Segundo relatos de fontes que participaram da ligação entre o petista e o republicano, a conversa extra-oficial foi descontraída e passou longe das tensões promovidas por bolsonaristas
Brasília, 06 de outubro 2025
No telefonema em que o presidente dos EUA, Donald Trump, participou com o Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na manhã desta segunda-feira (6/out), o republicano não citou o nome do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), conforme observou a Folha de S. Paulo em matéria que usou o termo “ignorou” para se referir a esta falta de referência ao condenado por tentativa de golpe de Estado, haja vista que um dos motivos para o tarifaço imposto deveu-se à narrativa do líder estadunidense de “caça às bruxas” imposta pela Justiça brasileira.
Segundo o texto, e conforme a nota oficial divulgada à imprensa, pelo Palácio do Planalto, Lula pediu a Trump a retirada das tarifas e também a suspensão das medidas restritivas aplicadas contra autoridades brasileiras.
A matéria, embasada em relatos de testemunhas da conversa, diz que o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), principal sancionado por estar ligado à condenação de Bolsonaro, também não foi citado pelo estadunidense.
Tais fontes, segundo o jornal, também argumentaram sobre fala do estadista brasileiro ao republicano, de que ele “não tinha inimigos“, o que foi rebatido por Trump, que respondeu que tem.
“Como prova de sua disposição ao diálogo, Lula lembrou que, em seus primeiros governos, manteve bom relacionamento com o ex-presidente americano George W. Bush, republicano como Trump“, revela a matéria, em informação não contida na nota do Planalto.
Além do que foi informado oficialmente sobre a troca de telefones entre os dois líderes, as fontes argumentaram sobre o tema do “vigor físico” que envolveu Lula e Trump, sendo que o petista “comentou estar prestes a completar 80 anos” e acrescentou que é “movido por uma causa“, e que é 6 meses mais velho que o republicano, que respondeu se sentir como se tivesse 40 anos de idade.
No encontro que tiveram na Assembleia Geral da ONU, no mês passado, Trump disse que Lula foi uma das “poucas coisas boas” que aconteceram a ele no evento, conforme o jornal lembrou, citando a jornalista Mônica Bergamo como fonte desta informação.
A publicação da Folha também lembra que Trump, assim como o fizera durante seu discurso na ONU, voltou da se queixar dos problemas técnicos enfrentados como do teleprompter.
REAÇÕES BOLSONARISTAS
Trump descreveu a conversa como “ótima” em suas redes sociais, também sem mencionar Jair Bolsonaro ou o STF, o que gerou surpresa e desconforto entre os bolsonaristas.
A reação inicial foi marcada por silêncio, especialmente de figuras como Eduardo Bolsonaro, que está em Orlando e tem se posicionado como interlocutor de Trump nos EUA.
RECEBA NOSSAS ÚLTIMAS NOTÍCIAS EM SEU E-MAIL
Interlocutores de Eduardo relataram “surpresa e desconforto“, enquanto um ministro de Lula afirmou que a ligação “colocou uma pá de terra” nas articulações do deputado, que, junto a Paulo Figueiredo, buscava pressionar por sanções e anistia aos envolvidos no 8 de janeiro.
Fabio Wajngarten, advogado e aliado do clã Bolsonaro, minimizou o evento, afirmando no X que “a mera ligação entre chefes de Estado que pensam e atuam de maneira absolutamente contrastante não quer dizer nada” e previu que negociações não avançarão devido à falta de “química” entre os líderes.

Paulo Figueiredo, inicialmente reticente ao comentar por estar “de férias“, disse que não há motivo para comemoração por parte de Lula, já que Trump delegou negociações ao linha-dura Marco Rubio.
No PL, partido de Bolsonaro, a reação foi de pânico interno, com um integrante admitindo que “Trump elogia Lula logo na largada, isso bagunça qualquer estratégia nossa“, enquanto o partido planeja conter danos para evitar que Eduardo perca relevância.
Influenciadores bolsonaristas, como Helio Beltrão e Daniel BigHouse, tentaram reinterpretar a ligação como uma “armadilha diplomática” de Trump para pressionar Lula por demandas como liberdade de expressão ou anistia, criticando a “direita burra” que enxerga derrota no movimento.
A ausência de menções a Bolsonaro ou ao STF na conversa reforça o isolamento do grupo, que apostava na narrativa de que Trump agiria exclusivamente em favor do ex-presidente.
A ligação também sinaliza uma reaproximação Brasil–EUA, com potencial relaxamento de sanções e tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, beneficiando o governo Lula sem envolver o bolsonarismo.
Alguns posts no X ironizaram Lula, chamando-o de “cagão diplomático” por optar por uma ligação em vez de um encontro presencial, mas a narrativa dominante entre analistas é que o gesto fortalece a diplomacia pragmática do estadista e desmoraliza o “falso patriotismo” bolsonarista, que dependia da suposta influência de Eduardo nos EUA.
Caso um encontro presencial ocorra, como sugerido para a Cúpula da Asean ou a COP30, as reações bolsonaristas podem se intensificar, mas, por ora, o grupo segue na defensiva, priorizando a contenção de danos para não admitir publicamente a perda de relevância.







