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Onyx Lorenzoni na CPI do INSS: a defesa, acusações e a sombra de doações duspeitas

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    Onyx Lorenzoni
    Onyx Lorenzoni na CPMI do INSS 6.11.2025 Foto Bruno Spada – Câmara dos Deputados


    Ex-ministro de Bolsonaro nega irregularidades em esquema bilionário, enquanto parlamentares apontam elos entre seu governo, seu filho e entidades investigadas por fraude em aposentadorias



    Brasília, 07 de novembro 2025

    A sessão da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS que ouviu Onyx Lorenzoni, ex-ministro-chefe da Casa Civil do Governo Bolsonaro, já havia se transformado em um palco de alta tensão antes mesmo de seu depoimento começar.

    A reunião não foi aberta com as palavras do ex-ministro, mas com a revelação explosiva de ameaças de morte contra o vice-presidente da comissão, o deputado Duarte Júnior, e um confronto direto sobre um duro editorial do jornal O Estado de S. Paulo que questionava a eficácia da investigação.

    Foi nesse clima eletrizado que Lorenzoni adentrou o plenário, em um momento crucial da apuração do esquema bilionário de fraudes contra aposentados.

    O evento expôs uma dualidade central: de um lado, a defesa assertiva de Lorenzoni sobre as ações de seu governo; de outro, as graves acusações levantadas por parlamentares, conectando sua gestão, sua família e sua campanha a entidades no epicentro do escândalo.

    Mais do que um simples depoimento, a sessão escancarou a profunda guerra de narrativas políticas que permeia a comissão.

    A Defesa de Lorenzoni: Proatividade e Rejeição de Responsabilidade

    A linha de defesa de Onyx Lorenzoni foi uma manobra estratégica calculada para reposicionar o Governo Bolsonaro não como um facilitador do esquema de fraudes, mas como a primeira administração a combatê-lo ativamente.

    O ex-ministro chegou munido de dados da Controladoria-Geral da União (CGU), buscando reescrever a linha do tempo da fraude e transferir a culpa para a gestão atual do Governo Lula.

    Os pilares de sua argumentação foram detalhados da seguinte forma:

    • Medida Provisória 871: Apresentada como a “primeira e única” medida legislativa em 34 anos destinada a atacar frontalmente as fraudes no INSSLorenzoni afirmou que a MP foi elaborada já na transição de governo, em 2018, e editada na segunda semana de gestão, em janeiro de 2019, como prova de uma ação imediata.
    • Dados de Descontos: O ex-ministro contrastou a variação de 14% nos descontos associativos durante o Governo Bolsonaro com a variação de 49,4% no governo anterior (Governo Temer) e o crescimento de 303% no atual Governo Lula. Ele destacou que o número de aposentados com desconto diminuiu em 72.116 durante sua gestão.• Autonomia do INSS: Lorenzoni argumentou que o INSS é uma autarquia autônoma e que a celebração de Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) com associações não passa pela decisão de um ministro, isentando-se da responsabilidade direta pelas autorizações concedidas a entidades investigadas.
    • Combate a Fraudes em Consignados: Mencionou as ações de seu governo contra fraudes em empréstimos consignados, como o acordo firmado com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e a implementação do bloqueio automático de benefícios para novos empréstimos, exigindo autorização expressa do segurado para o desbloqueio.

    Apesar da defesa robusta, baseada em números e na estrutura administrativa do Estado, sua argumentação foi duramente contestada por parlamentares, que trouxeram à tona conexões que colocaram o ex-ministro sob forte suspeita.

    O Contra-Ataque:
    Doações de Campanha e Conexões Familiares

    A linha de questionamentos do relator, deputado Alfredo Gaspar, mudou o foco do depoimento, pivotando da defesa de políticas governamentais para um intenso interrogatório sobre possíveis conflitos de interesse pessoais e financeiros, que encurralou o ex-ministro e o colocou diretamente no centro de conexões suspeitas com os principais operadores do esquema.

    As duas principais acusações direcionadas a Lorenzoni foram:

    Doação de R$ 60.000: Parlamentares revelaram que a campanha de Lorenzoni para governador do Rio Grande do Sul em 2022 recebeu uma doação de R$ 60.000 de Felipe Macedo Gomes, presidente da Amar Brasil, uma das principais entidades investigadas por desvios milionários. Em sua defesa, Lorenzoni afirmou não conhecer o doador, ressaltando que a doação foi legal, declarada e aprovada por unanimidade pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), a pedido do Ministério Público. Ele argumentou que, em uma campanha majoritária, é impossível conhecer todos os doadores.
    • O Filho Advogado: A comissão também expôs que seu filho, Pietro Lorenzoni, atuou como advogado para a UNIBAP (antiga Unibrasil), outra entidade investigada que, segundo parlamentares, teve um crescimento exponencial de receita durante a gestão BolsonaroLorenzoni defendeu a competência profissional de seu filho, negando qualquer tráfico de influência ou conhecimento sobre os clientes do escritório.

    O ponto nevrálgico que uniu as críticas foi o Decreto 10.537/2020, assinado por Lorenzoni. A crítica central é que este decreto ampliou a definição de entidades elegíveis para firmar ACTs com o INSS, indo além de órgãos de representação tradicionais para incluir “clubes de benefícios”. Segundo os parlamentares, foi este instrumento que abriu a porta para que grupos como a Amar Brasil e a UNIBAP pudessem operar legalmente, servindo de munição para a grande disputa política sobre qual governo carrega a responsabilidade pelo esquema.

