No Fantástico, o estadista chamou de irresponsável a alta dos juros e afirmou que vai “cuidar disso“, mas o jornalão diz que “Lula faz pouco da autonomia do BC e lança dúvidas sobre a independência de seu escolhido para presidir o banco“
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Em novo editorial contra o Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), sob o título “A ameaça de Lula ao Banco Central“, o jornal a serviço do mercado, o Estadão, demonstra que o setor treme com a chegada, à autarquia federal, do escolhido pelo estadista, Gabriel Galípolo, em 2025, o “ano da colheita“, conforme o chefe do Executivo deixou claro à apresentadora Sônia Bridi, no programa Fantástico, da rede Globo, na última noite de domingo (15/12).
Tendenciosamente, como sempre, o jornalão destaca a palavra “ameaça” para seguir na semeadura do ódio aos menos esclarecidos, construindo frases que possam contribuir para o efeito da negativação da imagem daquele que é considerado o “melhor Presidente que o Brasil já teve“, conforme mostrou uma pesquisa Datafolha, divulgada no final de 2022, e como os números da Economia sob sua terceira gestão têm provado.
Lula recebeu alta do Hospital Sírio-Libanês na manhã da mesma data em que a entrevista foi ao ar. O Presidente esteve internado durante cinco dias, depois de cirurgias de emergência por conta da queda que sofreu, no final de outubro, enquanto cortava as unhas das mãos, no banheiro do Palácio do Alvorada.
A publicação no jornal lembra isso e acrescenta que Lula “está mesmo em forma“, mas imediatamente, nas palavras seguintes, o editorialista se lança ao ataque contra o Presidente ao afirmar que, na entrevista, ele “não deixou dúvidas sobre seu desejo de interferir na gestão de Gabriel Galípolo” – a sentença mostra que o Estadão teve por objetivo enviá-la aos ‘seres’ do mercado financeiro e outros portadores de uma estranha síndrome de baixa cognição que atinge os chamados pobres de direita.
Lula avaliou, acertadamente, que tudo tem dado certo em seu governo, e que a única coisa errada é a taxa de juros, que acaba de ser elevada para 12,25% pelo COPOM (Comitê de Política Monetária) do BC (Banco Central). O jornal diz isso, mas destaca que a Selic foi para este percentual “com o voto inclusive de Galípolo” e transcreve a fala do estadista à Sônia:
Entre outras razões, o COPOM informou que decidiu elevar a Selic em 1% como resposta à flacidez do pacote de ajuste fiscal anunciado pelo governo.
O Estadão destacou que, segundo o comitê, esse fator, dentre outros, “exige uma política monetária ainda mais contracionista” e que “os “quatro e pouco” de inflação a que Lula se referiu são, na verdade, 4,87% no acumulado em 12 meses até novembro, como verificou o IBGE, nada menos do que 1,87 ponto porcentual acima do centro da meta inflacionária fixada pelo próprio governo para este ano”.
“A inflação, que nos últimos meses se espalhou por todos os preços, já estourou o teto máximo permitido para 2024, caminha perigosamente para ficar acima do limite do primeiro período de 2025 e está longe de estar “totalmente controlada”, como afirma Lula“, diz o texto em que o editorialista o chama de “demiurgo incansável“.
Em uma rápida pesquisa no Google, o leitor pode verificar que, “na filosofia de Platão, o demiurgo é o deus criador ou o princípio organizador do universo. Ele é o autor e gerador de tudo o que existe. Nos sucessores de Platão, o demiurgo é uma divindade que atua como medianeira entre o Deus supremo e a criação. Em sentido figurado, demiurgo pode significar criador de algo extraordinário ou grandioso“. Assim, o Estadão acerta sobre o estilo incansável de Lula, sem contudo mencionar sua vasta experiência política, que o torna um dos maiores estadistas em toda a Terra.
Em outro sentido, o jornal diz que, “ao insistir em negar a realidade da alta da inflação e o papel dos gastos do governo nessa escalada, Lula pretende caracterizar o Banco Central como um instrumento do mercado para favorecer o rentismo em detrimento do crescimento do País“. Note que o jornal e o mercado chamam de “gastos” o que o Presidente sempre se referiu como “investimentos“. E, neste ponto, é importante lembrar que, para o gestor do Executivo pela terceira vez, 2025 será “o ano da colheita“.
