Editorial publicado nesta terça-feira (9/4) diz que o conflito está sendo “explorado pelo bolsonarismo” e que “faria melhor a corte suprema se contivesse a si própria e dedicasse mais tempo aos assuntos de impacto mais direto na vida do cidadão brasileiro“
Em editorial que foi ao ar nesta terça-feira (9/4), o jornal ‘Folha de S. Paulo‘ diz que “o fogo cruzado” a que estão expostos os brasileiros, sob “novo rompante de postagens” em que “o empresário Elon Musk publicou uma sequência de críticas ao ministro Alexandre de Moraes, acusando-o “de praticar censura ilegal” e prometendo a ele que vai “desobedecer a restrições impostas a usuários da rede social“, serve “mais a iludir do que a esclarecer“.
O texto lembra que “Moraes determinou a inclusão de Musk no inquérito que investiga a atuação e o financiamento de milícias digitais antidemocráticas” e que, o “ato seguinte” foi o reaparecimento “do bolsonarista Allan dos Santos, foragido da Justiça brasileira“, que “fez uma live na rede social do bilionário, o X, da qual estava suspenso por ordem de Moraes“.
Segundo o texto, o caso apenas “engrossa o caldo da polarização, dinâmica política que gera muito calor e pouca luz. No saldo, é provável que o embate seja mais benéfico ao bolsonarismo do que ao interesse público“.
A publicação mostra que o jornal está incomodado com a discussão, o que remete a uma cena, imaginária, em que o editorialista passa de carro por uma rua e observa Moraes do lado de fora de sua casa conversando com o vizinho Musk, também fora de sua residência, enquanto uma fumaça sai pela janela do magistrado e o redator grita: “O feijão tá queimando!“.
Leia a sequência:
“Decerto o sentido da crítica a Moraes não soa descabido. O ministro já estendeu bem além do razoável uma frente de investigação nada transparente, ademais questionável desde a origem.
Ao atacar um problema real, o das ameaças à democracia, Moraes adentrou um terreno pantanoso, o de definir o que é verdade e o que não é, atoleiro do qual parece não conseguir sair.
O inquérito das fake news está aberto há mais de cinco anos, em caráter sigiloso. O das milícias digitais, instalado em 2021, foi prorrogado até o fim deste mês. Nesse período, o STF já cometeu erros evidentes de abordagem, como ao censurar reportagens jornalísticas no âmbito da eleição de 2022.
Para esta Folha, a liberdade para circulação de ideias deve ser a mais ampla possível. Excessos e inverdades são depurados no processo de debate público, não ao largo dele. Censurar é má ideia.
Isso posto, é preciso manter uma dose de ceticismo em relação à defesa de valores que Musk diz estar empunhando. Primeiro porque tal posicionamento não o autoriza a ignorar decisões judiciais, por mais questionáveis que sejam.
Segundo, chega em embalagem já conhecida e com difusão reverberada em núcleos da direita radical.
Do ponto de vista institucional, o episódio deixa uma armadilha à frente do STF. As opções para o tribunal ficam embicadas no caminho de dobrar a aposta, eventualmente derrubando o acesso no Brasil ao X. O custo não seria pequeno, dada a excepcionalidade da medida —que teria eficácia limitada pela possibilidade técnica de burlar a proibição.
Faria melhor a corte suprema se contivesse a si própria e dedicasse mais tempo aos assuntos de impacto mais direto na vida do cidadão brasileiro, que pouco se beneficia do calor da polarização”.
