📷 O Presidente dos EUA, Donald Tramp, a estatal venezuelana de petróleo PDVSA, e o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro |•| Arte Urbs Magna
| New York (US)
23 de julho de 2026
Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, compareceram nesta quarta-feira (22/jul) a um tribunal federal de Manhattan, em Nova York, na terceira audiência desde seu sequestro em janeiro deste ano, no episódio que deixou até 100 mortos, inculindo civis.
O juiz Alvin Hellerstein confirmou que o julgamento por narcoterrorismo e tráfico internacional de drogas terá início em 1º de junho de 2027, conforme também reportou a Reuters.
O que aconteceu na sala de audiências
A sessão desta quarta durou cerca de 15 minutos e não discutiu culpa ou inocência: o objetivo era apenas fixar o cronograma processual.
Maduro e Flores compareceram vestindo uniformes de detento, usaram fones de ouvido para tradução simultânea e não discursaram durante o procedimento — postura diferente da audiência de janeiro, quando o próprio Maduro se declarou “prisioneiro de guerra” diante do juiz, e da de março, quando trocou algumas palavras com o advogado por meio de intérprete.
O casal está detido desde o rapto pelos EUA no Centro de Detenção Metropolitano, no Brooklyn.
O cronograma definido pelo juiz
A proposta de calendário, enviada conjuntamente pela promotoria e pela defesa em carta ao juiz Hellerstein, foi acatada integralmente.
A defesa tem até 2 de setembro para apresentar a primeira rodada de recursos pedindo o arquivamento do caso, com audiência específica marcada para 17 de novembro.
Uma segunda rodada de moções poderá ser protocolada até 11 de janeiro de 2027, mesmo prazo em que os promotores devem entregar as provas sigilosas do processo à defesa.
A estratégia da defesa
O advogado Barry Pollack reiterou que buscará o arquivamento das acusações sob o argumento de que Maduro teria imunidade processual por ter sido chefe de um Estado soberano.
A defesa também contesta a legalidade da operação militar que resultou na captura, classificando-a como um sequestro.
O caso só avançou depois que o governo americano concedeu, em abril, uma licença especial permitindo que o Estado venezuelano pagasse os honorários dos advogados de Maduro e Flores — algo antes vetado pelas sanções.
Maduro enfrenta quatro acusações — conspiração para narcoterrorismo, importação de cocaína e posse de metralhadoras e explosivos — e pode pegar prisão perpétua se condenado.
Cilia Flores responde a três das mesmas acusações.
A operação que capturou Maduro
O pano de fundo de todo o processo é a operação militar realizada pelos Estados Unidos na madrugada de 3 de janeiro de 2026, quando forças navais, aéreas e terrestres bombardearam o Palácio de Miraflores e outros pontos de segurança em Caracas para capturar Maduro.
O número de mortos varia conforme a fonte. O governo cubano confirmou oficialmente a morte de 32 de seus militares e agentes de inteligência, que integravam a guarda pessoal do então presidente venezuelano.
O Exército venezuelano publicou inicialmente uma lista de 23 soldados mortos, número que subiu para perto de 50 em levantamentos posteriores, segundo a Al Jazeera.
Já o ministro do Interior Diosdado Cabello afirmou, dias depois, que o total de mortos chegava a 100, incluindo civis atingidos em áreas residenciais.
Uma apuração independente da aliança jornalística Monitor de Vítimas e La Hora de Venezuela identificou 77 mortos até 6 de janeiro, incluindo os 32 cubanos nomeados pelo jornal Granma.
Do lado americano, o governo reportou sete soldados feridos e nenhuma baixa fatal.
Para onde foi o dinheiro do petróleo
Após a captura, o governo Trump assumiu o controle das exportações de petróleo da Venezuela, que respondem por até 25% do PIB do país.
Segundo apuração do Financial Times na própria quarta-feira (22/jul), os Estados Unidos já arrecadaram mais de US$ 13 bilhões com a venda do petróleo venezuelano ao longo de 2026.
O dinheiro fica retido em contas do Departamento do Tesouro americano, e apenas cerca de US$ 300 milhões foram repassados diretamente a Caracas, segundo o próprio site criado pelo governo venezuelano para rastrear a verba — que registra uma única transferência até agora.
A opacidade ganha peso especial depois dos terremotos de 24 de junho de 2026, cujos danos a ONU avalia em US$ 37 bilhões, o que aumentou a pressão do governo interino de Delcy Rodríguez pela liberação dos recursos represados.
O debate sobre o real motivo da operação
A intervenção reacendeu um debate antigo. Em janeiro, logo após a captura, a própria Delcy Rodríguez classificou publicamente as acusações de narcotráfico como um pretexto, afirmando que “o motivo real é o petróleo venezuelano”, segundo relato do jornal El País reproduzido pelo boletim internacional Latin America Daily Briefing.
A leitura tem respaldo histórico: Hugo Chávez sustentava havia décadas que o interesse americano na Venezuela nunca foi a democracia, mas o controle da maior reserva de petróleo do planeta — tese revisitada por historiadores e correntes de esquerda diante da sequência de fatos: operação militar em janeiro, seguida, semanas depois, da tomada de controle das receitas petrolíferas do país.
Do outro lado, o Departamento de Justiça e a promotoria de Nova York sustentam que o processo contra Maduro por vínculos com o chamado “Cartel de los Soles” corre de forma independente há seis anos, e que a operação em Caracas cumpriu um mandado de prisão criminal legítimo — não uma ação motivada por recursos naturais.
Os próprios documentos oficiais americanos alimentam a desconfiança sobre a motivação real da operação. Chama atenção o fato de o presidente Trump ter afirmado, ainda em janeiro, que os Estados Unidos poderiam controlar a exploração do petróleo venezuelano “por muito mais tempo” do que os prazos usuais de intervenção — declaração que precede em meses a revelação do Financial Times sobre os US$ 13 bilhões arrecadados sem prestação de contas ao Congresso americano.
O Congresso americano segue pressionando o Departamento de Estado por relatórios trimestrais sobre o destino da receita petrolífera venezuelana, prometidos em abril e ainda não entregues.
SIGA NAS REDES SOCIAIS

![]()
Compartilhe via botões abaixo:
