Fala do governador em coletiva viraliza nas redes e na imprensa gerando repulsa por minimização da letalidade excessiva e da polêmica megaoperação
“Queria me solidarizar com as famílias dos nossos quatro guerreiros que deram a vida para libertar a população. De vítima ontem lá, só tivemos os policiais”, disse o governador do RJ, Cláudio Castro, em entrevista coletiva nesta quarta-feira (29). #ConexãoGloboNews pic.twitter.com/FIzGk0NiO8
— GloboNews (@GloboNews) October 29, 2025
Brasília, 29 de outubro 2025
A cidade do Rio de Janeiro foi palco do episódio mais violento de sua história recente em ações de segurança pública, na terça feira (28/out), após a megaoperação das polícias Civil e Militar contra a facção Comando Vermelho (CV) nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte.
A ação resultou em um saldo devastador: pelo menos 132 mortes. O número oficial divulgado pela Defensoria Pública do Rio de Janeiro, sob comando do governador Cláudio Castro (PL), foi de 64 vítimas – incluindo quatro policiais.
Mas moradores e ativistas denunciam subnotificação, após resgatarem dezenas de corpos abandonados em áreas de mata durante a madrugada, conforme mostrou o Jota. Essa discrepância reacende debates sobre transparência e letalidade policial, em um contexto de expansão do narcotráfico impulsionado por rotas internacionais.
A ação, batizada de “Operação Contenção”, mobilizou cerca de 2.500 agentes e visava cumprir 100 mandados de prisão e 180 de busca e apreensão em uma área de nove milhões de metros quadrados – equivalente a duas vezes o tamanho de Copacabana.
Criminosos retaliaram com bloqueios de vias, incêndio de ônibus e uso de drones para lançar explosivos contra as forças de segurança, paralisando a cidade e elevando o alerta operacional para nível 2.
Escolas e clínicas suspenderam atividades, e o transporte público operou com frota reduzida, afetando centenas de milhares de residentes.
“A operação foi um sucesso”, declarou Cláudio Castro em coletiva, destacando a prisão de líderes como Thiago do Nascimento Mendes (Belão), operador financeiro do CV, e apreensões de 90 fuzis, mas ignorando o custo humano.
O balanço inicial do governo fluminense, divulgado na noite de 28 de outubro, confirmou 64 mortes: 60 suspeitos e quatro policiais – dois civis (Marcos Vinicius Cardoso de Carvalho, conhecido como “Máskara”, e Rodrigo Velloso Cabral; e dois militares do BOPE, Cleiton Serafim Gonçalves e Heber Carvalho da Fonseca).
Nove feridos foram registrados, incluindo três civis e seis agentes. No entanto, na madrugada desta quarta-feira (29/out), moradores do Complexo da Penha iniciaram um esforço hercúleo para resgatar corpos deixados em matas fechadas, longe dos olhares oficiais.
Pelo menos 70 foram arrastados até a Praça São Lucas, na Estrada José Rucas, formando uma cena de horror com lonas cobrindo as vítimas, algumas com marcas de execuções sumárias como tiros na nuca e facadas nas costas.
A advogada Flávia Fróes, fundadora da ONG Anjos da Liberdade, afirmou à CBN que alguns possuíam marcas de tiros na nuca e facadas. Ela classificou o episódio como “o maior massacre da história do Rio de Janeiro”.
Outros seis corpos foram levados em uma kombi até o Hospital Getúlio Vargas, sobrecarregado com feridos da operação. O presidente da associação de moradores local, Eriberto Leão, relatou o pânico: “Muito choro, muitos gritos”.
Essa subnotificação não é isolada. O Instituto Fogo Cruzado aponta que, em 2025, ações policiais já causaram 353 mortes no estado – um quinto delas nesta operação.
Ativistas como Raull Santiago transmitiram ao vivo a “fila de corpos” na praça, cobrando investigação independente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
O Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU) exigiram esclarecimentos sobre o cumprimento da “ADPF das Favelas”, decisão do STF que impõe protocolos para reduzir letalidade, como uso de câmeras corporais e ambulâncias no local.
Contexto Histórico: Padrão de Violência em Operações Passadas
Essa tragédia ecoa chacinas anteriores, expondo um ciclo de violência sem soluções estruturais.
Em maio de 2021, a operação no Jacarezinho deixou 28 mortos – 27 civis e um policial –, a mais letal até então, sob o mesmo governo Castro.
Em 2022, a ação na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, matou 24 pessoas. De 2007 a outubro de 2025, o Geni/UFF registrou 707 operações com mortes na região metropolitana, totalizando 2.905 civis e 31 policiais vítimas – um terço dos tiroteios envolvendo forças de segurança.
Especialistas como Carlos Nhanga, do Fogo Cruzado, criticam: “As forças policiais são o motor da violência armada no Rio”.
Essas ações, frequentemente sem presença de Forças Armadas, priorizam confrontos em áreas densas, afetando 280 mil moradores e perpetuando o terror em favelas.
Embate Político: Desconfiança Federal e Choque de Lula
A operação gerou tensão entre o governo estadual e o federal. Cláudio Castro acusou o Planalto de abandono: “O Rio está completamente sozinho nessa luta”, cobrando uma GLO (Garantia da Lei e da Ordem) negada três vezes por Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O Ministério da Justiça, sob Ricardo Lewandowski, rebateu: o estado não pediu apoio específico, mas recebeu 11 renovações da Força Nacional desde 2023 e R$ 331 milhões em recursos.
Reuniões de emergência no Palácio do Planalto discutiram a falta de coordenação, vista como política. Lewandowski revelou que Lula ficou “estarrecido” com o número de vítimas e a ausência de comunicação prévia, reforçando que GLO exige reconhecimento de incapacidade estadual.
A oposição, liderada por bolsonaristas, acusou o governo Lula de omissão, ligando o caço à “romantização do crime” e decisões do STF. Castro, aliado de Jair Bolsonaro, chamou a “ADPF” de “maldita”, enquanto o ministro Alexandre de Moraes deu 24 horas à PGR para se manifestar.
O CV, nascido em prisões cariocas nos anos 1970, expandiu-se com rotas transnacionais, abrigando líderes de outros estados como o Pará.
A ONU se disse “horrorizada”, e a Colômbia criticou violações ao direito internacional.
Enquanto o IML processa corpos e famílias aguardam identificação, o Rio clama por reformas. Organizações como a Rede de Atenção a Pessoas Afetadas pela Violência de Estado (Raave) oferecem apoio.
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