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Milei, ‘El Loco’, pede socorro e Lula envia 44 milhões de m³ de gás liquefeito contra escassez no país

    Resumo: O Brasil ajudou a Argentina a destravar o fornecimento de gás natural da Petrobras para evitar um colapso energético. O país de Javier Milei contratou um navio com gás liquefeito da petroleira brasileira para mitigar a escassez de combustível devido ao aumento do consumo provocado pelo frio atípico. Houve dificuldades com a carta de crédito apresentada pelos ‘hermanos‘, mas após intervenção do Governo Lula o problema foi resolvido e o gás foi liberado

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    O Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o presidente da República Argentina, Javier Milei, nunca se falaram. E isso não ocorre especialmente desde que o economista e professor argentino virou presidente de seu país, no final do ano passado, quando, antes do resultado eleitoral, resolveu ofender publicamente o estadista “de forma gratuita“, chamando-o de “comunista” e “corrupto“, em um programa de TV, durante entrevista ao jornalista peruano Jaime Bayly.



    O então candidato Milei ainda disse que, caso fosse eleito, retiraria os embaixadores argentinos de países que são “ditaduras”, como Venezuela, Cuba, Nicarágua, Coreia do Norte e Irã, e condenaria o “terrorismo do Hamas e do Hezbollah”.

    Quando Milei virou presidente, Lula apenas parabenizou o povo e as instituições argentinos pela conclusão do processo eleitoral, porém não o citou no texto publicado em rede social: “A democracia é a voz do povo, e ela deve ser sempre respeitada“. Depois disso, o ex-presidente declarado inelegível Jair Bolsonaro (PL) foi convidado, participou da posse o mandatário da Argentina e nunca mais se ouviu falar nas relações entre os dois países.

    A Argentina havia contratado às pressas, no dia 22, um navio com 44 milhões de metros cúbicos (m³) de gás natural liquefeito (GNL) da Petrobras para mitigar uma súbita escassez do combustível no país, que já começava a paralisar parte da atividade industrial e a provocar filas e fechamentos de postos, devido à disparada do consumo nas últimas semanas, por um atípico frio não registrado há décadas no período.

    Na tarde de terça-feira (28/5), a embarcação da Petrobras já estava conectada a um barco regaseificador em águas argentinas, pronto para o descarregamento do GNL, mas a empresa brasileira não aceitou a carta de crédito do Banco de la Nación, apresentada pela Enarsa (Energía Argentina Sociedad Anónima) e pediu um novo documento.

    O governo Milei corria contra o relógio, para suprir a calefação nas residências. Segundo a ‘CNN Brasil‘ as horas passavam e o descarregamento não era feito, enquanto na Argentina notícias da escassez de gás começavam a se espalhar e alarmar industriais. Grandes e médias empresas já haviam sido notificadas por distribuidoras de que, por uma situação de força maior que comprometeu o abastecimento, deveriam suspender o consumo de gás natural em suas instalações.

    Na noite de terça, o governo argentino decidiu acionar a diplomacia brasileira. Os primeiros contatos foram do presidente da Enarsa com o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, que depois foi procurado pela chanceler argentina Diana Mondino.

    Integrantes dos dois governos confirmaram que, após essa comunicação, Mondino conversou com o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que se surpreendeu com o contato do diplomata brasileiro durante um jantar da Amcham (Câmara Americana de Comércio), no Palácio do Itamaraty e com a presença de vários ministros, quando comemorava os 200 anos de relações BrasilEUA.

    O ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira, não estava nesse evento, mas Vieira o acionou para que fosse verificado com a Petrobras qual era o problema com a carta de crédito apresentada e tentar resolve-lo para evitar mais danos à já fragilizada economia de Milei. Então, o governo brasileiro socorreu o país do presidente malcriado ajudando-o a destravar o fornecimento de gás natural da petroleira brasileira e a evitar um colapso energético por lá.

    Uma das autoridades brasileiras diretamente envolvidas na negociação disse que havia o interesse em um desenlace ágil, porque se tratava de uma situação de urgência para um “país amigo”. Essa autoridade descreveu que “havia claramente um grau de urgência nas ligações” pelo conhecimento, em ambos os lados, do potencial negativo para a economia argentina caso esse gás não fosse liberado.

    A cadeia de contatos, por mensagens e ligações, foram para entender o problema e ver o que poderia ser feito e agilizar o processo, sem interferências políticas e cumprindo os requisitos da Petrobras. “Foi uma questão puramente comercial”, afirmam, garantindo que a mobilização demonstra que as relações estão fluindo corretamente e que a interlocução de alto nível para destravar a situação indica que a relação está funcionando.

    Auxiliares próximos ao presidente Lula relatam que o pedido à Petrobras foi feito na última quarta-feira (22/5), emergencialmente, e apesar da disposição da empresa brasileira de enviar o gás solicitado, a Argentina demorou dois dias para apresentar a carta de crédito ao Brasil. O documento, no entanto, não continha todos os requisitos exigidos pela Petrobras para que servisse como garantia do pagamento.

    Após a gestão dos interlocutores com a empresa brasileira, o problema foi solucionado com a emissão de uma nova carta de crédito, emitida na manhã de quarta. A notícia da liberação do carregamento foi dada diretamente pelo chanceler Vieira à sua par argentina, perto das 7h da manhã, e o início do abastecimento de gás no país anunciado pelo porta-voz da Casa Rosada, Manuel Adorni, em coletiva de imprensa, gerando alívio no país.

    Em nota, a Petrobras se limitou a afirmar que “a operação de venda de GNL entre a Petrobras e a Enarsa ocorreu conforme acordado em contrato. Ambas as empresas atuaram para viabilizar o início de fornecimento, que já está acontecendo, no menor prazo possível”.

    Na avaliação de altos funcionários do governo brasileiro, o episódio todo mostra que, embora Lula e Milei jamais tenham se falado, há maturidade nas relações econômico-comerciais entre os dois principais do Mercosul e as instâncias técnicas continuam operando normalmente. Nesta quinta, o porta-voz da Casa Rosada elogiou a articulação entre os países para destravar o problema e afirmou que “é preciso agradecer a Petrobras”.

    Temos que saber ser agradecidos e reconhecer quando as coisas saem bem. É uma questão muito sensível, de certa gravidade com os setores que tinham que se abastecer com gás, a rapidez que houve para solucionar o problema com a famosa carta de crédito. Quando estamos contentes com essas questões, num momento tão crítico, é bom mencionar e agradecer”, disse.

    Ele completou afirmando que é importante mostrar “quando a diplomacia acontece de maneira perfeita, quando as relações são bárbaras com um problema que tem que ser resolvido e todos se colocam à disposição”.

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