Pandemia: Indisciplinados até quando?

26/01/2021 0 Por Adriana Farias

Após fechamento de bailes clandestinos pela Polícia Militar, em São Paulo, a frase do cubano Oscar A. Delgado: “Não adianta o Governo e o pessoal da Saúde Pública se desgastarem em uma obra total contra a COVID-19 se há quem viole o estabelecido” é bem-vinda.

Show no Pará (2020), em plena pandemia, causa aglomeração – Foto: redes sociais

A frase acima foi um desabafo de um morador de Havana, Cuba, e colunista no Jornal Tribuna de La Habana, em um momento em que o número de casos de Coronavírus, no país, aumentou. Assim como no Brasil, Cuba flexibilizou o período das Festas de Fim de Ano para reunião com a família. A consequência é o aumento de casos aliado a uma nova cepa oriunda da Inglaterra e de Manaus. A indisciplina também ocorre aqui.

Com inúmeras notícias veiculando na imprensa como por exemplo, o aumento do caso de coronavírus após as festas de Final de Ano; o aumento de óbitos por Covid-19, em Manaus, após uma segunda onda incluindo a notificação de novas cepas, a maioria dos jovens se mostram indiferentes à transmissibilidade do SARs-Cov-2 pelos assintomáticos e parecem ignorar as medidas preventivas como o uso de máscaras de forma adequada e evitar aglomerações.

Em dezembro (2020) 2 mil jovens foram surpreendidos com a chegada da Polícia Militar, em Sorocaba (SP), para colocar fim em uma festa eletrônica clandestina. No sábado passado (23), agentes da Prefeitura do município de Cruzeiro (SP) e a PM também tiveram que acabar com uma festa Rave clandestina. Ontem (25), a PM, novamente, teve que interferir em um baile funk clandestino na Zona Leste da cidade de São Paulo. No Rio de Janeiro, o prefeito Eduardo Paes (DEM) diz àqueles que estavam em festa clandestina: “deixem de ser burros”.

Outro fato que chama a atenção é a falta de estrutura para vacinar os idosos. Há aglomeração de idosos para tomada de vacina na Bahia, como mostrou o G1. Além das festas de posse dos prefeitos eleitos que foram registradas no país.

Portanto, a preocupação do cubano é mais que reflexiva. Será que a disciplina viria com medidas taxativas? Porque somente quando pesa no bolso que as pessoas ficam ‘mais educadas’, apesar de sabermos que no Brasil, diferentemente dos países que se toma como ‘modelo’, essas medidas são inviáveis devido à enorme diferença social.

Além dessa, há uma outra diferença entre Brasil e Cuba: aqui impera a má gestão do presidente e seus Ministros, dos governadores e prefeitos quanto às medidas restritivas em relação ao combate ao vírus. Lockdown, por exemplo, nem foi cogitado. Resultado: a exposição ao que se chama de indisciplina social, o número exacerbado (e subnotificado) de mortes por Covid-19 e número de casos que não para de aumentar. Sem uma política educativa, a indisciplina é inevitável, diferentemente do que expôs o vice-presidente, Mourão, ao culpar apenas a população.

Em um momento em que os leitos de UTI dos hospitais privados estão com carga máxima nas capitais dos Estados, parte da população opta pelas festas clandestinas e funcionários da prefeitura (como secretários e organizadores) responsáveis pela logística da vacinação não contribuem de forma adequada para atender a população evitando aglomeração, só resta concordar que não bastam os esforços dos que estão na linha de frente no combate ao Coronavírus, a indisciplina é maior que prudência.

Segue a transcrição do desabafo de Oscar Alvarez Delgado:

O número de casos positivos na cidade alarma muitos, preocupa muitos outros e, infelizmente, um grande número de pessoas parece indiferente. É chocante ver todos os dias o número de novos casos positivos que o país notifica e, mais ainda, o aumento do número de casos graves.

Não adianta o Governo e o pessoal da Saúde Pública se desgastarem num esforço implacável contra a COVID-19 se, no último minuto, há quem viole tudo o que está estabelecido, contraindo a doença e o que é pior, disseminando-a.

Nos últimos dias tenho visto gente tomando cachaça “no bico” da garrafa e compartilhando a mesma garrafa com outras pessoas em plena via pública; outros caminhando pelas calçadas como se nada tivesse acontecido, tendo o ‘nasobuco’ (a máscara que deveria proteger contra os microrganismos) como babador enquanto “tomavam” uma cerveja ou um caminho incerto que pode terminar em uma sala de terapia intensiva ou pior.

E sem falar nas filas para comprar pão ou outras necessidades básicas onde em muitas oportunidades a distância não existe, ou só se vê no início da fila.

Sou daqueles que pensam que educar é sempre melhor do que punir, que as pessoas merecem uma segunda chance, mas tudo tem um limite. As pessoas já foram alertadas o suficiente sobre o perigo dessa doença que colocou o país sob tensão. Então, acho que chegou a hora de apertar as amarras com aqueles que ignoram as disposições para este tempo de pandemia”.

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