Mas o Estadão insiste em semear o ódio de seus seguidores ao afirmar que “é tudo muito conveniente, especialmente porque o BC ainda é presidido por Roberto Campos Neto, indicado pelo antípoda de Lula, Jair Bolsonaro“.
O editorialista acerta ao afirmar que “pode ser que tudo mude a partir de sua posse e que Galípolo, para agradar ao padrinho, se disponha a “cuidar disso”, mas espeta o Governo Lula na sequência, com sua visão de que o novo presidente do BC vai “baixar os juros na marra“. E coloca mais veneno ao escrever: “Só daqui a algum tempo saberemos qual versão de Galípolo presidirá o BC, se o zelador prudente do poder de compra da moeda que ele parece ser até aqui ou o irresponsável sabujo do presidente perdulário, como desejam os petistas.
Lendo toda a matéria, o público – não os lobos do mercado, mas os com síndrome cognitiva – cai na lábia do jornalão sem saber que após a reunião que elevou a Selic, o gerente de Análise Econômica da CNI (Confederação Nacional da Indústria) afirmou que, “nos últimos meses, a retomada da elevação dos juros vem afetando a confiança dos empresários sobre os seus negócios e, principalmente, sobre a economia”.
Além do aumento da Selic, a volatilidade do câmbio também é uma preocupação da Confederação. A desvalorização do real frente ao dólar, fruto de pura especulação financeira de um mercado que não aceita ver um governo trabalhando em prol da igualdade e dos mais necessitados, não apenas encarece os insumos importados, como também aumenta os custos operacionais e reduz a margem de lucro.
Mas o Estadão insiste em destacar falas que vêm do outro lado da trincheira de Lula, como a que ocorreu em recente jantar em Brasília, quando Campos Neto disse que a tarefa de Galípolo no BC será bem mais difícil do que a dele. O jornalão do mercado acrescenta que, “de fato, nos quatro primeiros anos de seu mandato de seis, como primeiro presidente autônomo ele permaneceu no cargo por mais dois anos para iniciar a série de mandatos não coincidentes com o da Presidência da República“. O editorial diz ainda que o aliado do inelegível até 2030 “teve pelo menos algum apoio da base aliada, ainda que as críticas de Bolsonaro à política monetária em momentos de juros altos não diferissem em quase nada das feitas por Lula“.
O texto finaliza afirmando que “Galípolo deve iniciar sua jornada trombando com Lula e com o PT” e que “de nada adiantou o Copom ter explicitado a disposição de efetuar duas novas altas de 1 ponto porcentual até março, se Lula já está ignorando o que parecia ser uma barreira de contenção contra os arroubos do governo nos três primeiros meses da nova diretoria do BC“. O Estadão reproduz a fala do Presidente, a qual chamou pejorativamente de “brado“:
Como afirmou a Presidenta Nacional do Partido dos Trabalhadores, Gleisi Hoffmann, por ocasião da divulgação, “é irresponsável, insana e desastrosa para o país a decisão do BC de elevar da taxa básica de juros para 12,25%. Não faz sentido nem seria eficaz para evitar alta da inflação, que não é de demanda. Nem para melhorar a situação fiscal, muito pelo contrário. Esse 1 ponto a mais vai custar cerca de R$ 50 bilhões na dívida pública. E não faz sentido para um país que precisa crescer e continuar gerando empregos. O BC está ignorando o esforço e sacrifício do governo em tomar medidas fiscais, que já estão no Congresso, para limitar o crescimento da despesa. Mas é o fecho da trajetória nefasta do bolsonarista Campos Neto no BC, responsável pela criminosa sabotagem à economia do país nos dois primeiros anos do governo Lula. Sufocou a economia e o crédito e não cuidou da especulação com o câmbio, que era sua obrigação combater. Já vai tarde Campos Neto. Espero que seu terrorismo fiscal também seja suplantado daqui pra frente“.
É irresponsável, insana e desastrosa para o país a decisão do BC de elevar da taxa básica de juros para 12,25%. Não faz sentido nem seria eficaz para evitar alta da inflação, que não é de demanda. Nem para melhorar a situação fiscal, muito pelo contrário. Esse 1 ponto a mais vai…
— Gleisi Hoffmann (@gleisi) December 11, 2024
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