“Luiz Inácio Lula da Silva teve uma das melhores presidências da América Latina na primeira década do século”, mas “sua segunda tentativa…”
Os jornalistas Jack Nicas e André Spigariol “cobriram o retorno político de Luiz Inácio Lula da Silva [PT] por mais de um ano“, diz a apresentação dos autores de um texto no consagrado diário de notícias americano The New York Times, que leva como título ‘Lula venceu Bolsonaro. Agora vem a parte difícil’.
O lead para o ‘pitaco’ norte-americano argumenta que o Presidente eleito “teve uma das melhores presidências da América Latina na primeira década do século”, mas “sua segunda tentativa…”
Em 95% de um longo texto pessimista, os jornalistas fazem apenas uma rápida alusão a “muitos indicadores” que apontam para uma economia que “está em uma situação muito melhor do que em 2003“. Hoje, “o comércio e o produto interno bruto estão mais altos, e a inflação e o desemprego estão mais baixos“. O resto do texto é só paulada.
Vejamos:
Os jornalistas que representam o NYT dizem em seu texto que o ano de 2002 foi o primeiro em que o Brasil elegeu um líder de esquerda como presidente. De 2003 a 2010, Lula talvez tenha gestionado o melhor momento do país, por conta de um boom de commodities e da descoberta do pré-sal, o que lhe permitiu tirar 20 milhões de pessoas da pobreza extrema e projetar a nação no cenário mundial.
O NYT argumenta que a nostalgia da primeira rodada de Lula pode rapidamente sofrer um choque de realidade, pois ele enfrentará um país que mudou drasticamente e está herdando uma economia com menos possibilidades de crescimento, uma presidência com menos músculos e um país polarizado e obcecado pela internet, onde uma parcela considerável do público o vê como um criminoso que roubou a eleição.
“Politicamente falando, ele tem muito menos poder do que tinha e está enfrentando um desafio muito mais difícil economicamente”, disse Alexandre Schwartsman, da Diretoria de Assuntos Internacionais do Banco Central do Brasil, durante o primeiro governo de Lula.
Embora Lula esteja voltando ao poder com muito mais experiência, ele nunca enfrentou tantos obstáculos como os que os que vêm pela frente. O NYT argumenta também que em seu primeiro governo, o apetite voraz da China por soja, minério de ferro, petróleo e carne do Brasil ajudou a alimentar uma corrida de rápido crescimento que elevou o país da 14ª posição à sexta maior economia do mundo em 2012.
A ascensão o ajudou a reinventar o Brasil com uma classe média expandida e investimentos em infraestrutura. Mas agora, o país está atolado em anos de crescimento descontínuos. Além disso, a China e a economia global estão mais fracas, enquanto Lula está focado em direcionar mais ajuda aos pobres.
Em seu último mandato, Lula expandiu os gastos do governo com os ventos econômicos a seu favor. Agora não estão. E parece que o mercado está preocupado com seus planos, diz o NYT, que menciona a queda de 3,3% da Bolsa de Valores de São Paulo quando o Presidente eleito fez pressão, em comentários públicos, para aumentar o limite do teto de gastos, ao afirmar: “Por que as mesmas pessoas que discutem seriamente o teto de gastos não discutem as questões sociais do país? Por que os pobres não fazem parte da discussão macroeconômica?“
Lula quer financiar um aumento real do salário mínimo e uma expansão do Bolsa Família, o que custará mais de US$ 13 bilhões em 2023, O NYT diz que o orçamento do Brasil não tem espaço para gastos adicionais. Bolsonaro gastou US$ 30 bilhões em estímulo econômico antes da eleição em um esforço para ganhar votos, incluindo doações aos pobres e subsídios aos combustíveis, de acordo com Daniel Couri, economista que comanda o órgão fiscalizador do orçamento do Senado. Ele é diretor-executivo da IFI (Instituição Fiscal Independente).
O NYT também comenta sotre o relator-geral do Orçamento 2023, Marcelo Castro (MDB-PI), que defendeu, nesta segunda-feira (14/11), que o Bolsa Família seja pago de maneira permanente e que a PEC da Transição, como está sendo chamada a proposta que busca viabilizar as promessas de campanha de Lula (PT), tem “princípio justo e urgente”. Mas os autores do texto afirmam que analistas disseram que não está claro se Lula conseguirá votos suficientes, dada a oposição do partido de Bolsonaro.
