Movimento pode complicar ainda mais a situação jurídica do réu no STF, pois doações “podem ser vistas como uma tentativa de obstrução, caso sejam interpretadas como parte de um esquema para mascarar a origem de outros recursos”, alerta especialista – ENTENDA
Brasília, 24 de agosto de 2025
Apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre prisão domiciliar, organizaram um mutirão de doações via Pix com valores simbólicos de R$ 22,22 e R$ 222,22, em uma ação que mistura apoio político, ironia e desafio à Justiça.
Comprovantes de transferências circularam amplamente nas redes sociais, acompanhados de mensagens de solidariedade e provocações às autoridades.
O movimento ocorre em meio a uma investigação da Polícia Federal (PF) que aponta movimentações financeiras suspeitas de Bolsonaro, levantando questionamentos sobre a origem e o destino dos recursos.
Segundo relatório recente da PF, Bolsonaro movimentou R$ 30,5 milhões entre março de 2023 e fevereiro de 2024, sendo R$ 19,3 milhões provenientes de transferências Pix, muitas delas ligadas a campanhas de arrecadação promovidas por aliados em 2023 para custear multas judiciais e despesas legais.
A investigação, baseada em dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), identificou indícios de “lavagem de dinheiro e outros ilícitos”, especialmente por conta de transferências para familiares, como R$ 2 milhões para Michelle Bolsonaro e R$ 2,1 milhões para o filho Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
Além disso, entre janeiro e julho de 2025, Bolsonaro realizou 40 saques em espécie totalizando R$ 130,8 mil, o que reforça as suspeitas sobre a rastreabilidade dos valores.
O mutirão de doações, com valores simbólicos que remetem ao número 22 — associado à campanha de Bolsonaro em 2022 —, é interpretado por analistas como uma resposta direta às investigações.
A ação também busca manter Bolsonaro no centro do debate público, especialmente às vésperas de seu julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), previsto para início de setembro, que pode resultar em prisão definitiva por suposta tentativa de golpe de Estado em 2022.
Nas redes sociais, mensagens como “Pix para o capitão, contra a perseguição!” viralizam junto aos comprovantes, reforçando a narrativa de que Bolsonaro é alvo de retaliação política.
A PF não confirmou se o mutirão atual está diretamente ligado às movimentações investigadas, mas fontes próximas à investigação sugerem que as doações simbólicas podem dificultar a rastreabilidade dos valores, potencializando as suspeitas de irregularidades.
Além disso, o relatório da PF destaca que o Partido Liberal (PL), presidido por Bolsonaro, transferiu R$ 1,1 milhão ao ex-presidente entre março de 2023 e junho de 2025, sendo o principal doador identificado.
Outras contribuições vieram de empresas como a Onco Star SP, da Rede D’Or São Luiz, que devolveu R$ 50 mil de uma caução hospitalar, e de pessoas físicas ligadas ao agronegócio e ao setor imobiliário.
A defesa de Bolsonaro classificou a divulgação de informações financeiras como “violação inaceitável de sigilo bancário”. A movimentação financeira de Bolsonaro também inclui R$ 6,8 milhões pagos a advogados, como Paulo Cunha Bueno e Daniel Tesser, e aplicações financeiras de R$ 18,3 milhões em CDB/RDB, o que a PF interpreta como possível tentativa de blindagem patrimonial.
Outro ponto de atenção é a transferência de R$ 1,6 milhão em operações de câmbio para uma conta no Wells Fargo, nos Estados Unidos, ligada a Eduardo Bolsonaro, apesar de Bolsonaro estar proibido de deixar o país.
O movimento dos apoiadores, segundo o advogado Renato Almeida, especialista em direito penal, pode complicar ainda mais a situação jurídica de Bolsonaro. “As doações simbólicas, embora lícitas em essência, podem ser vistas como uma tentativa de obstrução, caso sejam interpretadas como parte de um esquema para mascarar a origem de outros recursos”, alerta.
Enquanto isso, a mobilização mantém a base bolsonarista engajada, com hashtags como #PixParaBolsonaro ganhando tração nas redes.
Às vésperas do julgamento, o mutirão de Pix reforça a polarização política no Brasil. Para César, “Bolsonaro utiliza essas ações para se posicionar como vítima e mobilizar sua base, mantendo relevância mesmo sob pressão judicial”.
A PF segue monitorando as transações e o STF deve analisar o relatório como parte do inquérito sobre a trama golpista, o que pode agravar as acusações contra o ex-presidente e seus aliados.







