CNE ratificou a reeleição do presidente da Venezuela sem apresentar as atas que detalham a votação, em evento sem a presença de Edmundo González Urrutia, que a direita afirma ter vencido o pleito, mas também sem provar nada – ENTENDA A CRISE
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A líder opositora do governo venezuelano, María Corina Machado, que fundou a Súmate – ONG para monitorar eleições na Venezuela, mas que teve papel de peso para aquecer a tentativa de golpe de Estado contra o ex-presidente Hugo Chávez em 2002, liderou neste sábado uma nova manifestação em Caracas contra o anúncio feito pela CNE (Conselho Nacional Eleitoral) de que Nicolás Maduro foi reeleito na votação de domingo (28/7).

O Presidente da Venezuela reuniu jornalistas internacionais na quinta-feira (1/8), no Palácio Miraflores (Rerodução)
Na sexta-feira (2/8), a entidade ratificou a reeleição do mandatário que está no poder há 11 anos, desde 2013, sem apresentar as atas que detalham a votação, em evento que teve a participação de todos os candidatos do pleito, menos a de Edmundo González Urrutia, que a direita venezuelana afirma que foi o grande vencedor, sem também apresentar prova alguma.
Segundo o CNE, Maduro, foi reeleito com 51,95% dos votos, ante 43,18% de votos recebidos por González, com 96,87% das atas apuradas.
Usando palavras de efeito para gerar comoção, María Corina Machado disse, neste sábado, que “não existe nenhuma manobra pseudo-legal que pode encobrir a verdade. A verdade está em nossos minutos. A verdade está em nossos corações e a verdade que está em cada uma palavra que a partir deste momento continuamos a gritar: a liberdade dos corajosos”.
“Hoje é um dia muito importante. Após seis dias de repressão brutal, eles pensaram que iriam nos silenciar, assustar ou paralisar. A presença de cada um de vocês aqui representa o melhor de cada venezuelano. Isto mostra ao mundo a magnitude da força e o que isso significa? Que iremos até o fim“, disse.
Apoiadores de Maduro, os chamados herdeiros de Hugo Chávez, os chavistas, estiveram reunidos em outra manifestação em Petare -cidade capital do município de Sucre, Miranda, onde se localiza a maior favela das Américas, na região metropolitana de Caracas, em um território três vezes maior do que o da Rocinha, no Rio de Janeiro, a maior favela do Brasil.
Corina disse que, vencida a etapa eleitoral, sem prova alguma, “agora vem uma nova etapa” e que “eles não podem contra a nossa organização“. A opositora de Maduro apelou para que funcionários públicos e integrantes do governo se juntassem à oposição. “Olhem para suas mães, vocês têm responsabilidade com suas mães, com a História, vocês também farão parte da reconstrução“.
“Não promovemos a violência e sair para protestar cívica e pacificamente não é violência. Não vamos abrir mão do nosso direito ao protesto cívico“, disse Corina.
Assista a um dos trechos:
Después de 6 días de brutal represión, creyeron que nos iban a callar, a parar o atemorizar… miren la respuesta.
— María Corina Machado (@MariaCorinaYA) August 3, 2024
Hoy, la presencia de que cada ciudadano en las calles de Venezuela demuestra la magnitud de la fuerza cívica que tenemos y la determinación de llegar hasta el… pic.twitter.com/iBSZFA4cBQ

A política Maria Corina Machado recebeu em 2019 o Prêmio pela Liberdade, por seus esforços dedicados ao longo de muitos anos para levar a democracia à Venezuela, apesar dos riscos que enfrentou | Imagem de Alejo Reyna/Liberal International
María Corina Machado Parisca nasceu em Caracas em 7 de outubro de 1967. Ela é engenheira industrial, professora e política, tendo sido deputada da Assembleia Nacional da Venezuela entre 2011 e 2014, quando teve seu mandato cassado de forma arbitrária.
Além disso, foi co-fundadora da organização civil de oposição ao governo venezuelano, Súmate, e apoiou o golpe de estado de 2002 que resultou na destituição temporária do presidente Hugo Chávez. Durante esse período, participou do governo provisório e assinou o “Decreto Carmona“, que estabeleceu um governo de transição e tomou diversas medidas controversas.
Foi acusada de conspiração para fundos recebidos da Fundação Nacional para Democracia e tem organizado manifestações contra o presidente Nicolás Maduro desde antes das eleições, tendo sido proibida de ocupar cargos públicos pela Controladoria-Geral do país por 15 anos.