Em seu segundo governo, Lula chega com muito mais bagagem política que pode atrapalhar sua agenda. Quando deixou o cargo no final de 2010, Lula era talvez o homem mais popular do Brasil, com um índice de aprovação de 87%. Ele entregou o país ao seu sucessor escolhido a dedo e partiu para o que se pensava ser a aposentadoria. Mas não!
O NYT aborda a operação persecutória sofrida por Lula, mas de forma imparcial, lembrando depois que o STF considerou que o ex-juiz Sergio Moro foi tendencioso ao julgar o hoje Presidente eleito e anulou suas condenações e ações que ainda pesavam contra ele, o que permitiu uma nova candidatura.
O texto diz que esse escândalo arruinou grande parte da confiança do público em Lula e o PT. O NYT argumenta que Bolsonaro usou sua campanha com ataques a Lula e, por esse motivo, os bolsonaristas acham que ocorreu fraude na eleição, o que deixa o petista em uma posição mais fraca do que em 2003.
Agora, Lula é rejeitado pela direita a ponto do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) afirmar que o “maior desafio” é “resgatar a cultura democrática na vida brasileira” como a “maior responsabilidade“.
Em 2003, partidos de direita estavam dispostos a trabalhar com Lula, mas “desta vez, Bolsonaro ainda não aceitou sua vitória”, escreveram os jornalistas, ao transcrever uma fala do analista político Thomas Traumann: “A pressão que ele vai sofrer é muito maior“. O NYT selecionou outra fala, a de Valdemar Costa Neto: “Não haverá paz se você tentar isolar 99 deputados federais. Isso não acontece“.
Lula terá que fazer acordos com os que agora controlam uma grande fatia do orçamento federal, diz o NYT.
O sexto líder esquerdista eleito na América Latina desde 2018 governará ao lado destes muitos pares que passaram por momentos difíceis, como a Argentina, que sob Alberto Fernández está atolada em uma de suas piores crises financeiras em décadas, o Chile, cujo novo presidente, Gabriel Boric, enfrentou grande revés após seus eleitores rejeitarem a nova Constituição, além do Peru, onde os índices de aprovação do presidente Pedro Castillo despencaram.
Por fim, o NYT dá uma guinada e diz que o quadro no Brasil pode não ser tão terrível, pois, segundo muitos indicadores, a economia do país está em uma situação muito melhor do que em 2003. O comércio e o produto interno bruto estão mais altos, e a inflação e o desemprego estão mais baixos. Mas o governo assumiu uma enorme dívida nos últimos anos, e agora ultrapassa apenas 77% do PIB, o limite que os economistas descobriram retardar o crescimento econômico de um país. Isso deixa Lula com pouca flexibilidade financeira para estimular a economia sem provocar uma nova crise da dívida pública.
Há, no entanto, uma área em que Lula pode causar um impacto precoce e importante: a floresta amazônica, cuja saúde é crucial para a luta contra a mudança climática. Bolsonaro cortou significativamente o financiamento e o pessoal das agências que protegem a floresta e os grupos indígenas que vivem lá.
Rodrigues, cotado para ministro do Meio Ambiente, que teria hoje mais força para ficar com o cargo do que Marina Silva, segundo a coluna Painel, do jornal Folha de S. Paulo, afirmou que o plano é reconstruir imediatamente a presença do governo na Amazônia e desconstruir as políticas de Bolsonaro. O governo de transição de Lula disse que planeja acrescentar quase US$ 200 milhões ao orçamento ambiental do governo no ano que vem. E nesta quarta-feira (16/11), o Presidente eleito deve discursar na cúpula das Nações Unidas sobre mudança climática, a COP27.
É improvável que madeireiros, garimpeiros e fazendeiros em áreas remotas do país desistam facilmente de sua principal fonte de renda, escrevem os jornalistas do NYT, prevendo que o poder de Lula mudar a política ambiental por conta própria com investimento mínimo não será tão fácil. Segundo Traumann, “durante quatro anos, eles fizeram o que quizeram, mas agora, como impedí-los?“

A torcida do CONTRA aposta alto. Nós que elegemos Lula temos um compromisso e uma grade luta.
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