Marco Feliciano foi expulso do Podemos nesta segunda (9) por acusações como gastos de R$ 157 mil em tratamento odontológico reembolsados pela Câmara, acusações de assédio sexual no gabinete, recebimento de propina e pagamento a supostos funcionários fantasmas
O Podemos expulsou o pastor evangélico e deputado Marco Feliciano (SP) do partido. A decisão foi tomada nesta segunda-feira, 9, pelo comando da legenda em São Paulo por unanimidade (oito votos a zero).
O partido decidiu expulsar Feliciano, o amigo de Bolsonaro, por “incompatibilidade programática e comportamento incondizente com as diretrizes” do Podemos.

A saída forçada de Feliciano ocorre dentro da estratégia do Podemos de se afastar do “bolsonarismo” e se firmar como a sigla da Lava Jato.
O partido tem atraído parlamentares da centro-direita descontentes com o governo e, só no Senado, passou de cinco para dez parlamentares nos últimos meses – a segunda maior bancada.
Se quiser reverter o quadro, o parlamentar poderá recorrer à Executiva Nacional do partido dentro de um prazo de três dias – ele já foi comunicado da decisão.
Entre os exemplos de incompatibilidade praticados por Feliciano estão gastos de R$ 157 mil em um tratamento odontológico reembolsados pela Câmara, o apoio irrestrito a Jair Bolsonaro, acusações de assédio sexual no gabinete, recebimento de propina, pagamento a supostos funcionários fantasmas e até comentários sobre o cantor Caetano Veloso, de acordo com o jornal O Estado de S. Paulo.
A expectativa entre dirigentes da sigla, no entanto, é que ele aceite sair da legenda. Como foi expulso do partido, Feliciano não perde o mandato, a menos que haja uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o que não deve acontecer.

A denúncia que originou a expulsão de Feliciano cita uma série de acusações ao deputado. Entre elas, estão os gastos de R$ 157 mil referentes a um tratamento odontológico reembolsados pela Câmara, caso revelado pelo Estado. “Parece-nos, outrossim, importante destacar que entendemos por desproporcional e pouco recomendado que em pleno ano de 2019 um parlamentar ainda se utilize de recursos públicos para fins particulares, vide o caríssimo tratamento (dentário) feito pelo representado e pago com dinheiro do povo”, diz parecer do Conselho de Ética do partido citado no comunicado enviado ao parlamentar assinado pelo presidente do Podemos em São Paulo, Mario Covas Neto.
Além disso, o apoio irrestrito ao presidente Jair Bolsonaro, acusações de assédio sexual no gabinete, recebimento de propina, pagamento a supostos funcionários fantasmas e até comentários sobre o cantor Caetano Veloso.
Dirigentes do Podemos querem desvincular a imagem do partido à de Feliciano. Alguns deputados e senadores, citam as fontes nos bastidores, condicionam a negociação de migração para a legenda à saída do deputado dos quadros do Podemos.
Procurado pela reportagem para comentar a decisão do partido, Marco Feliciano não respondeu. No início do mês, quando perguntado sobre o assunto, o parlamentar afirmou que iria respeitar a decisão da legenda. “Para mim, o que acontecer está bom. Que o eleitor julgue o caso. Um partido expulsa um deputado por apoiar um presidente da República. Aí, não tem mais o que fazer”, afirmou, na ocasião.
QUEM É MARCO FELICIANO
Marco Antônio Feliciano nasceu em Orlândia, município do estado de São Paulo pertencente à região metropolitana de Ribeirão Preto, aos 12 de outubro de 1972 e é um pastor da Catedral do Avivamento, uma igreja neopentecostal ligada à Assembleia de Deus.
Também é deputado federal brasileiro, tendo sido eleito pelo Partido Social Cristão (PSC) em 2010 com 212 mil votos, e tendo sido o segundo político evangélico com maior número de votos no país.
Marco Feliciano foi o 12° entre os 70 deputados eleitos pelo estado de São Paulo.”
Foi eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados do Brasil, cargo que exerceu durante o ano de 2013, o que gerou controvérsia pelas diversas declarações polêmicas de Feliciano, principalmente em relação a temas como direitos dos homossexuais e direito ao aborto.
Foi um dos únicos dez deputados que votou em plenário contra a cassação do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, em setembro de 2016.
Além de pastor, Feliciano também é empresário, autor de 18 livros, e produtor de DVDs com mensagens de autoajuda que venderam cerca de 600 mil cópias.
ASSÉDIO SEXUAL
Em agosto de 2016, o chefe de gabinete do deputado federal Marcos Feliciano foi preso, após manter em cárcere privado uma jovem de 22 anos que acusava o parlamentar de assédio sexual, tentativa de estupro e agressão.
Talma Bauer foi acusado de sequestro qualificado, além de coagir a vítima a gravar vídeos em que negava as acusações contra Feliciano.
Em depoimento à Polícia Civil de São Paulo, Patrícia Lelis, ex-militante da juventude do PSC, então partido de Feliciano, afirmou que o pastor a atraiu para seu apartamento funcional, em 15 de junho daquele ano, e tentou abusá-la. “Ele tentou levantar meu vestido e tirar minha blusa. Como eu não deixei, ele me deu um soco na boca e um chute na perna”, afirmou aos investigadores, segundo o relato do jornal O Estado de S.Paulo.

