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    RESUMO
    URBS MAGNA

    | Santa Cruz de La Sierra (BO)
    23 de agosto de 2026

    A advogada e ativista boliviana Nadia Beller, de 33 anos, recebeu alta neste sábado (22/ago) da Clínica Las Américas, em Santa Cruz de la Sierra, cinco dias depois de ser baleada em um ataque que passou a ser investigado como tentativa de feminicídio. Ela deixou o hospital sob forte escolta policial e continuará a recuperação em casa.

    Antes de receber alta, Beller voltou a acusar o consultor político argentino Fernando Cerimedo de estar por trás do atentado. Em entrevista ao jornal argentino Clarín, afirmou que ele teria tentado matá-la porque ela poderia revelar informações que conhecia sobre seus negócios e relações políticas.

    A acusação é o centro de uma investigação que ainda está em andamento. Cerimedo não foi condenado pelo ataque e nega envolvimento.

    O atentado contra Nadia Beller

    Beller foi baleada na segunda-feira (17/ago), em Santa Cruz de la Sierra. Segundo as informações divulgadas pelas autoridades e pela imprensa, ela foi abordada por homens que usavam roupas semelhantes às de entregadores de comida.

    A vítima foi atingida por três disparos e precisou ser internada. O ataque foi registrado por câmeras de segurança, segundo as informações divulgadas durante a investigação.

    Cerimedo foi detido no aeroporto de Viru Viru quando, segundo as autoridades, se preparava para deixar a Bolívia em direção à Argentina. Ele passou a ser investigado pela possível participação no ataque.

    Nos dias seguintes, a investigação avançou sobre outros suspeitos. Um deles foi apontado como possível participante da execução material do ataque, enquanto investigadores também passaram a examinar a origem dos recursos e outros elementos relacionados ao crime.

    Justiça determina 180 dias de prisão preventiva

    Na sexta-feira (21/ago), o juiz Wilson Espada determinou que Fernando Cerimedo permaneça 180 dias em prisão preventiva, no presídio de Palmasola, enquanto prossegue a investigação.

    A decisão levou em consideração, segundo informações sobre a audiência, riscos relacionados à fuga e à possibilidade de interferência na investigação. A Justiça também rejeitou objeções apresentadas pela defesa sobre a prisão e autorizou o uso de mensagens do celular de Cerimedo no processo.

    A prisão preventiva, entretanto, não equivale a uma condenação. Cerimedo continua sendo investigado e tem direito à defesa e à presunção de inocência.

    A defesa nega que ele tenha ordenado o ataque e apresentou uma versão alternativa para os acontecimentos, incluindo a hipótese de que o episódio poderia ter sido forjado. Essa é a versão dos advogados e ainda precisa ser confrontada com as provas reunidas pela investigação.

    Beller diz que poderia revelar informações sobre Cerimedo

    Em entrevista ao Clarín, Beller afirmou que conhecia informações sobre negócios, dinheiro e relações políticas de Cerimedo que poderiam causar problemas para o consultor.

    Ela também afirmou que ele tinha acesso e influência dentro do governo boliviano.

    Essas declarações ganharam peso político porque Cerimedo não era um personagem desconhecido na Bolívia. Ele atuava como consultor do presidente Rodrigo Paz e já havia construído uma carreira internacional como estrategista político e digital ligado a movimentos de direita e extrema direita.

    A Folha de S.Paulo informou que Beller apresentou denúncias envolvendo supostos negócios ilícitos e relações de Cerimedo com pessoas ligadas aos governos de Bolívia e Argentina. Essas acusações estão sendo investigadas e não podem ser tratadas como fatos comprovados neste momento.

    Cerimedo e as redes da extrema direita latino-americana

    É nesse ponto que o caso ultrapassa a esfera pessoal entre Beller e Cerimedo. O argentino construiu sua trajetória política e profissional em diferentes núcleos da direita latino-americana, tendo trabalhado com Javier Milei na Argentina e posteriormente atuado como consultor do presidente boliviano Rodrigo Paz.

    Reportagens internacionais descrevem Cerimedo como um estrategista ligado a líderes da extrema direita latino-americana. No Brasil, sua relação com o bolsonarismo também é documentada.

