Cineasta faz seu mea-culta e diz que foi “um idiota de ter acreditado” no ex-juiz parcial que virou ministro de Bolsonaro por ter impedido a eleição de LULA
José Padilha, de O Mecanismo (2018), se arrepende de ter retratado o condenado pelo STF e ONU a carregar o rótulo de “parcial”, Sergio Moro, como herói da operação Lava Jato, declara voto em LULA no segundo turno e diz que o ex-juiz também seria um bandido no filme.
O cineasta faz seu mea-culpa, após o surgimento da verdade sobre o ex-juiz que virou ministro de Bolsonaro por ter impedido a eleição de LULA e diz que se fosse refazer o filme “não ia ter herói nenhum. Ia ter só bandido dos dois lados“.
Em entrevista entrevista à edição da revista VEJA de 1 de junho de 2022, Padilha falou, da Califórnia, que “quando vazaram as mensagens trocadas entre o Ministério Público e o Moro, ficou óbvio que a condução da Lava-Jato não foi republicana“.
Padilha diz que a produção refeita teria “um lado roubando os cofres públicos” e “o outro deturpando as leis processuais para atingir objetivos“, afirmou referindo-se especialmente a Sergio Moro e Deltan Dallagnol.
“Depois viraram objetivos políticos, sim. Ficou bem claro que teve uma perseguição. (…) ficou óbvio que houve uma exacerbação dos casos contra o Lula para tirá-lo da eleição“, afirmou Padilha.
Em um dos trechos, o cineasta disse, sem citar Moro, que “o cara erra e nega até o fim dos tempos. Todo mundo vê, está cheio de gente que sabe o que aconteceu. (…) A Lava-Jato foi uma perda de oportunidade para o Brasil. Se fosse refazer hoje O Mecanismo, não ia ter herói nenhum, só bandido“.
Leia os principais trechos das respostas do cineasta à revista:
“O Moro é a maior decepção que já tive na Justiça e na política brasileira. Ele virou ministro do Bolsonaro após uma eleição na qual ajudou a eliminar o Lula. E no minuto em que você faz isso e vira ministro do cara que foi eleito, demonstra claramente qual o seu caráter”.
“Quando ele virou ministro, escrevi que ele era o oposto dos juízes italianos que lutaram contra a máfia, porque o Bolsonaro é ligado à milícia. A milícia é máfia, então como pode o cara que se diz um juiz corajoso, que quer aplicar a lei como os juízes italianos se juntar ao candidato das milícias? Moro sabia que Bolsonaro representava isso. Ele não iria trabalhar para um presidente sem pesquisar um pouco sobre a vida dele. Em suma, eu fui naïve. Fui ingênuo. Mas não só eu, um monte de gente caiu na mesma ilusão.
“A operação revelou uma coisa essencial para o brasileiro. E está aí o crime da Lava-Jato: ela teve a chance de fazer direito, e não fez. Mas quero dizer uma coisa: Lava-Jato à parte, o imperativo do Brasil é tirar o Bolsonaro do governo. Com Bolsonaro e Lula no segundo turno, eu voto no LULA (…) Voto nele sem pestanejar. Pois não adianta viver no mundo ideal, abstrato, descolado do que ocorre. A escolha está dada para o brasileiro“.
“O Bolsonaro é um mentecapto (…) um sujeito que traz em si todas as características do miliciano do Tropa de Elite 2. O final do Tropa 2, que mostra os milicianos chegando à política, foi profético de uma maneira que eu gostaria que não tivesse sido“.
“Tinha candidato de milícia sendo eleito para o Congresso. Eu não esperava que fosse chegar à Presidência, muito menos com um sujeito tacanho, imoral, desqualificado, como o Bolsonaro é. O objetivo número 1 de qualquer brasileiro racional é tirar o Bolsonaro da Presidência. É um imperativo ético, moral. O governo Bolsonaro é horroroso, não só pelo que fez durante a Covid. É o que ele fala, é o apoio à tortura, é a destruição da Floresta Amazônica“.
“O Rio de Janeiro é totalmente tomado por milícias. E agora tem a narcomilícia, que vende droga. E a milícia continua elegendo gente. É esse pessoal que elegeu o Bolsonaro, a quem o Moro se juntou. Por isso eu o chamei, lá atrás, de “anti-Falcone” (juiz que conduziu a Operação Mãos Limpas na Itália e foi assassinado em 1992). O cara se associou aos milicianos, aos mafiosos, é inacreditável essa trajetória. Realmente, eu fui um idiota de ter acreditado em Sergio Moro“.
“Eu diria que o Wagner [Moura] teve muito mais clareza que eu com relação à natureza da Lava-Jato. E eu tive mais clareza que ele com relação ao Partido dos Trabalhadores. Os dois estavam errados, na minha opinião. Mas é uma burrice você criar picuinha e estresse com um amigo por divergências em torno de política. Eu dou meu braço a torcer, e digo aqui: Wagner, você tinha toda a razão sobre a Lava-Jato. Sem problema nenhum.
“A visão dos militares sobre a Amazônia, refletida pelo Bolsonaro, sempre foi de cunho paranoico e delirante, com suas ideias de que vão tomar a Amazônia. É uma mentalidade tão tacanha que nem consegue ver a importância da Amazônia para a biodiversidade ou o clima. Os povos nativos não são levados em conta. Leonardo DiCaprio está certo”.
