O terraplanismo como estratégia do neoliberalismo: mídia ultradireitista diz que, no fluxo do Bolsonarismo, teoria já conta com 11 milhões de apoiadores no Brasil – quem crê nisso?

27/01/2020 Off Por Redação Urbs Magna


Publicado por ET URBS MAGNA


O Estadão publicou nesta segunda-feira (27) dados do Instituto Datafolha do ano passado referente a pesquisa apontando que “aproximadamente 7% dos brasileiros acreditam que a Terra seja plana.”

De fato, como noticia o jornalão de direita, este percentual representa nada menos que “11 milhões de pessoas apoiando uma ideia refutada há aproximadamente 2 mil anos pela ciência.”

“Ao longo dos séculos, a teoria terraplanista sempre esteve presente de forma tímida”, escreve Gilberto Amendola n’O Estado de S. Paulo.

De acordo com sua pesquisa, “só em 1956 com a fundação da Sociedade da Terra Plana, pelo britânico Samuel Shenton, a ideia ganhou forma”.

Segundo Amendola, o terraplanismo “crescia de forma pouco expressiva e estava quase minguando quando a internet (e mais notadamente as redes sociais) deram uma sobrevida à teoria”.

O colunista, em sua redação, bem associa a absurda teoria a um movimento que “hoje é quase uma bandeira política”, anti-intelectualista e “com pendor conspiracionista.”

Ainda que a intenção de sua publicação tenha sido tão somente explicar, aos desatentos, que o terraplanismo considera a superfície da Terra plana; que nosso planeta está parado; com Sol e Lua menores e mais próximos do que os cientistas dizem; etc, etc, faltaram argumentações para amplificar o entendimento do parágrafo anterior, onde há uma única menção, após a leitura de todo o texto, sobre esta ‘teoria da conspiração’ – termo que a direita tornou usual em sua tentativa de desconstruir e encerrar a disseminação do pensamento lógico dos progressistas.

Para além da explanação primária do Estadão sobre o terraplanismo, nos atemos ao que é de fato mais mais interessante do que entender a teoria defendida também por Olavo de Carvalho, o guru bolsonarista: a compreensão de que existe um plano da direita atrelado ao terraplanismo, bem como ao bolsonarismo, faz sentido como difusão intencional de um retrocesso sabidamente absurdo.

Ao apoiar o terraplanismo, o governo provoca um efeito inconsciente na população: a teoria (absurda) infundada e sabidamente desqualificada pela ciência, mesmo não tendo o apoio do leitor que agora nos lê, se torna assunto corriqueiro.

Assim como a Reforma (absurda) da Previdência se torna corriqueira. Assim como se torna corriqueira, e normal, após ouvirmos exaustivamente a ideia (absurda) de que Eduardo Bolsonaro poderia ser embaixador nos Estados Unidos.

Isso nos remete a uma outra teoria, desta vez à de um think tank: a Janela de Overton, ou Janela do Discurso – uma tentativa de mostrar de maneira visual como a opinião pública pode se deslocar e começar a aceitar teorias antes consideradas radicais.

A teoria da Janela de Overton foi criada por Joseph P. Overton. Ele foi vice-presidente da Mackinac Center for Public Policy – um centro de estudos liberal nos Estados Unidos.

Overton, que morreu prematuramente aos 43 anos em um desastre de avião, imaginou uma “janela” onde as teses aceitas pela sociedade em um momento determinado podem ser defendidas pelos políticos.

Seriam teses “aceitáveis” ou “populares”. Se ideias “impensáveis” ou “radicais” forem defendidas, elas saem da “janela” e o político não ganha votos. Portanto, os políticos defendem as teses “populares”, e não o que realmente pensam.

Mas a sociedade muda com o passar do tempo, e ideias antes “impensáveis” podem se tornar “aceitáveis” para a maioria.

Em suma, o terraplanismo associado ao bolsonarismo, que em ambos os casos resumem toda uma dimensão de retrocessos, se tornam populares pela repetição fatigante de suas ideias absurdas.

O comportamento do presidente, com todas as suas conhecidas falas intragáveis, repugnantes e desmotivadoras para a maioria da população, além do terraplanismo (detalhe: não conheço ninguém que acredita que a Terra seja plana), causam um verdadeiro mal-estar social.

Assim, o que vier disso de forma parcelada e ainda que também sejam absurdos, tem o efeito de causar um dimensionamento muito menor do que o conjunto, onde a dissociação* ocorre de forma incosciente.

Definição de dissociação: estado agudo de descompensação mental no qual certos pensamentos, emoções, sensações e/ou memórias são ocultados, por serem muito chocantes para a mente consciente integrar.

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