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Menina palestina é assassinada por israelenses junto com paramédicos para quem pediu ajuda por telefone

    Hind Rajab, de 6 anos, relatou que seus familiares haviam sido sido mortos e pediu socorro | Foto divulgada pela família

    Venham me pegar. Estou com tanto medo, por favor, venham“, disse Hind Rajab em uma ligação telefônica para o atendimento do ‘Crescente Vermelho‘, que teve o áudio gravado

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    A menina palestina Hind Rajab, de 6 anos, que estava desaparecida desde o mês passado, cujo caso ganhou notoriedade por ela ter sido gravada implorando por socorro às equipes de resgate de Gaza que enviassem ajuda, foi encontrada por parentes neste sábado (10/2), mas estava morta, junto com outros membros de sua família e dois paramédicos que tentaram salvá-la, informam a BBC News e a agência de notícias Reuters.

    Hind havia saído de sua casa na cidade de Gaza, com o tio, tia e cinco primos, em uma segunda-feira, dia 29 de janeiro. Naquela manhã, o Exército israelense disse às pessoas para deixarem as áreas no oeste da cidade e seguirem para o sul, ao longo da estrada costeira.

    A mãe de Hind, Wissam, lembra que houve bombardeios intensos na região. “Ficamos apavorados e queríamos fugir”, disse ela. “Estávamos fugindo de um lugar para outro, para evitar os ataques aéreos”.

    A família decidiu ir para o Hospital Ahli, na zona leste da cidade, na esperança de que fosse um local mais seguro para se abrigar. Wissam e o filho mais velho começaram a caminhar até lá sozinhos. Hind conseguiu um lugar no carro do tio, um Kia Piccanto preto.

    O veículo em que ela estava ficou de frente para um tanque israelense e após vários disparos percebeu que era a única sobrevivente. Hind ligou para o atendimento do Crescente Vermelho Palestino, com quem ficou na linha por três horas.

    Os atendentes tentavam acalmá-la enquanto enviavam uma ambulância. De acordo com as publicações, a atendente Hana tentava manter calma a voz do outro lado da linha, que era baixa e fraca: “O tanque está perto de mim. Está se movendo“, disse Hind Rajab.

    E Hana pergunta: “Está muito perto?“. A criança responde: “Muito, muito. Você vem me buscar? Estou com muito medo“, disse a menina, presa sob fogo cruzado na Faixa de Gaza, dentro do carro e cercada por corpos de familiares.

    O Crescente Vermelho Palestino acusa Israel de mirar deliberadamente na ambulância que enviou para resgatar Hind Rajab. Os corpos da menina, de seu tio, de sua tia e de seus três primos foram encontrados no veículo, de Tel al-Hawa.

    Familiares que participaram do reconhecimento relatam que o carro estava cheio de buracos de bala. Uma parente de nome Wissam disse que estava “frio e chuvoso” e, por isso, ele “disse a Hind para ir no carro porque não queria que ela ficasse na chuva“. Assim que o carro partiu todos ouviram tiros vindos da direção para a qual o veículo se dirigira.

    Segundo relatos, enquanto o tio de Hind dirigia em direção à Universidade al-Azhar, o carro se deparou inesperadamente com tanques israelenses, conforme também noticiou o ‘g1‘. Eles pararam em um posto de gasolina por segurança e foram supostamente atacados.

    Dentro do veículo, a família pediu ajuda a familiares. Um deles entrou em contato com o quartel-general de emergência do Crescente Vermelho Palestino, a 80 km de distância, na Cisjordânia ocupada.

    Eram agora por volta das 14h30 do horário local (9h30 no horário de Brasília): os operadores do call center do Crescente Vermelho em Ramallah ligaram para o número do celular do tio de Hind, mas a filha dele de 15 anos, Layan, foi quem atendeu.

    Na ligação gravada, Layan diz à equipe do Crescente Vermelho que os pais e irmãos foram mortos e que há um tanque ao lado do carro. “Eles estão atirando em nós”, diz ela, antes que a conversa terminasse com o som de tiros e gritos.

    Quando a equipe do Crescente Vermelho liga de volta, é Hind quem atende, com a voz quase inaudível, tomada pelo medo. Logo fica claro que ela é a única sobrevivente no carro e que ainda está na linha de fogo. “Esconda-se debaixo dos assentos”, orienta a equipe. “Não deixe ninguém ver você“.

    A operadora Rana Faqih permaneceu na linha com Hind por horas, enquanto o Crescente Vermelho apelava ao Exército israelense para permitir que a ambulância deles tivesse acesso ao local.

    Ela estava tremendo, triste, pedindo ajuda”, lembrou Rana. “Ela nos disse que (os familiares dela) estavam mortos. Mas depois ela os descreveu como ‘dormindo’. Então dissemos a ela ‘deixe-os dormir, não queremos incomodá-los‘”. Hind continuou pedindo, repetidamente, que alguém fosse buscá-la.

    A certa altura, ela me disse que estava escurecendo”, contou Rana à BBC. “Ela estava com medo. Ela me perguntou a que distância ficava minha casa. Eu me senti paralisada e inútil“. Três horas após o início da ligação, uma ambulância foi finalmente enviada para resgatar Hind.

    Nesse ínterim, a equipe do Crescente Vermelho entrou em contato com Wissam, a mãe de Hind, e conectou a linha telefônica dela à chamada. Ela chorou ainda mais quando ouviu a voz da mãe, lembra Rana.

    Ela me implorou para não desligar”, disse Wissam à BBC. “Perguntei a ela onde tinha sido ferida, depois a distraí lendo o Alcorão com ela e oramos juntas. Ela repetia cada palavra que eu dizia depois de mim“.

    Já anoitecia quando a equipe da ambulância informou que estava se aproximando do local e prestes a ser revistada pelas forças israelenses. Essas foram as últimas notícias recebidas sobre os dois paramédicos que faziam o resgate – e sobre Hind.

    Depois disso, a linha para os dois socorristas e para a menina de 6 anos foi desconectada. Seu paradeiro se tornou desconhecido. Bahaa Hamada, o avô de Hind, disse à BBC que a ligação da menina com a mãe durou mais alguns momentos e que a última coisa que Wissam ouviu foi o som da porta do carro sendo aberta e Hind dizendo a ela que ela podia ver a ambulância à distância.

    Após aquele dia, Wissam disse à BBC: “a cada segundo, meu coração queima. Cada vez que ouço o som de uma ambulância, penso: ‘talvez seja ela’. Cada som, cada tiro, cada míssil caindo, cada bomba, me pergunto se está indo em direção à minha filha, se ela foi atingida“.

    É difícil à noite”, diz Rana, a telefonista, “quando você acorda e ouve a voz dela em seu ouvido, dizendo ‘venha e me pegue’“.

    Onde está o Tribunal Internacional de Justiça? Por que os presidentes estão sentados em suas cadeiras?”, questiona a mãe de Hind, uma semana depois do desaparecimento da filha, sem saber que ela estava morta.

    Wissam ficava sentada e esperava no hospital Ahli, dia após dia, preenchendo a ausência com a esperança resoluta de que Hind seria trazida de volta e com vida.

    Trouxe coisas para ela e estou esperando aqui”, dizia. “Estou esperando minha filha a qualquer momento, a qualquer segundo. Estou implorando com o coração partido de mãe para não esquecerem essa história”.

    Mas ela havia morrido muito antes.

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