A militar chegou a dizer que “um país comunista não respeita os direitos de seu próprio povo“. Tudo porque a Iniciativa do Cinturão e Rota beneficia o Brasil especialmente após uma disputa tarifária da soja entre Pequim e Washington
A general americana de quatro estrelas Laura Richardson veio ao Brasil esta semana para exercícios militares conjuntos entre a Marinha dos EUA e a Marinha do Brasil. A atividade, a Southern Seas 2024, se estenderá pelos próximos meses e envolverá outros países da região.
Richardson é a comandante das Forças Navais do Comando Sul dos EUA/ 4ª Frota – um dos 11 comandados de combate sob a estrutura do Ministério da Defesa – e que tem entre as atribuições proteger o canal do Panamá, realizar atividades de cooperação com forças da região e proteger instalações militares dos EUA.
Em um pronunciamento em março ao Congresso americano, Richardson expressou em detalhes suas preocupações com outro tema: o avanço da presença da China na América Latina.
Ao jornal ‘Valor Econômico‘, Richardson ressaltou a longa história de relações bilaterais entre Brasil e EUA, contrastando-a com a relação mais recente do nosso país com a China: “Enquanto as democracias compartilham uma história de 200 anos, a parceria com a China tem apenas 50 anos“, disse a militar.
“Como democracias, respeitamos uns aos outros. Respeitamos a soberania uns dos outros. Respeitamos o povo um do outro, as democracias, o que não acontece com um país comunista, porque eles não respeitam os direitos de seu próprio povo“, disse Richardson, expressando preocupação com os empréstimos da Iniciativa do Cinturão e Rota – ou nova rota da seda – uma das maiores tentativas de se conectar com o mundo exterior.
Sobre a Iniciativa do Cinturão e Rota
No final do ano passado, líderes e autoridades de todo o mundo se reuniram em Pequim para participar de uma cúpula de alto nível que marca o 10º aniversário da iniciativa. A empreitada é tão grande que a TV estatal chinesa bombardeia a população com notícias sobre as conquistas da iniciativa, incluindo um documentário em seis episódios, conforme mostrou a ‘BBC‘.
A nova rota da seda pretende aproximar a China do mundo exterior com investimentos e projetos de infraestrutura. Após uma injeção de dinheiro sem precedentes em cerca de 150 países, o país liderado por Xi Jinping se vangloria de ter transformado o mundo.
O ‘cinturão’ é uma referência aos caminhos terrestres que conectam a China à Europa através da Ásia Central, além do sul da Ásia e do sudeste asiático. Já a ‘Rota’ designa a rede marítima que liga a República Popular da China aos principais portos do mundo através da Ásia, até a África e a Europa.
A iniciativa começou com fortes investimentos estatais em infraestrutura no exterior. A maior parte dos gastos (estimados em US$ 1 trilhão, ou cerca de R$ 5,06 trilhões) foi concentrada em projetos de transporte, como ferrovias e usinas energéticas.
A China anunciou que o projeto seria vantajoso para todas as partes envolvidas e que os investimentos estimulariam o desenvolvimento em outros países. Domesticamente, Pequim vendeu a ideia da nova rota da seda como uma forma de ajudar as empresas chinesas, impulsionar a economia e melhorar a imagem do país no exterior.
Alguns dos objetivos, como a internacionalização da moeda da China – o yuan – e a ocupação da capacidade ociosa das companhias chinesas, tiveram sucesso limitado. Mas Pequim colheu imensos benefícios econômicos no setor comercial.
Uma série de acordos trouxe acesso a mais recursos, como petróleo, gás e minérios, especialmente com a expansão do foco da iniciativa para a África, América do Sul e Oriente Médio. Cerca de US$ 19,1 trilhões (R$ 96,5 trilhões) em mercadorias foram comercializadas entre a China e os países da nova rota da seda na última década.
A China é o maior importador mundial de soja e dependia muito dos Estados Unidos para se abastecer. Mas uma disputa tarifária com Washington levou Pequim a procurar fornecedores na América do Sul, especialmente no Brasil, considerado o maior beneficiário de fundos da nova rota da seda na região.
