“Tem poucos momentos na história do mundo em que o Brasil participou e foi tão requisitado, foi tão bem aceito como está sendo agora”, afirmou o estadista, à imprensa, após reunião com Pham Minh ChiH – Leia a íntegra do discurso de Lula
Em conversa com a imprensa após reunião com primeiro-ministro do Vietnã, Pham Minh Chính, Lula mostrou otimismo com as oportunidades do país para o futuro.
“Eu estou muito otimista com o futuro do Brasil. Eu acho que o Brasil tem uma chance que a gente tem que agarrar com unhas e dentes. O Brasil, definitivamente, é a bola da vez. Tem poucos momentos na história do mundo em que o Brasil participou e foi tão requisitado, foi tão bem aceito como está sendo agora”.
A fala do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, à imprensa nesta segunda-feira (25/9), após a visita do primeiro-ministro do Vietnã, Pham Minh Chính, no Palácio Itamaraty, representa um balanço do que o líder brasileiro observou em viagens internacionais e reuniões com dirigentes de outros países desde que iniciou seu terceiro mandato.
“Se o Brasil souber tirar proveito das oportunidades que estão colocadas para nós em várias áreas, eu acho que o Brasil pode, finalmente, deixar de ser tratado como um país em via de desenvolvimento e ser um país efetivamente desenvolvido”, afirmou Lula.
O presidente frisou que o desenvolvimento tem que ser acompanhado do cuidado com o povo, que precisa de acesso à educação, ao lazer e a empregos decentes. Nessa área, ele lembrou do lançamento conjunto, Brasil e Estados Unidos, da parceria pela promoção global do trabalho digno, na semana passada, em Nova York.
A iniciativa visa a garantir condições adequadas de trabalho em um mundo digitalizado. “Pessoas que trabalham em plataformas, muitos meninos que trabalham de bicicleta e motocicleta, muitas vezes, não têm banheiro para frequentar e tem o problema de falta d’água. Elas têm que ser tratadas com respeito. O que nós queremos é isso. Não é que nós queremos obrigá-lo a trabalhar com a carteira assinada. Ele tem o direito de querer ser empreendedor individual, mas ele tem também o direito de ser tratado de forma decente, com respeito, com seguridade social”, defendeu.
Lula também citou a oportunidade que o país tem de avançar mais no desenvolvimento sustentável. “Em se tratando de energia verde, o Brasil é mais do que a Arábia Saudita é hoje com o petróleo. O Brasil tem um potencial excepcional. Temos tecnologia, temos terra, temos água, temos sol, temos trabalhadores e nós precisamos criar mercado para as coisas que nós seremos capazes de produzir”.
COMPROMISSOS — Ainda na conversa com a imprensa, Lula pontuou que cumpriu os dois primeiros compromissos estabelecidos para a sua terceira gestão na presidência: o de recuperar 42 políticas públicas implementadas nos seus mandatos anteriores e o de recolocar o Brasil no cenário mundial, recuperando as relações do país com o resto do mundo. “O mundo estava com saudades do Brasil e o Brasil voltou”.
Entre os próximos grandes compromissos do país, Lula destacou a participação na COP 28 (conferência da ONU sobre mudanças climáticas) no fim deste ano, nos Emirados Árabes, ocasião em que lançará uma proposta dos países amazônicos para o mundo; a presidência dos grupos de países G20 e BRICS; além da organização da COP 30, a ser realizada no Pará em 2025.
Leia a transcrição do discurso de Lula após reunião bilateral com primeiro-ministro do Vietnã, Pham Minh Chính:
“Eu quero cumprimentar os ministros e as ministras brasileiras que estão comigo. Quero cumprimentar o primeiro-ministro Phạm Minh Chính, primeiro-ministro do Vietnã. Quero cumprimentar o Geraldo Alckmin, vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Quero cumprimentar a embaixadora Maria Laura da Rocha, ministra-substituta das Relações Exteriores, por intermédio de quem cumprimento todos os ministros aqui presentes. Quero cumprimentar o Bui Thanh Son, ministro dos Negócios Estrangeiros do Vietnã, por intermédio de quem cumprimento todos os ministros do Vietnã.
