O grupo foi classificado pela polícia como “extrema direita radical e violenta”, em conexão com redes internacionais de ódio, além de ligações dúbias com o partido Chega, cujo candidato à presidência foi ao segundo turno
A Polícia Judiciária de Portugal deteve 37 membros do grupo neonazi 1143 em 20/jan, na Operação Irmandade, por crimes de ódio racial, violência e associação criminosa. Liderado por Mário Machado, preso desde 2025, o grupo infiltrou PSP e Exército. Apreensões incluíram armas e propaganda. Acusações visam intimidação a imigrantes e minorias, com histórico de agressões em 2025. Diretor da PJ, Luís Neves, destacou viés de gênero nas vítimas. Investigação prossegue com laços internacionais.
Porto (PT) · 22 de janeiro de 2026
A Polícia Judiciária (PJ) de Portugal desferiu um golpe decisivo contra o submundo neonazi em território luso. Na manhã de terça-feira (20/jan), a Unidade Nacional Contra-Terrorismo lançou a Operação Irmandade, resultando na detenção de 37 indivíduos ligados ao grupo ultranacionalista 1143, uma alusão ao ano de fundação de Portugal.
Essa investida, orquestrada pelo Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa, abrangeu 65 buscas domiciliárias e não domiciliárias em localidades como Lisboa, Porto, Almada, Guimarães, Odivelas, Oeiras e Sintra, mobilizando cerca de 300 operacionais.
O epicentro da operação recai sobre Mário Machado, um notório líder do 1143, que, mesmo atrás das grades em uma prisão de Alcoentre (uma no concelho de Azambuja) desde maio de 2025, continuou a orquestrar atividades do grupo.
Condenado a 2 anos e 10 meses por incitamento ao ódio e violência contra mulheres de esquerda – incluindo comentários defendendo a “prostituição forçada” de figuras como a professora porta-voz do partido Trabalhadores Unidos, Renata Cambra –, Machado viu sua cela vasculhada às 7h, onde foram apreendidas camisetas do grupo, personalizadas com símbolos, logotipos ou mensagens associadas ao grupo neonazi 1143, segundo o advogado José Manuel Castro, em declaração exclusiva ao Expresso.
As acusações pesam como uma sentença coletiva: discriminação racial, incitamento ao ódio e à violência, associação criminosa, ameaças, perseguição, ofensas à integridade física qualificadas e detenção de armas proibidas.
O grupo, com estrutura hierárquica rígida, propagava ideologia nazista, agindo por motivos racistas e xenófobos para intimidar minorias, especialmente imigrantes. Como detalhado pela PJ, os suspeitos “adotavam e difundiam a ideologia nazi, inerente à cultura nacional-socialista e extrema direita radical e violenta, agindo por motivos racistas e xenófobos, com o objetivo de intimidar, perseguir e coagir minorias étnicas, designadamente imigrantes“.
Apreensões incluíram armas diversas, material de propaganda extremista e conexões com redes internacionais de ódio, sob escrutínio em depoimentos e análises de dispositivos eletrônicos.
De um modo geral, as autoridades e o público português estão chocados com a infiltração no aparelho estatal: entre os detidos, dois elementos “não civis” – um agente da Polícia de Segurança Pública (PSP) e um militar.
Essa revelação ecoa operações anteriores, como a Desarme 3D em junho de 2025, reportada pela CNN Portugal, que deteve seis membros do Movimento Armilar Lusitano (MAL), incluindo um chefe da PSP em comissão na Polícia Municipal de Lisboa, por terrorismo e posse de explosivos e armas impressas em 3D. O MAL visava formar uma milícia armada para ataques a instituições, como o parlamento.
O histórico de violência do 1143 remonta a incidentes graves. Em outubro de 2025, membros agrediram um imigrante indostânico em Aveiras, roubando-o enquanto gritavam “Vai para a tua terra” e “não podes viver neste país“, com o agressor vestindo uma camiseta do grupo. Em junho de 2025, no Porto, neonazis atacaram voluntárias distribuindo comida a sem-abrigo, conforme noticiado pelo Público: os agressores, fazendo saudação nazi, desferiram empurrões e murros, culpando as vítimas pelo “aumento de imigrantes“. Um detido de 24 anos resistiu à PSP, enquanto outro de 27 foi identificado.
A diretora da Unidade de Contraterrorismo, Patrícia Silveira, destacou em entrevista ao Pois Notícias: “Continua a existir comunicação e passagem de informação de dentro para fora“, referindo-se ao comando de Machado da prisão. O diretor-geral da PJ, Luís Neves, enfatizou o viés de gênero: “Há um forte componente de gênero, as vítimas são em geral mulheres“.
A Europa pressiona e impulsiona essas ações, com relatório da Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância (Ecri) de junho de 2025 registrando quintuplicação de queixas por crimes de ódio de 2019 a 2024, visando migrantes, ciganos, LGBTQIA+ e negros, conforme reportou o Pois Notícias.
Ligações dúbias com o partido Chega emergem: André Ventura , líder da legenda de direita e candidato que foi ao segundo turno na eleição de domingo (leia abaixo), criticou Machado em 2021, afirmando: “Não tem o perfil que se enquadra no Chega“.
Contudo, postagens como uma foto fantasiada de piloto com legenda sobre “voo de regresso ao país de origem” (número TP 1143) e vídeo do vice-presidente do Chega, Pedro Frazão, defendendo “remigração” (deportação forçada) levantam suspeitas, detalha o Pois Notícias.
Essa operação não só desarticula uma ameaça latente, mas alerta para a erosão democrática por infiltrações extremistas. Com idades entre 30 e 54 anos e vastos antecedentes, os detidos enfrentam possível prisão preventiva, enquanto investigações prosseguem para mapear conexões globais.
André Ventura
O apoio significativo a André Ventura, líder do partido Chega, entre eleitores portugueses no exterior – especialmente no Brasil – adiciona uma camada internacional ao avanço da extrema-direita portuguesa.
Na votação do primeiro turno das presidenciais portuguesas, realizada no domingo (18/jan), Ventura conquistou 48,81% dos votos (2.726) entre brasileiros com direito a voto e portugueses residentes no país, superando amplamente o socialista António José Seguro, que obteve 21,90% (1.223 votos), conforme dados da Comissão Nacional de Eleições.
Ventura venceu em oito dos nove consulados portugueses no Brasil e na Embaixada em Brasília, com Seguro liderando apenas em Porto Alegre (RS).
Esse resultado contrasta com o desempenho nacional, onde Seguro avançou em primeiro lugar com 31,14% dos votos, seguido por Ventura com 23,49%, garantindo ambos a ida ao segundo turno marcado para 8 de fevereiro – a primeira vez em quatro décadas que a eleição presidencial portuguesa exige rodada decisiva.
O forte respaldo no Brasil reflete dinâmicas de migração lusófona, onde temas como imigração, identidade nacional e críticas ao establishment ressoam entre comunidades expatriadas, ampliando o alcance do discurso do Chega para além das fronteiras europeias.
A polarização observada no exterior reforça o alerta sobre a penetração de narrativas de extrema-direita em diásporas, especialmente em contextos de crescente debate sobre remigração e soberania, temas centrais na agenda de Ventura e que ecoam em investigações como a Operação Irmandade contra infiltrações neonazistas no Estado português.

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