Conflito político no Brasil revela antagonismo econômico: como a elite usa o Congresso para barrar redistribuição de renda
RESUMO <<A crise entre o governo Lula e o Congresso expõe a luta de classes no Brasil: de um lado, políticas redistributivas; de outro, a defesa de privilégios pelas elites. Com a derrubada do IOF, aumento de emendas parlamentares e expansão do número de deputados, a polarização “nós contra eles” mascara o verdadeiro conflito – a disputa entre capital e trabalho, em um dos países mais desiguais do mundo>>
Brasília, 06 de julho de 2025
O Brasil enfrenta uma crise política marcada pela tensão entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Congresso Nacional, dominado por uma maioria de centro-direita, incluindo o Centrão e partidos alinhados ao bolsonarismo.
Essa polarização tem sido expressada pela narrativa “nós contra eles“, refletindo disputas sobre políticas fiscais, orçamento público e pautas sociais, agravadas pela proximidade das eleições de 2026.
A derrubada do decreto do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) expõe interesses antagônicos entre políticas redistributivas e a manutenção do status quo econômico.
O decreto presidencial aumentava as alíquotas do IOF, proposto pelo governo Lula para equilibrar as contas públicas e taxar operações financeiras, visando uma redistribuição de renda.
Com 383 votos favoráveis à suspensão, liderada pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), o Congresso argumentou que o aumento impactaria a classe média e a economia como um todo. O governo, por sua vez, acusou o Legislativo de proteger interesses de elites econômicas.
A tensão escalou a ponto de exigir a mediação do Supremo Tribunal Federal (STF), liderada pelo ministro Alexandre de Moraes, que propôs uma arbitragem para evitar um colapso institucional.
Além da crise do IOF, outros embates intensificam a narrativa “nós contra eles“: o Congresso derrubou vetos presidenciais a projetos com emendas que beneficiam setores econômicos, como o elétrico, com custos de R$ 197 bilhões aos consumidores até 2050, segundo a Frente Nacional dos Consumidores de Energia.
Na mesma linha, a aprovação de um projeto que eleva o número de deputados federais de 513 para 531, contra a vontade do governo e de 76% da população, segundo o Datafolha, é vista como uma manobra para ampliar o poder do Congresso.
Pra piorar a situação e evidenciar o “nós contra eles“, ainda há a questão do Orçamento, que com R$ 50,4 bilhões em emendas parlamentares reflete a disputa pelo controle dos recursos públicos, com o governo acusando parlamentares de priorizar interesses locais e corporativos.
Assim, a expressão em voga “nós contra eles” encapsula a polarização entre o governo e o Congresso, mas sua origem neste âmbito é incerta, com perfis nas redes sociais afirmando que foi o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), o primeiro a usar o termo para criticar a estratégia do governo, que, por sua vez, o emprega para posicionar-se como defensor do povo contra um parlamento que protegeria elites.
Analistas como o jornalista Reinaldo Azevedo apontam que ambos os lados alimentam essa narrativa: o governo para mobilizar sua base eleitoral, e o Congresso para justificar bloqueios às medidas do Executivo.
Enquanto o governo Lula enfrenta queda de popularidade provocada por ataques nas redes sociais, com narrativas elaboradamente construídas para este fim, além de desafios para implementar sua agenda, o Congresso, dominado por partidos de centro-direita, busca consolidar poder e atender a lobbies econômicos.
Moraes anulou os decretos de Lula enviado ao Congresso, mas também invalidou o do Legislativo que barrou o aumento do IOF, deu 5 dias para as partes se explicarem e marcou reunião que ocorrerá em breve.
A intervenção do STF, embora necessária, expõe a fragilidade institucional do país provocada pelo bolsonarismo. Por conta deste movimento, 59% dos brasileiros expressaram ter vergonha do Congresso e 56% do governo, segundo o Datafolha. O ex-presidente é considerado o motivador da opinião pública devido aos seus infinitos ataques à Corte, durante seu mandato e após ele.
Por conta de toda a polarização que confunde, o colunista do ICL Notícias, Cleber Lourenço, afirmou em suas redes sociais que a expressão “nós contra eles” é usada em lugar de outra, que legitima “o verdadeiro nome do movimento que é “luta de classes” – esse é o nome certo“. Neste caso, o medo seria da elite.
A análise ancorada na luta de classes oferece uma lente alternativa para compreender esses conflitos. Ao rejeitar a narrativa maniqueísta de “nós contra eles“, Cleber Lourenço deixa implícito que as tensões políticas são, em essência, disputas entre interesses econômicos antagônicos: de um lado, elites que buscam manter privilégios; de outro, uma classe trabalhadora precarizada que luta por direitos.
Essa perspectiva exige reconhecer a desigualdade estrutural como motor das crises, desafiando tanto o governo quanto o Congresso a enfrentarem as raízes dos problemas, em vez de se limitarem a estratégias eleitorais.
O “tuíte” do colunista convida o Brasil a olhar além da polarização superficial e nomear a luta de classes como o cerne dos conflitos sociais e políticos. Em um país onde a concentração de riqueza e a precarização do trabalho persistem, urge uma abordagem estrutural que confronte os privilégios das elites e promova justiça social, que pode abrir caminho para soluções duradouras.
Enquanto o governo Lula e o Congresso seguem travando embates, a sociedade brasileira enfrenta os impactos diretos dessa disputa, como o aumento de custos e a paralisia de políticas públicas. Reconhecer que isso é uma “luta de classes” muito além de uma avançada “polarização política” é um passo para desmascarar as narrativas simplistas e construir um debate mais profundo sobre o futuro do Brasil. Mas, estrategicamente, o termo é disseminado junto com o gatilho para destravar o ódio que surgiu nos últimos anos, fraturando a harmonia entre os Poderes.
A resistência ao IOF reflete a luta de classes, com o Congresso defendendo privilégios fiscais em oposição às políticas redistributivas do Executivo, mas, para confundir o povo, a automação, a inteligência artificial e a informalidade intensificam a exploração da classe trabalhadora, dificultando a organização sindical.
Nomear esses conflitos como luta de classes, em vez de reduzi-los a “nós contra eles“, permite identificar as raízes estruturais das desigualdades e os interesses de elites econômicas, como o agronegócio e o setor financeiro, que moldam decisões políticas, gerando mais concentração de riqueza e os abusos de poder. Assim, a narrativa “nós contra eles” é tão superficial e facilmente cooptada por qualquer grupo político, enquanto uma análise classista revela os reais antagonismos econômicos.
Nesse contexto, o discurso de polarização mascara o verdadeiro cerne dos conflitos sociais. A retórica “nós contra eles” simplifica antagonismos econômicos profundos, que opõem elites detentoras do capital à classe trabalhadora, e impede uma análise estrutural das desigualdades no Brasil.
O conceito de “Luta de Classes“, desenvolvido por Karl Marx e Friedrich Engels, descreve a história como um processo de conflitos entre grupos com interesses econômicos opostos: a burguesia, que controla os meios de produção, e o proletariado, que depende da venda de sua força de trabalho.
No Brasil de 2025, a luta de classes se manifesta em questões como desigualdade socioeconômica. Somos um dos países mais desiguais do mundo, com concentração de riqueza e privilégios fiscais para elites, enquanto a classe trabalhadora enfrenta precarização, informalidade e perda de direitos.![]()








