Pandemia agrava a crise do Transporte Público

17/01/2021 0 Por Adriana Farias

É hora de repensar o processo da desindustrialização, vacinação e legislação no Brasil

Em Curitiba, capital do Paraná, Sul do Brasil, os ônibus rodam somente com passageiros sentados desde o início do ano. – Foto: Daniel Castellano / SMCS

| O setor de mobilidade pública, via transporte coletivo, sofreu forte impacto com a pandemia. Uma das apostas para retomada de crescimento no setor é a vacinação. O setor ainda defende a “modernização” do marco regulatório de modo federalizado.

A Folha de São Paulo trouxe uma matéria bastante completa sobre a crise do transporte público. O transporte público circula com 61% dos passageiros. Era esperado que após a retomada do trabalho, a circulação seria de 80% por causa da ausência de pessoas idosas ou com comorbidade. No entanto, isso não aconteceu. Agora, o setor está à espera de uma retomada de capital com a vacinação e com a proposta de especialistas do setor para a modernização de um marco regulatório.

O que a Folha não conta é que existem dois processos bem complexos para que haja recuperação do setor.

Primeiro que, segundo informações coletadas nas mídias mais veiculadas no país e canais oficiais do governo, o governo sequer tem uma proposta para campanha de vacinação, aliás, sequer tem aprovação de uma vacina por um órgão regulador. Para que a vacina tenha o efeito desejado espera-se que, ao menos, 90% da população seja vacinada. 70% é um limite razoável. No entanto, é possível que não se atinja nem os 70% devido a forte campanha de apelo negativo estimulada pelo líder da nação. As pessoas continuarão se infectando e com medo de usar transporte coletivo devido ao fator “aglomeração”. Um estudo realizado pelo Labcidade, da USP, mostrou a relação transporte coletivo x contágio por coronavírus. Ou seja, mesmo com as devidas medidas preventivas, elas não foram suficientes para sanar o problema da infecção. Sem uma política de imunização adequada, poderemos ter problemas mais sérios, futuramente.

O segundo entrave para recuperar a receita lucrativa das empresas de transporte coletivo se refere à modernização do marco regulatório. Esse tema já foi discutido em 2019 por especialistas do setor. Mesmo antes da pandemia, o setor já estava estagnado e prevendo uma crise por dois motivos: o uso de aplicativos de transporte e o desemprego. Com a desindustrialização em alta e com a adesão de mais desempregados em aplicativos de transporte, a conta para o aumento no número de passageiros não fecha. No entanto, esse tema leva a uma utopia mercadológica. Será necessário mover muitos esforços, diria um esforço colossal, para entender que haverá interferência entre as esferas federais, estaduais e municipais. A história recente nos tem mostrado que quando há divergência entre os líderes políticos, há problema.

O caso mais recente é a vacina no combate ao coronavírus, em que há disputa de âmbito estadual e federal. O governo federal se eximiu de medidas mais restritivas deixando o ônus para governadores e prefeitos negando, inclusive, a Ciência. No entanto, na hora de colher o bônus (com aprovação da vacina que ele nega) quer que seja de cunho federativo para aumentar a popularidade e “cavar” uma reeleição.

O mesmo poderá acontecer se as medidas para um novo marco regulatório (do transporte coletivo) não forem bem estudadas e implementadas, como se espera o setor. Porque quem sempre leva o prejuízo é o cidadão.

Em um país cujo órgão regulador aprova medicamentos que a Ciência não aprova e burocratiza vacina que a ciência mostra bastante eficácia, fica difícil não acreditar que haverá politização nas medidas de regulamentação do setor de transporte coletivo.

Há ainda um outro fator que agrava a retomada do aumento de passageiros que utilizam os transportes coletivos: a desindustrialização. Com a crise econômica prevendo fechamento de empresas nacionais como o Banco do Brasil, Odebrecht e multinacionais como Ford, Sony (todas fechadas com Bolsonaro) é possível que haja menos empregados utilizando transporte coletivo.

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