Na ‘ascensão e queda’ da cloroquina, pacientes ainda pedem o remédio do Bolsonaro e médicos são ameaçados de morte

26/07/2020 2 Por Redação Urbs Magna

Relatos como o de uma médica que foi chamada de assassina e teve que pedir demissão de hospital por conta da droga símbolo do bolsonarismo configuram a realidade política do Brasil

Pacientes e parentes de infectados pelo novo coronavírus estão pressionando médicos e profissionais de Saúde e pedem que a cloroquina, difundida diariamente pelo presidente Jair Bolsonaro, além de outros remédios sem comprovação científica, tenha sua prescrição recomendada e seja administrada clinicamente aos doentes, diz pesquisa da APM (Associação Paulista de Medicina). Há relados de ameaças de morte nas redes sociais e em alguns casos os profissionais são chamados de assassinos.

Metade dos médicos relata pressão (…) embora pesquisas não apontem benefícios no uso de cloroquina e hidroxicloroquina em pacientes com covid-19“, conforme publicou Roberta Jansen referindo-se ao “debate político em torno dos medicamentos, capitaneado, muitas vezes, pelo presidente Jair Bolsonaro“.

Jansen revela, no Estadão, que praticamente a “metade [48,9%] de quase 2 mil profissionais entrevistados em todo o País” se queixam sobre o assunto e expõe o caso do “presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Clóvis Arns, que chegou a ser ameaçado de morte nas redes sociais e foi alvo de notícias falsas após a instituição publicar recomendação contra a cloroquina para a covid-19, no dia 17“.

“Pediram a morte do presidente da SBI nas redes sociais, minha família ficou apavorada, não queria que eu fosse trabalhar”, contou Arns. “Por outro lado, tivemos várias manifestações de apoio de diversas sociedades médicas e do Senado Federal. Queremos ficar longe dessa briga ideológica, nosso objetivo é discutir cientificamente apenas. Fazemos medicina baseada em evidências”, teria dito Arns.

Sobre isso, o estudo da APM diz que:

“Notícias falsas e informações sensacionalistas ou sem comprovação técnica são inimigos que os médicos enfrentam simultaneamente à covid-19.

Pelo menos 69,2% (dos entrevistados) dizem que (notícias falsas ou sensacionalistas) interferem negativamente, pois levam algumas pessoas a minimizar (ou negar) o problema e, assim, a não observar as recomendações de isolamento social e higiene, ou a não procurar os serviços de saúde.

Outros 48,9% falam que, em virtude das fake news, pacientes/familiares pressionam por tratamentos sem comprovação científica”.

A jornalista também traz o relato comovente da médica intensivista de 32 anos Bruna Lordão, que teve que pedir demissão do Hospital Geral de Vila Penteado, na zona norte de São Paulo, onde trabalhava, após ser chamada de “assassina” por parentes de um paciente, a quem ela se recusou a prescrever cloroquina:

“As pessoas não querem saber de pesquisa cientifica. Elas querem saber o que o Bolsonaro tomou, o que o (presidente americano Donald) Trump disse.

Foram certamente os piores momentos da minha carreira. Quando você trabalha num pronto-socorro, numa UTI, vai ter muitas baixas, com certeza. Mas nada igual à UTI covid-19: são três, quatro óbitos por dia. Muita gente morrendo, num mesmo lugar, da mesma coisa.

Sei que é um momento complicado. Entendo a agonia e a angústia das pessoas, mas começaram a me chamar de assassina porque eu não tinha usado cloroquina no tratamento.

As pessoas não entendem que não existe benefício no uso da cloroquina porque o presidente fala que tem benefício. E acreditam piamente nisso. Ninguém entende que a gente não usa justamente porque não tem benefício.

Outros relatos de médicos:

“Fico muito preocupada com três coisas: pessoas estarem determinando medicamentos na base do “eu acho” e “na minha experiência”, pessoas ficarem criticando estudos clínicos e médicos indicando remédios (sem comprovação) nas redes sociais.

Muitos pacientes já chegam ao hospital tomando cloroquina prescrita por médicos particulares”.

Patrícia Rocco, chefe do Laboratório de Investigação Pulmonar da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro da Academia Nacional de Medicina.

“A pressão parte de profissionais que não estão na linha de frente do combate,  são professores ou médicos mais velhos, que não atendem covid-19 e defendem a cloroquina nas redes sociais

Em geral, eles fazem isso por dois motivos: ou por ingenuidade, porque não estudam, não sabem avaliar um artigo científico, ou por má-fé mesmo; há colegas que têm um engajamento político importante nessa linha”.

Alexandre Naime Barbosa, chefe da infectologia da Unesp (Universidade Estadual Paulista)

Preocupada com o assunto Roberta Jansen fez uma retrospectiva sobre os altos e baixos da cloroquina e hidroxicloroquina ao longo de 2020, no que chamou de “ascensão e queda”, ‘linkando’ tudo em correspondência com o noticiado até então pelo jornal para o qual escreve:

4 de fevereiro Pesquisadores do Instituto de Virologia de Wuhan, na China, publicam na Nature um artigo cujo título é “Remdesivir e cloroquina inibem o novo coronavírus in vitro”.

20 de março Pesquisadores franceses, entre eles Didier Raoult, divulgam o estudo com resultados positivos com hidroxicloroquina e azitromicina como tratamento contra a covid-19.

21 de março O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usa suas redes sociais para pedir o uso de hidroxicloroquina e azitromicina no combate ao coronavírus.

23 de março OMS critica uso de remédios não testados contra coronavírus e lança o Solidarity Trial, um teste internacional para conseguir evidências mais robustas e de qualidade em relação à cloroquina, hidroxicloroquina, remdesivir (usado no tratamento do ebola), lopinavir/ritonavir (HIV) e o interferon beta-1a (usado com esclerose múltipla).

25 de maio OMS suspende temporariamente o uso do medicamento em ensaio clínico internacional após um estudo feito com mais de 96 mil pacientes ser publicado na revista científica The Lancet, afirmando que o uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina em pacientes com o novo coronavírus, mesmo quando associados a outros antibióticos, aumentava o risco de morte e de arritmia cardíaca.

2 de junho Revista Lancet emite um ‘manifesto de preocupação’ sobre o estudo, pois especialistas levantaram ‘sérias dúvidas científicas’ sobre a metodologia utilizada.

3 de junho OMS anuncia retomada dos testes com hidroxicloroquina no ensaio clínico Solidarity.

17 de junho OMS suspende definitivamente os estudos com o cloroquina e hidroxicloroquina, pois os medicamentos não apresentaram benefícios contra a covid-19. 

Há uma semana Leonardo Sakamoto disse que a “cena de culto à cloroquina mostra que ela se tornou símbolo do bolsonarismo“:

“A primeira referência que me veio à cabeça com a imagem de Jair Bolsonaro erguendo uma caixa de cloroquina para o delírio de seus seguidores aglomerados em frente ao Palácio do Alvorada, neste domingo (19), foi Rafiki apresentando Simba aos súditos de Musafa em Rei Leão.

A segunda, ancorada na realidade e mais preocupante, foi a lembrança das formas de propaganda descritas pela filósofa alemã Hanna Arendt no clássico “Origens do Totalitarismo”.

Bolsonaro tem feito intensa publicidade da cloroquina para o tratamento da covid-19, mesmo que a maioria esmagadora de médicos e cientistas aponte tanto para a ineficácia do produto quanto para os graves efeitos colaterais. Mas é a primeira vez que ele o coloca no centro de uma aclamação quase religiosa”.

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