O ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro durante posse em 2015, no governo de Dilma Rousseff | Foto de André Coelho / Agência O Globo
Para o ex-ministro da Educação do governo Dilma Rousseff, “os crimes” do ‘8 de Janeiro’ “podem ser o ensaio geral de um golpe futuro”
O ex-ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, no governo Dilma Rousseff em 2015, diz, em artigo “a título pessoal“, como destacou o jornal Folha de S. Paulo, que “os crimes” do ‘8 de Janeiro’ “podem ser o ensaio geral de um golpe futuro“. E adverte: “Ou quebramos o ovo da serpente ou ele acabará eclodindo“.
“Usemos do raciocínio. A turba que invadiu o Planalto —uma mistura de perfeitos imbecis, que geraram nas redes provas contra si mesmo, e de desqualificados que roubaram, destruíram e defecaram— não passava de carne para canhão. Pretendiam eles tomar o poder? Poupem-me! Não, eles foram financiados para criar uma convulsão social“, inicia o Professor titular de ética e filosofia política da USP, e também presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência).
Janine explica que “seus mandantes, que não apareceram nas câmeras mas pagaram ônibus, lanches e banheiros químicos, só podiam querer um pretexto para uma junta militar. Imaginem se alguns dos idiotas úteis tivessem morrido, ou se além deles também morresse gente respeitosa da lei e da democracia. Haveria um álibi magnífico para se alegar que o governo não conseguia manter a ordem e que então os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica (os atuais ou outros, isso não importa) deveriam tomar o poder“.
“Com essa desculpa, eles implantariam um bolsonarismo sem Jair Bolsonaro. Não chamariam o foragido de sua mansão na Flórida para repô-lo na Presidência. Pode até ser que, para inglês ver, o criticassem. Brandamente. Mas seria instituído um regime de exceção, fechando o Congresso, o Supremo e, obviamente, prendendo Lula e vários de seus ministros. Não tenho nenhuma informação a respeito. Mas às vezes a lógica ajuda —e muito. Obviamente, a multidão na Esplanada não teria a menor competência para dirigir o país. E nenhuma liderança com dois neurônios parecia estar por lá“, escreve.
“Era um caso típico de tirar as castanhas do fogo com a mão alheia. Os alguns milhares de terroristas —que cometeram crimes e devem ser punidos por isso— eram meros instrumentos de gente mais esperta, escondida. Mortes eram necessárias para o cenário que aqui descrevo. Não houve, felizmente, mas bastava um dos terroristas atirar em alguém (ameaçaram matar a jornalista Teresa Cruvinel e torturaram um jornalista de “O Tempo”, de Belo Horizonte) ou um deles ter sido alvejado, que o roteiro se produziria“, prossegue Janine em seu texto de alerta.
O ex-ministro diz que “não faltariam rábulas para afirmar que em momentos de exceção se justificam medidas de exceção para, a exemplo da ditadura de 1964, rabiscar mais algum Ato In(con)stitucional. Escapamos disso por pouco. A reação rápida do presidente Lula, intervindo na segurança pública do Distrito Federal e, mais ainda, do ministro Alexandre de Moraes, afastando o governador local por suspeita de “omissão dolosa”, abortaram o projeto. Manteve-se a democracia, ainda que vulnerável e frágil“.
“No fim da tarde, a PM do Distrito Federal, antes leniente com os criminosos, retirou-os das sedes dos Três Poderes. Mas foi preciso a determinação severa de Moraes para serem fichados os terroristas. Tudo isso mostra que os riscos continuam. Foi um fracasso rotundo, mas pode ter sido apenas um ensaio geral para o próximo golpe. O golpe de 1964 foi preparado em várias tentativas, começando em 1954, com a morte de Getúlio“.
“No ano seguinte, houve eleições”, lembra o autor do texto, “como as houve em 2022, mas ainda assim o presidente em exercício, talvez o mais infame de nossa história, Café Filho, tentou impedir o eleito, Juscelino Kubitschek, de assumir a Presidência (anos mais tarde, o golpista Carlos Lacerda daria a Café Filho uma sinecura na Guanabara)”.
“Seguiram-se as rebeliões de Jacareacanga e Aragarças (cujo culpado, Haroldo Veloso, dá nome a uma rua de bairro chique em São Paulo) e a Operação Mosquito, que pretendia assassinar João Goulart e quem mais estivesse no avião que o levava para a posse em Brasília“.
Os crimes de domingo (8) podem ser o ensaio geral de um golpe futuro. Ou quebramos o ovo da serpente ou ele acabará eclodindo”, pontua Janine.

Um paralelo muito bom!
E tão recente que fica provado o desprezo das “elites” pela memória, politização e Capacidade de Raciocínio Abstrato do “populacho”!
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