    Cerimedo manteve proximidade com Eduardo Bolsonaro e ganhou notoriedade no país em 2022 ao divulgar conteúdos que questionavam a segurança das urnas eletrônicas e colocavam em dúvida o resultado da eleição presidencial.

    Segundo reportagens brasileiras, ele também afirmou ter trabalhado para a campanha de Jair Bolsonaro em 2018.

    A ligação com o bolsonarismo, portanto, não se resume a uma afinidade ideológica: há relações políticas e pessoais documentadas com integrantes da família Bolsonaro, especialmente Eduardo Bolsonaro, além da atuação de Cerimedo na divulgação de alegações falsas sobre as urnas que foram incorporadas à contestação bolsonarista do resultado das eleições de 2022., citados por UOL, Folha de S.Paulo1 e Folha de S.Paulo2.

    De Milei a Bolsonaro e agora à Bolívia

    A trajetória de Cerimedo ajuda a explicar a dimensão internacional que o episódio ganhou.

    Na Argentina, ele esteve ligado à campanha presidencial de Javier Milei e à estrutura de comunicação política da direita argentina.

    No Brasil, tornou-se conhecido por sua proximidade com integrantes do bolsonarismo e pela atuação na disseminação de alegações falsas ou enganosas sobre as urnas.

    Na Bolívia, passou a atuar como consultor de Rodrigo Paz.

    A imprensa internacional passou a tratar essa trajetória como parte de uma rede transnacional de estrategistas, comunicadores e operadores digitais que trabalham para setores da direita e da extrema direita latino-americana.

    É nesse contexto que a prisão de Cerimedo ganhou repercussão fora da Bolívia.

    A acusação de Beller contra o consultor

    Beller sustenta que o ataque não teria sido simplesmente resultado de uma disputa pessoal. Segundo ela, Cerimedo teria motivos para impedir que determinadas informações viessem a público.

    Essa hipótese passou a ser investigada pelas autoridades bolivianas, mas ainda não existe uma conclusão judicial sobre a motivação definitiva do atentado.

    A própria investigação trabalha com diferentes elementos e suspeitos, enquanto Beller afirma ter sido atacada para ser impedida de revelar informações que diz possuir sobre Cerimedo e suas relações políticas e financeiras.

    A gravidez também faz parte do contexto

    Beller afirmou estar grávida de aproximadamente quatro semanas e relacionou a gravidez ao contexto de sua relação com Cerimedo.

    O episódio acrescentou outra dimensão pessoal ao caso, que envolve um relacionamento entre os dois, acusações anteriores de violência e agora uma investigação por tentativa de feminicídio.

    A existência da gravidez e a situação médica de Beller foram divulgadas durante sua internação, mas a relação entre esses fatos e a motivação do atentado ainda precisa ser demonstrada pela investigação.

    O que está comprovado até agora

    Nadia Beller foi baleada em Santa Cruz de la Sierra em 17 de agosto; permaneceu cinco dias internada; recebeu alta em 22 de agosto sob forte proteção policial; Fernando Cerimedo foi detido durante a investigação; a Justiça boliviana determinou 180 dias de prisão preventiva para o consultor; ele deverá permanecer em Palmasola durante esse período; outros suspeitos foram detidos ou passaram a ser investigados; Beller acusa Cerimedo de ser o responsável intelectual pelo ataque; a defesa de Cerimedo nega a acusação.

    Ainda não está definitivamente comprovado

    N;ao está comprovado que Cerimedo tenha ordenado o atentado; qual foi exatamente a motivação do ataque; se as denúncias financeiras apresentadas por Beller serão comprovadas; quem contratou ou coordenou os autores materiais; qual era exatamente o grau de influência de Cerimedo dentro do governo boliviano.

    Um caso que expõe as conexões da extrema direita da América Latina

    O caso Nadia Beller ganhou uma dimensão que vai muito além da relação entre uma advogada boliviana e seu ex-companheiro.

    Fernando Cerimedo é um personagem que circulou por diferentes ambientes políticos da extrema direita latino-americana: esteve ligado à campanha de Javier Milei, manteve relações documentadas com o bolsonarismo e posteriormente passou a atuar junto ao governo de Rodrigo Paz.

    Agora, está preso preventivamente na Bolívia sob investigação por um ataque contra uma mulher que afirma possuir informações sobre seus negócios e relações políticas.



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