
📷 O chefe da Meta, Mark Zuckerberg, apresenta os novos óculos inteligentes da Meta 17.9.2025 |•| Reuters via BBC |•| URBS MAGNA
| Brasília (DF)
08 de agosto de 2026
Bares, restaurantes e teatros do Reino Unido começaram a proibir os óculos inteligentes da Meta em seus estabelecimentos, após uma série de casos de gravação secreta e até chantagem envolvendo o dispositivo.
A medida, adotada por redes como Wetherspoons e pelo clube Soho House, expõe o limite entre inovação vestível e vigilância disfarçada de moda.
O que são esses óculos e o que eles fazem
Vendidos por £359 [(±) R$ 2.461,98] no Reino Unido, os óculos inteligentes da Meta são praticamente indistinguíveis de armações comuns da grife Ray-Ban, mas escondem câmera, microfones e um assistente de inteligência artificial embutidos nas hastes.
O usuário pode fotografar e filmar sem tirar o celular do bolso, fazer chamadas com as mãos livres, ouvir música e acionar traduções em tempo real, segundo descreveu o site britânico Stuff.
Um pequeno LED pisca durante a gravação, e a Meta afirma que a câmera é desativada automaticamente se alguém cobre ou danifica esse indicador — mas a luz é discreta demais para chamar atenção em um bar cheio ou em um teatro escuro.
O produto já vendeu mais de 7 milhões de unidades no mundo, com as vendas triplicando no último ano.
A proibição no Reino Unido partiu, entre outros, do renomado restaurateur londrino Jeremy King, dono de casas como o Simpsons in the Strand, e da rede de pubs Wetherspoons, cujo fundador, Tim Martin, afirmou à emissora LBC que os óculos “parecem violar esse código e o bom senso, ao permitir vigilância sub-reptícia”.
O que essa tecnologia pode se tornar, se for permanentemente permitida
Caso o uso desses óculos continue avançando sem restrições legais mais duras, a tendência é uma escalada tecnológica que torna o consentimento cada vez mais difícil de garantir.
A própria Meta já testa modelos com tela embutida e versões para lentes de grau, ampliando o público potencial de usuários.
Outras fabricantes — a Apple inclusive avalia se lança óculos com câmera — correm para ocupar o mesmo espaço, o que deve multiplicar o número de pessoas circulando com dispositivos de gravação praticamente invisíveis.
Se cada pessoa em um ambiente público puder, em teoria, estar gravando permanentemente, o conceito de espaço privado dentro de locais públicos — um bar, um vestiário, uma sala de aula — passa a depender inteiramente da autorregulação de cada fabricante, e não de uma legislação clara.
É esse vácuo regulatório, mais do que a tecnologia em si, que motiva a reação das casas britânicas.
Qual foi a ideia da Meta ao lançar o produto
O lançamento dos óculos inteligentes fez parte da aposta da Meta, em parceria com a fabricante EssilorLuxottica, dona da marca Ray-Ban, de tornar a computação vestível finalmente popular — um objetivo que projetos anteriores, como o Google Glass e os óculos da Snap, não haviam conquistado.
Para isso, a empresa investiu em campanhas publicitárias milionárias, com a influenciadora Kylie Jenner como rosto do produto, buscando associar o dispositivo à moda cotidiana, e não à imagem de vigilância que cercou tentativas anteriores do mercado.
A retrospectiva: uma longa lista de derrotas legais
O episódio britânico se soma a um histórico extenso de embates jurídicos da Meta ao redor do mundo, majoritariamente na regulação europeia de proteção de dados.
Em 2023, a comissão irlandesa de proteção de dados aplicou à empresa uma multa recorde de €1,2 bilhão [(±) R$ 7,02 bilhões] por transferências ilegais de dados de usuários europeus para os Estados Unidos.
Em anos anteriores, a mesma comissão já havia multado a Meta em €405 milhões [(±) R$ 2,84 bilhões] por falhas na privacidade infantil no Instagram, €390 milhões [(±) R$ 2,73 bilhões] por exigir aceitação de anúncios personalizados nos termos de uso, e €265 milhões [(±) R$ 1,85 bilhões] após um vazamento em massa de dados de usuários. Mais recentemente, a Comissão Europeia aplicou uma multa de €800 milhões [(±) R$ 5,61 bilhões] por práticas anticompetitivas envolvendo o Facebook Marketplace, e outra de €200 milhões [(±) R$ 1,40 bilhões] sob a nova Lei de Mercados Digitais do bloco.
Em maio de 2026, a Meta perdeu ainda uma disputa na Justiça irlandesa que pode resultar em nova multa de até R$ 2,3 bilhões, além de enfrentar escrutínio de autoridades alemãs que já cogitam classificar os próprios óculos inteligentes como dispositivos de gravação oculta ilegais, segundo apuração do site de tecnologia thenextweb.
Nos Estados Unidos, a empresa foi recentemente considerada negligente, ao lado do YouTube, em um processo sobre dependência de redes sociais entre adolescentes.
O acúmulo de decisões desfavoráveis já se refletiu no mercado: as ações da Meta caíram cerca de 18% em 2026, derrubando a fortuna de Mark Zuckerberg em mais de R$ 240 bilhões no ano.
Ainda assim, a companhia manteve, em meados de 2026, um valor de mercado entre R$ 7,5 trilhões e R$ 8,5 trilhões, permanecendo entre as empresas mais valiosas do planeta — prova de que, apesar da sucessão de multas, o modelo de negócio da Meta segue resiliente aos olhos dos investidores.
Reguladores de proteção de dados do Reino Unido ainda não anunciaram uma investigação formal sobre os óculos da Meta, mas o tema já é acompanhado por autoridades britânicas de privacidade.
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