É a mais velha de quatro filhas de um empresário do ramo do aço e de uma psicóloga. Teve uma infância protegida numa família conservadora e católica fervorosa, com ensino em escolas particulares, internatos nos EUA e várias viagens para a Europa.
Hugo Chávez descrevia os líderes da Súmate como “conspiradores“, “golpistas” e “lacaios” do governo dos EUA. Em 2005, o The Wall Street Journal noticiou que Corina Machado enfrentou acusação de conspiração por ter recebido uma doação de US$ 31 mil para um “trabalho educativo apolítico“. No mesmo ano, a direitista constatou um massivo apoio a Chávez e soltou: “Nós temos que reconhecer as coisas positivas que têm sido feitas“.

Hugo Chávez foi eleito presidente em 1998 e governou a Venezuela de 1999 a 2013
Presidente da Venezuela entre 1999 e 2013, quando faleceu vítima de um câncer, Chávez teve um governo marcado pelo populismo, tendo desenvolvido um regime político que designou de “bolivarianismo”. Hugo Rafael Chávez Frias nasceu em 28 de julho de 1954, em Sabaneta, na província de Barinas, Venezuela. Durante a juventude, o ex-presidente venezuelano viu na vida militar uma opção de carreira, chegando a tenente-coronel.
Na década de 1980, Hugo Chávez e vários outros militares venezuelanos eram adeptos de ideais revolucionários de esquerda, resultado de um programa de formação teórica desde a década de 1970. Ele e outros companheiros resolveram fundar o Movimento Bolivariano Revolucionário 200 (MBR-200), inspirando-se em Simón Bolívar – herói, visionário e libertador que nasceu em Caracas, em 1783, e morreu em 1830, na Colômbia.
O objetivo do MBR-200 era tomar o poder da Venezuela para implantar uma agenda econômica nacionalista. Hugo Chávez e outros membros do movimento o tentaram em 1992, contra o então presidente Carlos Pérez, mas foi um fracasso e todos foram presos. No ano seguinte, o mandatário foi derrubado da presidência e Rafael Caldeira assumiu, ordenando a anistia de Chávez, o que lhe conferiu fama, fazendo-o decidir concorrer à presidência via Movimento V República (MVR), que conquistou o apoio da grande maioria dos partidos de esquerda, o Polo Patriótico.
Na eleição de 1998, Hugo Chávez obteve 56% dos votos e tomou posse como presidente da Venezuela em fevereiro de 1999, dando início a uma série de transformações no país. A primeira delas foi a elaboração de uma nova Constituição que foi elaborada, redigida e promulgada por políticos que apoiavam o novo presidente.
Uma das principais ações de Hugo Chávez em seu governo foi a promoção de ações que foram responsáveis pela distribuição de renda no país. Isso se deu por meio de programas de bem-estar social e do estabelecimento de políticas públicas que contribuíram para aumentar a parcela da população que era atendida pelos serviços de saúde e educação.
O sucesso do chavismo em promover melhorias na vida da população mais pobre do país garantiu um forte apoio dessa população ao projeto político chavista. Esse programa também foi responsável por criar uma forte oposição ao chavismo nas classes mais elevadas do país, contrárias a esses programas de bem-estar social.
Golpe de Estado de 2002
As classes mais ricas da Venezuela não estavam satisfeitas com os programas do governo Chávez, principalmente pela postura do presidente em combater os privilégios das classes altas como forma de promover a distribuição de renda. Com isso, uma conspiração começou a ser organizada contra o governo e colocada em prática em 2002.
Um golpe contra Chávez foi organizado por membros do exército, que o realizaram em 11 de abril de 2002, declarando sua destituição e nomeando Pedro Carmona como presidente do país. Mas tudo fracassou e o presidente foi reconduzido ao poder, saindo politicamente fortalecido.
Em 2006, nova eleição presidencial foi realizada, e Hugo Chávez alcançou nova vitória, conquistando 63% dos votos. Essa vitória reforçou seu poder e o de seu projeto, conhecido como bolivarianismo ou, nas palavras do então presidente: “socialismo para o século XXI”.
Em 2011, e com câncer na região pélvica, Chávez disputou sua 4ª eleição presidencial conquistou nova vitória com 55% dos votos. Mas seu mandato durou apenas até seu falecimento em 5 de abril de 2013. O vice Nicolás Maduro assumiu interinamente a presidência do país e, no mesmo ano, foi ratificado presidente do país ao vencer eleição presidencial.