A jovem teria escapado após uma vizinha ouvir seus gritos e tocar a campainha para saber se estava tudo bem. Ainda de acordo com o relato da jovem, a agressão foi relatada à cúpula do PSC no dia seguinte. Ela recebeu, porém, uma oferta de suborno em troca de seu silêncio. A proposta teria sido feita pelo presidente nacional do partido, Pastor Everaldo, que concorreu à Presidência da República em 2014.
Desde então, Patrícia passou a ser perseguida e assediada por Bauer. Ela chegou a gravar, em Brasília, uma conversa com o chefe de gabinete de Feliciano, na qual acusa o parlamentar de assédio sexual e agressão. O áudio foi revelado, no início da semana, pelo jornalista Leandro Mazzini, do blog Coluna Esplanada, abrigado no portal UOL.
Em entrevista coletiva, o delegado responsável pelo caso, Luiz Roberto Hellmeister, do 3º. DP de São Paulo, confirmou que Bauer atuava para proteger Feliciano. “Ela disse que foi chamada por ele e teria que gravar vídeos, para jogar nas redes sociais, dizendo que nada do que ela havia dito anteriormente sobre o deputado tinha ocorrido”.
A então senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), que era procuradora da Mulher no Senado Federal, encaminhou um ofício ao Ministério Público do Distrito Federal, no qual solicitava uma investigação sobre os crimes atribuídos ao deputado.

“A denúncia é mais um caso de assédio sexual, praticado por figura tida como zelador de direitos e garantias individuais, e mais uma demonstração do cenário machista que compõe nosso parlamento e sociedade. O grave relato da estudante que foi pressionada a sair de Brasília evitando um escândalo precisa ser investigado e a culpa atribuída ao autor do fato”, escreveu a parlamentar.
Moralismo de fachada?
Pastor da Assembleia de Deus Catedral do Avivamento, Marco Feliciano elegeu-se deputado federal pela primeira vez em 2010, com 212 mil votos. No ano seguinte, chegou à presidência da Comissão de Direitos Humanos da Casa Legislativa, onde destacou-se pela agressiva agenda contra os direitos da mulher e da comunidade LGBT.

Feliciano fez intensa mobilização pela aprovação da projeto da “cura gay”, que pretendia autorizar psicólogos a tratar a homossexualidade como doença, na contramão de uma resolução do Conselho Federal de Psicologia. Assumiu, ainda, protagonismo na luta da bancada religiosa contra as propostas de ampliação ao direito do aborto.
Os holofotes o favoreceram na disputa pelo eleitorado conservador. Nas eleições de 2014, Feliciano quase dobrou o número de sufrágios obtidos do pleito anterior, tornando-se o terceiro deputado mais votado no estado de São Paulo.
