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    RESUMO
    URBS MAGNA

    | Brasília (DF)
    02 de setembro de 2026

    Mensagens e áudios extraídos do celular de Daniel Vorcaro mostram que o então controlador do Banco Master se reuniu com o ministro André Mendonça, do STF, em 14 de março de 2025, em São Paulo. O gabinete confirmou o encontro nesta quarta-feira (2/set), um dia depois de o relator tornar público o inquérito sobre as conversas do banqueiro com Alexandre de Moraes. Por conta disso, nas redes sociais, a reflexão do caso levou a comentários como “o projeto” do ministro “de ser um Moro 2.0 acabou em menos de 24 horas”, desde que o ministro liberou a investigação envolvendo Vorcaro e Alexandre de Moraes, na terça-feira (1/set).

    O que aconteceu?

    A revelação saiu primeiro na newsletter Noites Húngaras, do jornalista Paulo Motoryn, e foi reproduzida pelo ICL Notícias. Motoryn é o mesmo repórter que, ainda no Intercept Brasil, integrou a equipe que mostrou a negociação de Flávio Bolsonaro com Vorcaro para o filme Dark Horse.

    Segundo o material, a aproximação foi costurada por semanas pelo advogado baiano Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP). A reunião ocorreu no endereço da Alameda Santos, 647, 16º andar, sede do Instituto ITER, fundado pelo próprio magistrado em 2023.

    O gabinete de Mendonça respondeu no mesmo dia. A nota, reproduzida pelo Correio Braziliense, pelo g1 e pela CNN Brasil, afirma que o ministro “recebeu o empresário Daniel Vorcaro uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do próprio empresário, e que se limitou a ouvi-lo”.

    Por que o timing pesa?

    Na terça-feira (1º/set), Mendonça retirou o sigilo da apuração da Polícia Federal sobre mensagens entre Vorcaro, Moraes e a advogada Viviane Barci de Moraes, conforme a CBN. Menos de 24 horas depois, o próprio relator da Operação Compliance Zero passou a explicar um encontro reservado com o banqueiro.

    A comparação com Sergio Moro já circulava na imprensa. Em março, a coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, escreveu que Mendonça “ensaia ser o novo Moro” ao concentrar os inquéritos do Master e do INSS. Em 23 de agosto, Bernardo Mello Franco, no O Globo, perguntou se o ministro seria “o novo Sergio Moro” e observou o potencial eleitoral das duas frentes.

    O que dizem as mensagens e os áudios?

    A articulação começa em 7 de fevereiro de 2025, quando Ciro tenta falar com Vorcaro. No dia seguinte, envia foto ao lado de Mendonça, feita segundo a reportagem em unidade da Alfaiataria Vasco Vasconcelos, e um áudio de seis segundos:

    “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno.”

    O ICL registra que as mensagens não esclarecem qual “trabalho” Ciro dizia executar nem comprovam contrato formal com Vorcaro, com o banco ou com empresa do grupo. Ciro é sócio do escritório Rocha Soares Advogados Associados, em Salvador, e foi ouvidor do Ministério do Turismo entre 2016 e 2017.

    Em áudio de 1 minuto e 39 segundos, o advogado afirma que Mendonça o homenageou em festa de aniversário, na presença de Kassio Nunes Marques e do procurador-geral Paulo Gonet. Em seguida, volta ao assunto do banqueiro:

    “O André quer te receber. Acho que eu dei uma balançada nele naquele assunto.”

    E acrescenta:

    “O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo. Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia que o Cezinha já tinha falado com ele.”

    Sobre esses trechos, o gabinete declarou que “o ministro não comenta diálogos privados entre terceiros, cujo teor não lhe cabe confirmar”.

    Como o encontro de março foi marcado?

    Em 16 de fevereiro de 2025, Ciro escreveu que “O A.M. quer recebê-lo” e pediu agendamento. Vorcaro sugeriu a quarta-feira seguinte. Ciro pediu a presença de Bruno Bianco Leal, ex-advogado-geral da União no governo Jair Bolsonaro e, depois, advogado ligado ao Master e à defesa de Vorcaro. A reunião de 19 de fevereiro não se confirmou: Mendonça estava em Brasília para sessão do plenário.

