão sobre PCC/CV “terroristas” após senador nos EUA

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    O senador Flávio

    O senador Flávio Bolsonaro esteve em visita ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no Salão Oval da Casa Branca, na semana passada | Ao lado, a jornalista de O Globo, Míriam Leitão, cuja coluna de domingo (31.5.2026) traz matéria criticando a influência do parlamentar na classificação pelo DOS das facções brasileiras do crime organizado, CV e PCC, como “terroristas” | Imagem gerada por IA

    | Brasília (DF)
    31 de maio de 2026

    A decisão do governo de Donald Trump de classificar as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas expõe uma contradição central no discurso da direita brasileira.

    O que parte da política nacional comemora como uma vitória contra o crime organizado esconde, na prática, graves riscos à soberania e à economia do país.

    A medida, anunciada oficialmente pelo secretário de Estado Marco Rubio na quinta-feira (28/mai), coloca o Brasil em uma posição delicada.

    A classificação dos grupos na lista de "Terroristas Globais Especialmente Designados" (SDGT) e futuramente como "Organizações Terroristas Estrangeiras" (FTO) a partir de 5 de junho, segundo especialistas, transfere a liderança das investigações do FBI para a CIA, permitindo ações de inteligência em território nacional sem necessidade de anuência prévia do governo brasileiro.

    A reação imediata veio do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O pré-candidato à Presidência comemorou a decisão nas redes sociais com um "Grande dia", e gravou um vídeo atacando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva . 

    "Enquanto Lula foi de joelhos atrás do Trump fazer lobby a favor de CV e PCC, eu fui trabalhar para que eles fossem tratados como terroristas" , declarou o parlamentar.

    No entanto, a cronologia dos eventos sugere que Flávio atuou diretamente para que isso acontecesse, em uma reunião no Salão Oval onde teria dito a Trump que a situação do crime no Brasil é pior do que a do México.

    Essa comemoração, porém, ignora os efeitos colaterais.

    A colunista Míriam Leitão, em texto intitulado "Os patriotas pelo avesso", publicado em sua coluna no O Globo, neste domingo (31/mai), define o movimento como uma inversão perigosa do patriotismo.

    A jornalista lembra que o mesmo discurso levou Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, a vestir um boné “Make America Great Again” na posse de Trump, apenas para ver, meses depois, as empresas paulistas sendo duramente atingidas pelo tarifaço imposto pelo republicano.

    Foi o governo Lula, lembra Leitão, que conseguiu dissolver a maior parte desse ônus econômico.

    A classificação dos EUA também ameaça o sistema financeiro nacional.

    Conforme reportagem do The New York Times, citada pela BBC, a designação pode permitir sanções a instituições brasileiras que inadvertidamente façam negócios com as facções, que já se infiltraram na economia formal. 

    “As quadrilhas brasileiras conseguiram se infiltrar na economia formal, acumulando participações na distribuição de gás, no mercado imobiliário, em commodities e em criptomoedas. Isso deixa as instituições financeiras brasileiras vulneráveis” , alerta o jornal americano.

    O procurador Lincoln Gakiya, um dos maiores especialistas no combate ao PCC, foi taxativo ao avaliar a decisão. “Na minha opinião, a classificação do Comando Vermelho (CV) e do PCC como organizações terroristas para o governo norte-americano só vai prejudicar o combate interno aqui dentro do Brasil” , afirmou em entrevista à BBC News Brasil.

    Ele explica que o assunto deixará de ser uma questão policial (compartilhada com o FBI) para se tornar um assunto secreto de defesa, comandado pela CIA. 

    “A partir do momento em que essas organizações são classificadas como terroristas, a CIA passa a ser a responsável por essas informações e investigações e elas passam a ser classificadas como confidenciais ou secretas” , detalhou Gakiya.