    A Guerra de Narrativas:
    A Culpa é do Governo Bolsonaro ou do Governo Lula?

    O depoimento de Onyx Lorenzoni cristalizou o que a CPMI do INSS se tornou: um campo de batalha de narrativas políticas.

    De um lado, a oposição busca isentar o Governo Bolsonaro, retratando-o como um combatente da corrupção.

    De outro, a base governista aponta as ações da gestão anterior como a causa direta da explosão das fraudes. Ambos os lados utilizam dados, decretos e leis para atribuir a responsabilidade pelo desvio bilionário de recursos dos aposentados.

    A seguir, um resumo dos principais argumentos de cada lado:

    Argumentos da Oposição (Defesa do Gov. Bolsonaro) Argumentos da Base Governista (Crítica ao Gov. Bolsonaro)
    Governo Bolsonaro foi pioneiro no combate à fraude com a MP 871 de 2019. Governo Bolsonaro fragilizou as normas com o Decreto 10.537/2020, permitindo a entrada de entidades fraudulentas.
    Os descontos associativos se mantiveram estáveis ou caíram durante a gestão 2019-2022. Governo Bolsonaro sancionou a lei (originada de um “jabuti” na MP 1.106/2022 – inclusão de um tema estranho ao texto original da proposta) que acabou com a necessidade de revalidação dos descontos, abrindo a “porteira” para a fraude.
    A explosão real dos descontos e do número de vítimas ocorreu a partir de 2023, já no Governo Lula. Os ACTs com as entidades mais fraudulentas foram assinados durante a gestão Bolsonaro, preparando o terreno para a explosão posterior.
    Governo Lula demorou a agir e só suspendeu os descontos após a operação da Polícia Federal e pressão da mídia. Governo Lula foi quem de fato interrompeu o esquema, afastou os responsáveis e iniciou a devolução de bilhões aos aposentados.

    Para além da disputa política, a investigação da CPMI busca identificar o “núcleo político” que deu sustentação ao esquema. Nas palavras do presidente da comissão, senador Carlos Viana“Olha, nós já temos aqui todo o núcleo criminoso operativo, mas cadê o núcleo criminoso político? Cadê aqueles que indicaram? E eles receberam o quê pelas indicações para manter essas pessoas roubando os aposentados?”

    Bastidores da CPI:
    Ameaças, Pressões e o Clima no Congresso

    A oitiva de Lorenzoni serviu de palco para revelar as tensões e os perigos que rondam a investigação, mostrando que a apuração vai além dos gabinetes e atinge diretamente a segurança dos parlamentares. O incidente mais grave envolveu o vice-presidente da comissão, deputado Duarte Júnior. Ele relatou em plenário ter recebido ameaças diretas via WhatsApp do deputado estadual do MaranhãoEdson Araújo, ligado a uma das confederações de pescadores investigadas. Em resposta imediata, o presidente da CPMI, senador Carlos Viana, agindo “de ofício” (por iniciativa própria), solicitou proteção da Polícia Legislativa da Câmara dos Deputados e da Polícia Federal para Duarte Júnior e sua família.

    Além das ameaças, os parlamentares abordaram a crítica sobre a cobertura da imprensa, citando o editorial do jornal O Estado de S. Paulo intitulado “O triste fim da CPI do INSS”. Membros da comissão reagiram, defendendo a seriedade do trabalho e afirmando que a investigação está entrando em sua fase mais delicada: a identificação dos “padrinhos políticos”. A resposta de Carlos Viana a seus colegas foi um desafio direto: “Vamos provar que o editorial está errado pelos nossos resultados, não pelas nossas palavras.”

    Entre a Defesa e a Suspeita, o Futuro da Investigação

    O longo depoimento de Onyx Lorenzoni terminou com um saldo ambíguo. Por um lado, o ex-ministro apresentou uma defesa robusta, baseada em dados oficiais e na autonomia legal do INSS, para sustentar a narrativa de que o Governo Bolsonaro agiu para coibir, e não para facilitar, as fraudes. Por outro, não conseguiu dissipar as graves suspeitas levantadas pelas conexões de sua campanha eleitoral e de seu filho com figuras e entidades centrais no esquema de desvio de dinheiro de aposentados.

    Ao final, a mensagem reforçada pelo presidente da comissão, Carlos Viana, foi clara: o foco da CPMI agora é desvendar o “núcleo político” que sustentou a fraude por anos. A comissão seguirá com novas oitivas de operadores do esquema, e a expectativa da sociedade é pela responsabilização de todos os envolvidos, desde os servidores públicos que facilitaram os acordos até os padrinhos políticos que garantiram sua permanência nos cargos, independentemente de filiação partidária ou cargo ocupado.



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    1 comentário em “Onyx Lorenzoni na CPI do INSS: a defesa, acusações e a sombra de doações duspeitas”

    1. REINALDO GONCALVES DA CRUZ

      Onde há bolsonarismo, o mínimo que se pode encontrar é roubo. São preparados, são estrategistas. A prisão desses larápios é o que a justiça precisa fazer e a sociedade quer.

    Os comentários estão fechados.

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