
Fila com brasileiros bolsonaristas em êxodo vira a madrugada em Ciudad del Este, no Paraguai / Foto: Fernando Otto/BBC
Brasília (DF) 05 de maio de 2026
O sonho de uma vida com menos impostos e mais “liberdade”, conforme alegações, virou pesadelo logístico para a pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Enquanto o senador se articula para suceder Jair Bolsonaro na disputa presidencial de 2026, um movimento silencioso, mas robusto, evapora sua potência eleitoral: a emigração em massa de brasileiros, majoritariamente bolsonaristas, para o Paraguai.
A debandada expõe uma contradição no discurso da direita radical: ao mesmo tempo que clama por “salvar” o Brasil, uma parcela significativa de seus apoiadores mais engajados está, de fato, abandonando o país.
O fenômeno, registrado em números históricos pela Direção Nacional de Migrações do Paraguai (DNM), transformou cidades de fronteira como Ciudad del Este em extensões do ideário bolsonarista no exterior.
A reportagem da BBC que ouviu dezenas de imigrantes na fila do mutirão Migramovil, em março, captou a essência do discurso. “Nós, da direita, nos sentimos as pessoas mais oprimidas. A gente não tem liberdade”, desabafou a aposentada Zena Cheraze, de 68 anos, vinda do Rio de Janeiro.
Professora aposentada, ela percorreu 1,5 mil km de ônibus “no escuro”, guiada por promessas vistas no YouTube.
Recorde atrás de recorde
Os números comprovam que não se trata de um movimento isolado, mas de uma tendência estrutural. De acordo com o balanço trimestral da DNM divulgado em abril, o primeiro trimestre de 2026 registrou 18.071 pedidos de residência de estrangeiros, um salto de 85% em relação ao mesmo período de 2025, conforme dados do H2FOZ.
Os brasileiros lideram com folga. Das 14.275 autorizações concedidas, 64% (ou 9.195) foram para cidadãos do Brasil. Em 2025, o recorde já havia sido batizado com 23,5 mil brasileiros recebendo o visto, um número que deve ser duplicado até o final de 2026.
O “paraíso liberal” e a preocupação de Flávio
A principal motivação alegada, repetida à exaustão por empresários e aposentados nas filas, é a busca por “mais liberdade econômica”.
O discurso é alimentado por uma engrenagem digital robusta. Influenciadores bolsonaristas vendem o Paraguai como uma terra sem impostos e sem o suposto “peso” das leis trabalhistas brasileiras.
E o fenômeno começa a preocupar nos círculos políticos do PL. Se Flávio Bolsonaro depende de uma base engajada e de alto poder de voto — composta por empresários, autônomos e aposentados —, a evasão física desse contingente para o outro lado da Ponte da Amizade representa um desastre eleitoral silencioso.
A reportagem da BBC ouviu Cornelio Melgarejo, chefe de imigração de Alto Paraná, que confirmou a guinada ideológica do perfil do imigrante.
“Dois anos atrás, 80% eram estudantes de Medicina. Agora, vemos muitos empresários e aposentados em busca de estabilidade política”, disse.
Em vídeos virais, a narrativa é unânime: a culpa pela saída recai sobre o governo federal.
O empresário Dilberto Wegrnen, de Cascavel (PR), resumiu o sentimento na fila do mutirão: “Empresários estão saindo do Brasil para vir para o Paraguai. Aqui, a carga tributária é muito menor e as leis trabalhistas são muito mais acessíveis”.
O que ele não menciona é o outro lado da moeda apontado por análises menos ufanistas: serviços de saúde precários e infraestrutura instável.
O paradoxo do “empreendedor” migrante
Enquanto Flávio Bolsonaro ainda não decolou na corrida presidencial, o êxodo escancara um paradoxo. Se o Brasil é um “inferno” tributário, como alegam os migrantes, a fuga em massa enfraquece justamente quem poderia ser a solução política prometida por eles.
O Paraguai, governado por Santiago Peña — nono presidente de direita consecutivo após a ditadura de Alfredo Stroessner —, capitaliza o movimento.
O governo paraguaio criou os mutirões Migramovil para acelerar a burocracia e atrai investidores, enquanto o Brasil corre o risco de ver sua classe produtora de opinião (e votos) se esvair pela fronteira seca.
A reportagem do Diário do Centro do Mundo expõe um detalhe incômodo para os que se aventuram: a alta taxa de desistência. Muitos não conseguem se adaptar à burocracia local ou à realidade de um país economicamente mais frágil.
A “liberdade econômica” vendida nas redes sociais, na prática, esbarra na falta de hospitais de qualidade e na informalidade do mercado de trabalho.
A pergunta que fica para a pré-campanha de Flávio Bolsonaro é: como ser líder de um movimento que prefere a fuga à resistência?
Enquanto os números da DNM não param de subir — a expectativa é bater 100 mil novos residentes em 2026 —, o senador ensaia discursos de pátria amada, mas vê sua base eleitoral literalmente deslocar seu domicílio eleitoral para o Mercosul.
Fontes ligadas à Direção Nacional de Migrações do Paraguai indicam que um novo mutirão deve ser anunciado para a primeira quinzena de maio em Encarnación, visando atender a demanda reprimida de brasileiros oriundos do Sul do Brasil.
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Espero que levem os mais de 58 milhões que votaram na extrema direita e tranquem os portões e joguem as chaves fora!