Ministro da Fazenda lembrou participação em podcast onde argumentou sobre as fintechs como ferramenta do crime organizado – ENTENDA
Brasília, 01 de setembro de 2025
“Há seis meses nessa entrevista ao Flow eu alertava que as fake news contra a Receita Federal só interessavam aos criminosos”, afirmou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), em suas redes sociais, no final da noite deste domingo (31/ago).
“Atravessamos a turbulência firmes no nosso propósito e entregamos a maior operação de combate ao crime organizado do país”, completou, referindo-se à operação que revelou ao Brasil o crime organizado infiltrado na Faria Lima.
No Flowpodcast, em 7 de março, Haddad alertou para a utilização de fintechs por organizações criminosas para lavar dinheiro.
“Tem muito crime organizado que tá usando algumas fintechs pra lavar dinheiro. E a Receita aproveitou o ensejo pra falar pras fintechs: ‘Olha, vocês vão ter que informar também, porque nós estamos notando aqui que tem alguns troços esquisitos acontecendo aqui, envolvendo combustível, suspeita de droga, suspeita de não sei o quê que eu quero olhar’”, afirmou Haddad.
Ele destacou que o foco da fiscalização não é atingir pequenos empreendedores, como “o cara que tá vendendo bolo na feira pra ganhar um troco e complementar o orçamento familiar”, mas sim rastrear “volumes enormes de dinheiro que são transacionados pelo crime organizado”.
Haddad reforçou o alerta em sua conta no X, celebrando a maior operação de combate ao crime organizado do país, liderada pela Receita Federal.
Há seis meses nessa entrevista ao Flow eu alertava que as fake news contra a Receita Federal só interessavam aos criminosos. Atravessamos a turbulência firmes no nosso propósito e entregamos a maior operação de combate ao crime organizado do país. pic.twitter.com/VCDLM6KW1P
— Fernando Haddad (@Haddad_Fernando) August 31, 2025
A operação, batizada de Carbono Oculto, revelou um esquema bilionário de lavagem de dinheiro envolvendo a facção Primeiro Comando da Capital (PCC), que utilizava fintechs e fundos de investimento para ocultar recursos ilícitos.
Nova Regulamentação para Fintechs
Na sexta-feira (29/ago), a Receita Federal publicou uma instrução normativa que equipara as fintechs aos bancos em termos de obrigações de transparência.
A medida, assinada pelo secretário Robinson Barreirinhas, exige que essas instituições informem movimentações financeiras suspeitas por meio do documento e-Financeira, que registra transações de alto valor.
“As fintechs têm sido utilizadas para lavagem de dinheiro nas principais operações contra o crime organizado, porque há um vácuo regulamentar”, declarou a Receita Federal em nota publicada pela Agência Brasil.
A norma visa combater crimes como lavagem de dinheiro, fraudes fiscais e sonegação, com foco em operações de grande escala.
A decisão veio na esteira de três grandes operações realizadas em 28 de agosto de 2025, que resultaram em mais de 400 mandados judiciais, incluindo 14 prisões e centenas de buscas e apreensões em oito estados.
Segundo a Polícia Federal e o Ministério Público de São Paulo, os grupos criminosos movimentaram cerca de R$ 140 bilhões de forma ilícita, utilizando fintechs como “banco paralelo” para ocultar recursos.
A Operação Carbono Oculto, em particular, revelou que uma fintech movimentou R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024, com mais de 10,9 mil depósitos em espécie totalizando R$ 61 milhões, prática incomum para instituições que operam apenas com dinheiro escritural.
Impacto das Fake News
A regulamentação das fintechs enfrentou resistência no início de 2025, quando uma tentativa semelhante foi revogada devido a uma campanha de desinformação.
Fake news, amplamente disseminadas, associaram a medida a uma suposta taxação do Pix, gerando pânico na população.
“Uma onda enorme de mentiras e fake news, atribuindo uma falsa tributação dos meios de pagamento a essa normatização, acabou prejudicando o próprio uso desses instrumentos”, lamentou a Receita Federal em comunicado.
Essa desinformação, segundo Barreirinhas, beneficiou diretamente o crime organizado, que explorou o vácuo regulatório para operar impunemente.
O planejador financeiro Jeff Patzlaff destacou que a narrativa da taxação do Pix gerou medo de vigilância financeira, levando parte da população a desconfiar de bancos e sistemas digitais.
“Esse pânico afetou a confiança no sistema oficial e fez parte da população olhar com desconfiança para bancos, governo e mecanismos digitais”, afirmou.
Golpistas aproveitaram a confusão para aplicar fraudes, como mensagens solicitando pagamentos para “regularizar” supostas cobranças.
Esquema Criminoso e Infiltração na Economia Formal
A Operação Carbono Oculto, deflagrada com apoio da Polícia Federal, Ministério Público e outros órgãos, expôs como o PCC se infiltrou em setores como combustíveis e mercado financeiro.
Cerca de 1.000 postos de combustíveis vinculados ao grupo movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, com recolhimento de tributos incompatível com suas atividades.
Além disso, 140 postos foram usados para emitir R$ 2 bilhões em notas fiscais simuladas, ocultando valores ilícitos.
O esquema também envolvia 40 fundos de investimento, com um patrimônio de R$ 30 bilhões, usados para blindar recursos do crime.
“A fintech atuava praticamente como o banco paralelo do crime organizado”, afirmou Andrea Costa Chaves, subsecretária de fiscalização da Receita Federal, conforme mostrou o g1.
A operação identificou o uso de “contas-bolsão”, que misturam recursos de diversos clientes em uma única conta, dificultando o rastreamento.
Reação do Setor e Perspectivas
A ABFintechs, associação que representa o setor, manifestou apoio à nova regulamentação, destacando iniciativas como o selo Fintech Segura e a criação de um selo específico para combate à lavagem de dinheiro.
“A atualização vem em um bom momento, mas já era necessária há bastante tempo”, afirmou a entidade.
A expectativa é que a medida fortaleça a transparência e a segurança no setor financeiro digital.
A nova norma da Receita Federal marca um avanço na luta contra o crime organizado, mas também evidencia os desafios de combater a desinformação.
Como destacou Haddad, “alguém não quer ser encontrado”.
A regulamentação busca fechar brechas exploradas por criminosos, protegendo a economia formal e promovendo justiça fiscal.