Meus amigos e minhas amigas,
É um prazer rever o primeiro-ministro Pham Minh Chính, depois do nosso encontro à margem da cúpula do G7, em Hiroshima. Eu lembro, com muito carinho, da minha visita a Hanói, em 2008. Os avanços econômicos e sociais do Vietnã, na última década, são impressionantes. A economia vietnamita cresceu a uma média de quase 6% ao ano e mais de dez milhões de pessoas, o equivalente a quase 10% da população, saindo da extrema pobreza.
Somos dois países do Sul Global, comprometidos com a paz, com o multilateralismo, o desenvolvimento sustentável e o combate à fome e à pobreza. Desejamos maior representatividade na governança internacional. Todo mundo sabe o desempenho que o Brasil está fazendo, já há muito tempo, para que a gente possa ter uma governança global mais ativa, mais representativa e com muito mais poder decisório, sobretudo quando se trata de conflitos ou da questão climática.
Quero agradecer o apoio público, reiterado, do Vietnã a um pleito do Brasil por um assentamento no Conselho de Segurança da ONU.
Queremos e precisamos aprofundar nossa cooperação bilateral em diversas áreas, como agricultura, educação, defesa, cultura, que foram objeto de acordos assinados hoje.
Na área da agricultura, assinamos um plano de ação que vai nos permitir avançar na abertura do mercado vietnamita para novos produtos agropecuários brasileiros.
É importante lembrar, primeiro-ministro, que, aqui no Brasil, eu costumo dizer que comércio exterior é uma via de duas mãos. A gente compra e a gente vende. A gente vende e a gente compra. Que é preciso a gente ter uma balança comercial equilibrada para que não haja, sempre, a supremacia de um país sobre o outro.
Na área da educação, firmamos um acordo que vai possibilitar a mobilidade de estudantes entre os nossos países. Mais de 18 mil estudantes, de 71 países, já participaram dos programas de graduação e pós-graduação para estrangeiros do Governo Federal.
Na área da defesa, adotamos um memorando de entendimento que é um primeiro passo para um futuro acordo, que abrirá caminho para a exportação de produtos de defesa, como aeronaves.
Também queremos cooperar na área de ciência, tecnologia e inovação. A ministra Luciana Santos irá ao Vietnã, em novembro, para fazer a primeira reunião da Comissão Conjunta de Ciência e Tecnologia.
Há, portanto, um potencial extraordinário para iniciativas conjuntas em inteligência e startups.
Conversamos também sobre nossas relações comerciais, que vêm crescendo continuamente há mais de dez anos. Hoje nós temos um fluxo de seis bilhões e oitocentos milhões de dólares.
O primeiro-ministro disse que quer ver se, até 2030, nós chegamos a dez bilhões de dólares. Eu acho que é plenamente possível a partir dessa reunião, com as nossas visitas entre os dois países, a gente poder crescer muito.
O Brasil exporta para o Vietnã praticamente o mesmo que para a França, com quem temos uma longa relação estratégica.
Somos hoje um dos principais fornecedores de soja, carnes e algodão para o mercado e queremos incluir nisso produtos manufaturados de maior valor agregado.
O Vietnã é o sexto maior mercado de produtos do agronegócio brasileiro.
Queremos expandir esse fluxo e, também, diversificá-lo, com mais produtos de alto valor agregado.
Discutimos também o interesse do Vietnã de celebrar um acordo comercial com o Mercosul.
Vou levar o tema a nossos parceiros do Mercosul, aproveitando a presidência brasileira.
Tenho certeza que é possível avançar. É do nosso interesse aproximar o Mercosul da ASEAN. Os países do Sudeste Asiático correspondem a quase 6,5% do PIB mundial em paridade de poder de compra.
As exportações brasileiras para o conjunto de países do Sudeste Asiático já somam metade do que exportamos para a União Europeia.
Somos parceiros de diálogo da ASEAN e o ministro Mauro Vieira deve ir à Indonésia em breve para discutir um plano de ação para a cooperação entre o Brasil e esse bloco.
Em 2024, comemoramos 35 anos do estabelecimento das relações diplomáticas entre o Brasil e o Vietnã.
Eu aceitei o gentil convite do primeiro-ministro Chính para ir a Hanói celebrar essa ocasião.
Muito obrigado”.