O jornalista pede que colegas chamem Bolsonaro de candidato de extrema-direita, como faz toda a mídia mundial. Senão é “torcida” e mostra que “já está feita a escolha”
“Quase quatro anos depois da eleição [de 2018], depois de tantas evidências, muito mais que aparências, e a mídia brasileira (a quem tanto servi, admiro e vivi redações Brasil afora) ainda não teve a coragem sequer de definir o presidente [Jair Bolsonaro (PL)] como candidato de extrema-direita“, disse o jornalista Xico Sá, em seu perfil na rede social Twitter.
“É importante essa definição. É importantíssimo que a mídia brasileira defina Bolsonaro como candidato de extrema-direita, como faz toda mídia mundial. Isso é vergonhoso“, insistiu o autor de Big Jato, que produziu uma série de tuítes entre o fim da noite de sábado (28/5) e a madrugada deste domingo (29/5), demonstrando, repetitivamente, grande preocupação com o tema.
“Se a mídia brasileira nunca tratou e segue sem tratar Bolsonaro como extrema-direita significa que ela tem lado definido na eleição“, afirmou novamente.
“Em qualquer lugar do mundo, até na Micronésia, bolsonaro seria descrito como “o candidato da extrema-direita etc etc”, prosseguiu, mencionando, comparativamente, os Estados Federados da nação insular da Oceania, que com pouco mais de 600 ilhas possuem população de tão somente 115 mil habitantes aproximados.
“Toda a mídia mundial o trata assim, mas você já reparou que a mídia brasileira passa esse pano? “, observa o jornalista. “Se a mídia brasileira não define Bolsonaro como candidato de extrema-direita já está feita a escolha“, opina.
“A imprensa hereditária brasileira fala jabuti pra cá, jabuti pra lá, mas essa mesma mídia tem o maior jabuti na sua árvore genealógica: é a única do mundo que não trata Bolsonaro como candidato de extrema-direita. Isso é torcida“, acredita Xico Sá.
“Óbvio do óbvio de toda ululância universal, sempre que trato da mídia hereditária estou a falar dos donos da prensa, jamais dos trabalhadores da mídia e de todo o reportariado, que isso sempre fique bem explícito. Tento tinta da gráfica em minhas vestes eternas“, escreve.
Xico Sá insiste, com novos argumentos e um pedido aos profissionais, no fim de sua sentença, que “é necessário que a mídia brasileira chame Bolsonaro de candidato da extrema-direita, como toda a imprensa mundial. Não é pedir muito, colegas, é isso é necessário. Clamo por essa obviedade“.
“A falta de definição de Bolsonaro como extrema-direita ou ultradireita (ustra-direita por amar o torturador-mor do Brasil) abre um caminho pra toda essa mídia hereditária fechar com esse candidato em eventual segundo turno. Se liga“, adverte.
“A não definição do candidato do PL como de extrema-direita pela mídia brasileira só deixa uma única suspeita: em um eventual segundo turno, Globo/Estadão e companhia inventam um fetiche neoliberal tipo Guedes e enfiam o dedo de com força no bolsonarismo de novo“, avalia.
Novamente, o jornalista insiste, certo do perigo: “Ou a mídia brasileira define Jair Bolsonaro como candidato da extrema-direita direita ou será a única do mundo a ser omissa e cúmplice. Isso é muito sério. Não basta a conivência da mamadeira de piroca de 2018?“
Em seguida, Sá diz que sonha “por um jornalismo que dê pra gente chamar o candidato Bolsonaro de extrema-direita e manter o emprego. Isso é básico. Aproveito e repito: toda vez que reclamo do jornalismo me refiro aos donos e aos tubarões dos aquários, nunca ao reportariado. Eu amo o jornalismo“.
Leia o final do longo texto de Xico Sá:
“É questão que define a mídia brasileira pra sempre em relação à mídia mundial: só os jornais brasileiros nao definem Bolsonaro como candidato de extrema-direita. Isso é torcida. Por que a mídia brasileira (falo dos donos, não do chão das redações) deixa aberta essa porta de apoio ao bolsonarismo? Por ódio de classe? O jornalismo tem que se ligar que vivemos tempos de Emile Zolá¹, eu acuso, tempos de ser fortes e dizer que não aceita que uma viatura vire câmara de gás.
¹ Escritor francês mais expressivo da escola literária naturalista. O naturalismo foi um movimento que culminou com um elevado grau de radicalismo visto nas formas de expressão do ser humano sobre suas impressões acerca dos acontecimentos da época, com alta fidelidade à realidade. Zola publicou artigo em que revelava os responsáveis por uma grande mentira da época, um processo fraudulento conhecido como caso Dreyfus [Alfred] – um capitão do Exército da França que foi acusado injustamente de traição, tendo sido incriminado por um conjunto de documentos falsos, com certa semelhança no caso de LULA.
