No local estão protegidos seis colaboradores da líder da oposição venezuelana María Corina Machado – Itamaraty se diz “surpreso” com a decisão da Venezuela e o governo federal disse que só sai substituído por outro país
O governo de Nicolás Maduro suspendeu unilateralmente, de “maneira imediata“, a custódia do Brasil sobre a Embaixada da Argentina em Caracas, onde estão abrigados seis colaboradores da líder da oposição, María Corina Machado, acusados pelo regime chavista de terrorismo, enquanto a direita da Venezuela afirma que venceu a eleição presidencial do fim de julho.
Em 29 de julho, dia seguinte à realização do pleito, Maduro expulsou todo o corpo diplomático da Argentina, Chile, Costa Rica, Peru, Panamá, República Dominicana e Uruguai, após os países questionarem oficialmente a reeleição do presidente da Venezuela, anunciada pelo CNE (Conselho Nacional Eleitoral).
na sequência, a Argentina pediu para o Brasil assumir a representação de seus interesses na Venezuela. A Bandeira do Brasil foi hasteada na embaixada em 1º de agosto e, depois, o presidente argentino, Javier Milei, agradeceu e destacou os “laços de amizade” entre os dois países.
Neste sábado, o governo brasileiro disse que recebeu “com surpresa” a comunicação de revogação por parte do governo venezuelano e afirmou, em nota, que, “de acordo com o que estabelecem as Convenções de Viena sobre Relações Diplomáticas e sobre Relações Consulares, o Brasil permanecerá com a custódia e a defesa dos interesses argentinos até que o governo argentino indique outro Estado aceitável para o governo venezuelano para exercer as referidas funções“.
Temendo pela segurança de diplomatas e outras pessoas, após relatos de que homens encapuzados cercaram o local na noite de sexta-feira (6/9), o Itamaraty completou, conforme transcreve O Globo, dizendo que “o governo brasileiro ressalta nesse contexto, nos termos das Convenções de Viena, a inviolabilidade das instalações da missão diplomática argentina, que atualmente abrigam seis asilados venezuelanos além de bens e arquivos“.
Os colaboradores da oposição estão abrigados na representação diplomática desde o dia 20 de março e podem ser presos caso deixem o prédio. Na noite de sexta-feira, um dos asilados, disse no X que patrulhas do Sebin (Serviço Nacional Bolivariano de Inteligência) e do DAET (Corpo Nacional Bolivariano de Polícia), além de “oficiais encapuzados e armados”, cercaram e sitiaram a sede diplomática. No sábado (7/9), a oposição venezuelana comunicou um novo episódio de “cerco” por parte de agentes “encapuzados” posicionados diante da embaixada.
Horas antes do cerco, a Chancelaria argentina havia emitido um comunicado no qual solicitava ao TPI (Tribunal Penal Internacional) uma “ordem de prisão contra Maduro e outros líderes do regime venezuelano”. De acordo com o jornal argentino La Nación, o pedido considerou o “agravamento da situação” na Venezuela, além da “prática de novos atos que podem ser considerados crimes contra a Humanidade”.
Nas redes sociais, o partido Vem Venezuela denunciou o episódio, afirmando que os oficiais “impedem o acesso dos jornalistas, embora a rua não esteja fechada”. A AFP confirmou a presença de pelo menos quatro patrulhas no local, duas do Sebin e duas da PNB (Polícia Nacional Bolivariana), além da instalação de um posto de controle policial para verificar a identidade das pessoas que transitam pela área.
“Na Embaixada da Argentina na Venezuela, sob custódia do Brasil, estamos com a energia elétrica cortada e com os acesso à sede tomados”, escreveu Magalli Meda em sua conta no X. Ela é chefe de campanha de María Corina Machado e está refugiada no local desde 20 de março ao lado de cinco colegas.
Luis Almagro, secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), criticou o governo venezuelano. Ele escreveu no X que as “ameaças e ações são completamente contrárias ao Direito e não são aceitáveis de nenhuma forma pela comunidade internacional”.
Agora, questiona-se se a decisão da administração chavista pode ter relação com as declarações do Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disse, em entrevista à Rádio Difusora de Goiânia, que Maduro “deixou a desejar” e que “ali só tinha uma solução: ou fazer uma nova eleição ou fazer uma coalizão para que se pudesse conviver democraticamente. O Maduro, como presidente, deveria falar o seguinte: ‘Vou provar que eu sou o preferido do povo’. Mas ele não faz“.
A proclamação de Maduro como vencedor pelo CNE foi ratificada pelo TSJ (Tribunal Supremo de Justiça), enquanto a oposição reivindica a vitória do diplomata Edmundo González Urrutia, de 75 anos, substituto de María Corina nas eleições presidenciais devido a uma inabilitação da líder opositora imposta pela Controladoria, que impediu sua candidatura. Ambos estão escondidos há mais de um mês.
Os resultados oficiais das eleições de 28 de julho foram questionados por Estados Unidos, União Europeia e vários países da América Latina, que pediram uma verificação minuciosa dos votos. O CNE não divulgou as atas de votação, como a lei exige, alegando que foi alvo de um ataque de hackers. O anúncio dos resultados provocou protestos em todo país, com um balanço de 27 mortos, 192 feridos e 2.400 detidos.
O venezuelanos são donos da maior reserva certificada de petróleo do mundo: 302,8 bilhões de barris. A Faixa do Orinoco, nos estados Guárico, Anzoátegui e Monagas, concentra a maior parte dessas reservas assim como outros minerais: ferro, diamante e ouro.