    Em 13 de março, Cezinha avisou: “Amanhã sexta-feira 17:00 com ministro André em São Paulo.” Vorcaro respondeu “Show”, “Marcado” e “Estarei lá para te receber.”

    No dia 14, às 16h37, o banqueiro disse que estava a caminho. Às 16h43, o deputado escreveu: “Ministro já está te esperando.” Vorcaro mandou o endereço ao motorista às 16h30 e, às 18h40, avisou que saía. O ICL estima permanência de cerca de duas horas.

    À Coluna do Estadão, Mendonça falou em duração de 20 a 30 minutos e disse que o encontro foi intermediado por Cezinha a pedido de pessoas próximas à Igreja Batista da Lagoinha. Afirmou ainda que a conversa não tratou do Banco Central, embora o Master já estivesse no radar de apurações que depois levariam à liquidação.

    Qual processo o ministro diz ter sido o tema?

    A nota oficial aponta a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, sobre créditos de precatórios de interesse do banco, então com pedido de vista de outro ministro. O Estadão identifica a origem dos precatórios na Agroindustrial Tabu. O gabinete acrescenta que Vorcaro buscou interlocução semelhante com outros integrantes da Corte e que “a atuação jurisdicional do ministro foi contrária à posição defendida pelo empresário”.

    O g1 observa que o encontro antecedeu a relatoria do caso Master: Mendonça foi sorteado em 12 de fevereiro de 2026, após Dias Toffoli deixar o inquérito.

    IMPORTANTE: A existência de uma reunião entre um ministro do Supremo e um empresário, por si só, não configura ilícito. O material publicado comprova articulação prévia, foto na alfaiataria, áudios de Ciro e deslocamento no dia 14 de março de 2025. Não há ata da conversa nem prova, nas reportagens conferidas, de que Mendonça tenha interferido no Banco Central ou adotado decisão em favor do Master naquele encontro.

    Quem mais aparece no entorno

    Cezinha de Madureira é liderança da Assembleia de Deus do Ministério de Madureira e da Frente Parlamentar Evangélica. Em 25 de agosto, a PF apreendeu R$ 510 mil na bagagem de mão de Valéria Linhares, advogada e mulher do deputado, no Aeroporto de Congonhas. Ela foi assistida por Daniel Bialski, que também atua na defesa de Vorcaro. O ICL registra o ponto de contato, sem demonstrar relação direta com a reunião de março de 2025.

    Análise

    O desgaste está no contraste: o ministro que, na véspera, expôs a interlocução de um colega com Vorcaro precisa agora explicar a própria agenda reservada, marcada por intermediários políticos e jurídicos, num instituto particular, enquanto o Master já enfrentava problemas no Banco Central. A comparação com Moro, usada por colunistas para descrever o acúmulo de inquéritos de alto impacto eleitoral, encontra neste episódio o seu limite factual: o relator deixou de ser apenas o condutor da apuração e passou a figurar na cadeia de contatos do banqueiro.

    Isso não autoriza tratar o encontro como prova de favorecimento. Autoriza, sim, exigir agenda pública, lista de presentes e clareza sobre o que foi dito — padrão mínimo quando a Corte julga um rombo bancário que atravessa o sistema financeiro, o Congresso e o próprio Supremo.

    O que acontece agora?

    Ciro e Cezinha não haviam se manifestado até a atualização da newsletter original. A apuração segue aberta no STF. Novas mensagens do mesmo celular já alimentaram frentes distintas do caso, inclusive o debate sobre vazamentos internos na PF.

    FAQ Rápido

    Mendonça admitiu o encontro?
    Sim. O gabinete confirmou uma reunião em março de 2025 e disse que o ministro se limitou a ouvir Vorcaro.

    O material prova interferência no Banco Central?
    Não. O ICL afirma expressamente que o conteúdo não comprova providência do ministro em favor do Master junto ao BC.

    O encontro ocorreu depois de Mendonça virar relator do Master?
    Não. A reunião é de 14 de março de 2025. A relatoria veio em 12 de fevereiro de 2026.

    Nesta quarta-feira (2/set), após a newsletter de Motoryn, o gabinete de Mendonça divulgou nota e o ministro falou à Coluna do Estadão.

    CNN, g1, Valor, Correio Braziliense e Band repercutiram a confirmação.

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