    Em meio à euforia da oposição, Míriam Leitão faz uma pergunta que ecoa como um alerta: “Vale a esta altura da comemoração bolsonarista perguntar a Flávio Bolsonaro: e as milícias, senador?” 

    A colunista critica o silêncio seletivo do parlamentar, que no passado já elogiou e condecorou milicianos, enquanto agora usa o combate ao crime como plataforma eleitoral.

    "Talvez o momento mais verdadeiro do nacionalismo da direita tenha ocorrido quando manifestantes bolsonaristas estenderam a bandeira norte-americana na Avenida Paulista em pleno dia da pátria brasileira", inicia Leitão em seu texto.

    "Eles se denominam “patriotas” e se cobrem de verde e amarelo, mas comemoram barreiras contra as exportações brasileiras, pedem intervenção americana nas eleições nacionais e, agora, tratam como uma vitória o que é um evidente risco para o país e suas instituições", prossegue. "É um patriotismo pelo avesso.

    Os Estados Unidos, na visão trumpista, só poderiam ser grandes à custa de outros países, o que se concretizou em abril do ano passado com a imposição de tarifas altas. O Brasil foi severamente afetado, mas o governo Lula conseguiu aliviar essa carga para a economia brasileira, argumenta a jornalista.

    O patriotismo exagerado e estigmatizado não se relaciona com o verdadeiro amor à pátria ou a compreensão dos interesses daqueles que nasceram ou escolheram esta terra, afirma.

    A classificação das facções criminosas brasileiras como organizações terroristas pode enfraquecer a cooperação entre Brasil e EUA no combate ao tráfico de drogas e armas, transferindo a questão para a CIA e permitindo missões de espionagem sem o conhecimento do governo brasileiro, argumenta.

    Há ameaças econômicas no mercado globalizado, onde bancos nacionais operam nos EUA, e qualquer dúvida sobre instituições brasileiras pode limitar suas operações, afetando também empresas com negócios americanos, diz o texto.

    O senador Flávio Bolsonaro comemorou a decisão do governo Trump como uma vitória política, considerada uma tábua de salvação para sua candidatura abalada pela relação com o banqueiro corruptor Daniel Vorcaro, aponta a jornalista.

    A decisão americana, ocorrida após seu encontro com o presidente dos EUA, permite a Flávio reivindicar autoria do atentado, ironiza.

    O Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital são organizações perigosas que se expandem. Qualquer pessoa pode se sentir ameaçada pelo terror que elas causam e, por isso, vê-las como terroristas faz sentido. O problema não está na definição, mas nas implicações legais que isso traz, explica.

    "Vale a esta altura da comemoração bolsonarista perguntar a Flávio Bolsonaro: e as milícias, senador", questiona a coluna de Míriam Leitão, que conclui este pensamento: "Curiosamente, ele guarda silêncio sobre a organização criminosa que também aterroriza cidadãos do Rio de Janeiro. No passado recente, ele já elogiou, empregou e condecorou milicianos e seus familiares".

    "Há um fio que liga as patriotadas do governo militar e o comportamento dos líderes bolsonaristas. Tanto na ditadura quanto agora, a direita declara ser a detentora única do amor à pátria quando na verdade é capaz das maiores traições. Tanto o ataque ao patrimônio natural do país, quanto os acordos entreguistas que beneficiam outros países em detrimento do Brasil. Têm ainda em comum a devoção à potência estrangeira", pontua Leitão.

    "O assunto se presta a muita confusão, manipulação e falsidade. E é a essa tarefa que Flávio Bolsonaro está dedicado no momento. Ele está usando o sentimento natural de repúdio das pessoas contra as organizações criminosas, e tratando a decisão do governo americano como um serviço ao país", diz o texto de Leitão.

    "O que isso pode significar na prática, contudo, não lhe interessa. Flávio Bolsonaro continuará no seu show de bajulação ao presidente dos Estados Unidos. E chamará a isso patriotismo", finaliza a matéria.

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