María Corina
Em 1º de fevereiro de 2019, Maria Corina anunciou sua intenção de concorrer à presidência caso Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente da Venezuela, convocasse eleições. Mas, mesmo assim, ela foi reconhecida como candidata da oposição para o próximo pleito no país.
Durante uma entrevista sobre a eleição, María Corina Machado deixou claro que não estava interessada nas primárias da oposição, afirmando: “Meu objetivo é remover Maduro e derrotar o regime com toda a força disponível“. Ela argumentou que, nas eleições, existem apenas duas opções: “Ganhamos com uma grande maioria ou Maduro rouba a eleição“.
O ex-presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, saudou María Corina Machado no Salão Oval em maio de 2005, quando discutiu “os esforços da Súmate para salvaguardar a integridade e transparência dos processos eleitorais da Venezuela“. Segundo a Casa Branca, “o presidente expressou suas preocupações sobre os esforços para intimidar e provocar a Súmate e sua liderança“.
Em 2006, Corina foi saudada pela National Review e entrou para a lista Women the World Should Know para o Dia Internacional da Mulher. Em 2009, teve seu nome divulgado no programa Yale World Fellows, da Universidade de Yale, que objetiva construir uma rede global de líderes emergentes, para ampliar a compreensão internacional em todo o mundo: “Machado dedica-se a defesa das instituições democráticas e cívicas através da Súmate, cão de guarda principal da nação para a transparência eleitoral“.
Em 2 de abril de 2014, María Corina Machado esteve diante da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional do Senado Federal do Brasil para denunciar a violência política e as violações de direitos humanos na Venezuela, mas os senadores Eduardo Suplicy (PT-SP) e Randolfe Rodrigues, que era do PSOL, contestaram e criticaram as declarações. A senadora Vanessa Grazziotin afirmou que um vídeo exibido era uma farsa: “Esse vídeo é uma montagem. Considero a sua exibição um desrespeito ao Senado Federal do Brasil. Não queira nos enganar com aquilo“.
Petróleo
Devido à guerra entre a Rússia e a Ucrânia, que afetou a distribuição de petróleo no mundo, os Estados Unidos emitiram em outubro de 2023 licenças para que a Venezuela pudesse vender seu petróleo no mercado internacional, após quase 7 anos de sanções contra sua economia. Conforme mostrou o Brasil de Fato, a estatal petroleira PDVSA tem a projeção de aumentar a produção e as receitas, mesmo em um cenário de retomada de sanções contra o setor.
Caracas aumentou a sua produção em 18% no primeiro trimestre do ano em relação ao mesmo período de 2023, diz a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), que garante que a Venezuela produziu cerca de 874 mil barris em março de 2024, um valor ainda abaixo do que a PDVSA calcula que produz, mais de 900 mil barris.
O presidente da estatal, Pedro Rafael Tellechea, disse que, mesmo com a retomada das sanções, a PDVSA expandirá e aumentará progressivamente seus negócios e a produção, ainda com expectativa de continuar vendendo petróleo no mercado internacional.
Irã, Rússia e Venezuela, todos inimigos dos EUA, são três dos principais produtores de petróleo e gás no mundo e todos estão sancionados. Grande parte das usinas estadunidenses são projetadas para refinar o petróleo cru pesado, como é o óleo betuminoso venezuelano. Para isso, elas teriam que ser adaptadas caso parem de refinar petróleo venezuelano, o que pode ter alto custo.
Uma das metas da empresa é fortalecer sua relação com a vizinha Colômbia. A possibilidade para estreitar os laços seria a partir de acordos com a petroleira Ecopetrol. O presidente da empresa colombiana disse em março que começará a importar gás da PDVSA para suprir a demanda interna. O país enfrenta um déficit de 17% no suprimento do combustível no país.
Trump
O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse em 2023, durante uma convenção do Partido Republicano, na Carolina do Norte, que se tivesse sido reeleito em 2020 teria “tomado” a Venezuela e “pegado todo o petróleo”: “Quando eu saí, a Venezuela estava prestes a colapsar. Nós teríamos tomado o país e pegado todo aquele petróleo. Seria ótimo”, disse.
Na ocasião, Trump criticava a compra da commodity venezuelana por parte dos Estados Unidos dizendo que o país está “enriquecendo um ditador”: “Mas agora estamos comprando petróleo da Venezuela então estamos enriquecendo um ditador. Vocês acreditam? Ninguém consegue acreditar nisso. E o petróleo deles é um lixo, é horrível, o pior que podemos pegar”.
