“Nunca um presidente foi tão vulgar com uma mulher. Espere o efeito bumerangue”, escreve editora do ‘El País’ – Bolsonaro disse que a repórter da Folha “queria ‘dar o furo’ a qualquer preço”

18/02/2020 0 Por Redação Urbs Magna


Publicado por ET URBS MAGNA


O ataque de Bolsonaro à repórter Patrícia Campos Mello vai ajudá-lo a definhar a partir de agora num Brasil onde 52% do eleitorado é feminino e que não vai mais voltar atrás em sua luta pelas mulheres, diz Carla Jiménez.


CARLA JIMÉNEZ 18 FEB 2020 – 12:15BRT


Os covardes machistas podem fingir que não são covardes machistas, mas em algum momento eles se revelam.

E não há momento mais oportuno para os atores públicos do Brasil mostrarem que não o são, longe de serem coniventes com a baixaria empreendida pelo presidente Jair Bolsonaro contra a repórter Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, na manhã desta terça-feira.

Num país em que 52% do eleitorado é feminino, deputados e senadores deveriam ficar alertas.

Eles têm a grande oportunidade de mostrar que não vão deixar a vulgaridade assumir o Brasil, rasgando todo e qualquer senso de decência do Estado em relação a uma mulher, deixando que se propague uma mentira orquestrada dentro do Congresso.

Deixem de lado o fato de Patrícia ser jornalista.

Ela é mulher.

Poderia ser uma economista, uma copeira, uma faxineira, uma jogadora de futebol.

Ela foi exposta com insinuações sexuais por um presidente, como nunca o Brasil viu.

Ele não está na mesa de bar com amigos, está na frente das televisões dizendo que Patrícia queria “dar um furo a qualquer preço”, sugerindo sexo em troca de informação, o que é o mesmo que chamar uma mulher de prostituta.

Só uma cabeça pervertida pode se sentir tão à vontade para dizê-lo em alto e bom som.

Nunca na democracia um chefe de Estado havia caído tão baixo apelando à vulgaridade para falsear a realidade.

Quiçá no mundo. Nem Donald Trump chegou a tanto.

O Congresso tem as provas à mão para admitir que Hans River do Rio Nascimento mentiu na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI). Parte dessas mentiras a insinuação asquerosa de Bolsonaro, pai de uma filha de 9 anos, que Patrícia faltou com a ética para ter uma informação.

De qual referência parte Bolsonaro?

Todo mundo sabia do que ele era capaz, desde que ele xingou uma repórter em abril de 2014.

Mas editou a si próprio para fazer sua campanha e venceu. Legitimamente.

Desde então, empreende uma guerra grosseira, agressiva e mentirosa contra a realidade para esquivar-se de suas próprias capivaras

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A morte de Adriano da Nóbrega, que convenientemente morreu nas mãos da polícia da Bahia, governada pelo Partido dos Trabalhadores, foi um presente no colo de Bolsonaro que agora se tornou o maior defensor de presos assassinos, embora repetisse sempre que “direitos humanos era para humanos direitos”, e seja um dos que faz coro ao jargão “bandido bom é bandido morto”.

De onde vem essa mudança?

Os homens públicos deste país, empresários e agentes da Justiça vão deixar que o que já se construiu em termos de sociedade vá para o ralo?

Em nome de quê?

Senhores deputados e senadores, vocês podem ter um papel tremendamente decisivo neste início de 2020.

Pelas suas filhas, pelas suas mães, pelas suas eleitoras, pelas suas irmãs. Não desprezem a construção que mulheres têm feito até aqui por um país mais decente e menos violento.

A violência das palavras de um chefe de Estado reverbera em todas as esquinas e rincões do Brasil.

Já se matam uma mulher a cada duas horas aqui, um estupro acontece a cada 11 minutos. Tenham decência, coragem, de estancar esta sangria desatada que abriu as portas para uma perversidade gratuita.

Vocês foram eleitos para que o Brasil fosse um país melhor, mais próspero, mais respeitado, mais ético.

Não há melhora onde uma mentira é naturalizada na Casa em que vocês representam cada brasileira.

Não há prosperidade num país onde se quer estabelecer o medo como forma de governo.

Não há respeito por um país que fecha os olhos e silencia diante dos disparates que estamos assistindo.

Isso também é corrupção.

Corromper seu papel público em nome do poder.

Bolsonaro se cercou de ministros sem filtro, como Paulo Guedes ou Abraham Weintraub, e nos vemos agora tentando medir quais declarações foram mais ou menos canalhas que outras.

O primeiro ano já havia sido execrável e neste 2020 ele dobrou a aposta.

Brasil perverso.

Estamos perto do dia 8 de março.

Isso vai ter impacto.

Foi assim que começaram grandes manifestações femininas pelo mundo.

O presidente está dando farto material para as campanhas de seus adversários e dos inúmeros inimigos que está fazendo.

Sabendo-se que é incorrigível e que está cego pelo poder, vai tropeçar em suas próprias palavras.

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