Em resposta a taxação absurda de 50% imposta ao Brasil, o estadista usa a fruta brasileira como metáfora, mas argumenta promover diplomacia e união
Brasília, 13 de julho de 2025
O Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece em um vídeo postado no Instagram da Primeira-Dama do Brasil e socióloga Rosângela Lula Silva neste domingo (13/jul) ao lado de um pé de jaboticaba dizendo que o presidente dos EUA, Donald Trump, deveria chupar a fruta brasileira para acabar com o “mau humor“.
A fala do estadista está ligada ao contexto da imposição ao Brasil pelo republicano de uma tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros, que foi anunciada na quarta-feira (9/jul) usando como uma das justificativas a alegada “caça às Bruxas” contra o ex-persidente Jair Bolsonaro (PL), réu no STF (Supremo Tribunal Federal) por tentativa de golpe de Estado. O republicano escreveu em letras garrafais que o processo “deve acabar IMEDIATAMENTE!“
Hoje, Lula convidou Trump a “chupar jaboticaba” em uma tentativa de promover uma relação respeitosa com o problemático líder da extrema direita mundial: “Eu vim chupar jaboticaba de manhã porque eu duvido que alguém que chupe jaboticaba fique com mau humor. Eu vou levar jaboticaba pra você, Trump. E você vai perceber que o cara que come jaboticaba de manhã, num país que só ele dá jaboticaba, não precisa de briga tarifária. Precisa de muita união e de muita relação diplomática”.
A decisão tem início previsto para 1º de agosto também foi justificada pelo que Trump chama de “relação comercial injusta” entre os dois países, tendo acusado o Brasil de práticas comerciais desleais, apesar de dados oficiais do governo americano indicarem que os EUA mantêm um superávit comercial com o nosso País, o que contradiz a narrativa de desequilíbrio.
A tarifa, que representa um aumento expressivo em relação à taxa de 10% aplicada em abril, foi acompanhada de uma investigação federal sobre supostas práticas comerciais desleais do Brasil, incluindo regulações e propostas de taxação digital que afetariam empresas americanas.
Durante a fala descontraída neste domingo, Lula destacou a jaboticaba como um símbolo brasileiro, sugerindo que ela só cresce no Brasil. De fato, a jaboticaba (Myrciaria cauliflora) é uma fruta nativa da Mata Atlântica, encontrada principalmente no Brasil, Paraguai, Bolívia e Argentina.
Embora seja cultivada em pequena escala em outros países tropicais, como Filipinas e Austrália, sua produção comercial significativa e relevância cultural são amplamente associadas ao Brasil.
A menção à jaboticaba por Lula reforça a identidade nacional e serve como uma metáfora para a singularidade do Brasil, que, segundo ele, deve ser respeitada em vez de submetida a pressões externas.
Fontes próximas à administração Trump indicam que a tarifa é parte de uma estratégia mais ampla para pressionar aliados e rivais a alinharem-se com os interesses americanos. Trump, que mantém uma relação de amizade com Bolsonaro, parece usar a tarifa como uma ferramenta diplomática para interferir nos processos judiciais brasileiros, algo que Lula classificou como um ataque à soberania nacional.
Além disso, Trump criticou o Brasil por “ataques insidiosos às eleições livres e aos direitos de liberdade de expressão dos americanos“, referindo-se a decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) que responsabilizam plataformas de redes sociais por conteúdos de seus usuários.
Analistas sugerem que Trump busca fortalecer sua imagem de líder global assertivo, usando tarifas como instrumento de pressão política e econômica, mesmo que isso possa intensificar tensões com aliados como o Brasil.
O governo brasileiro, liderado por Lula, reagiu com firmeza à tarifa de 50%. O presidente anunciou que o Brasil acionará a Lei de Reciprocidade Econômica, sancionada em abril de 2025, que autoriza medidas proporcionais, como restrições à importação de bens e serviços americanos ou suspensão de concessões em acordos comerciais.
Lula destacou que o Brasil é um país soberano e que sua justiça não será influenciada por ameaças externas. Em reunião emergencial em Brasília, Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, discutiram estratégias para mitigar o impacto econômico, incluindo a diversificação de parceiros comerciais para reduzir a dependência dos EUA.
Alckmin afirmou que Trump está “mal informado” sobre o comércio bilateral, enquanto o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e o presidente da Câmara, Hugo Motta, reforçaram que o Brasil responderá com “equilíbrio e firmeza” para proteger a economia e os empregos.
Empresários brasileiros, especialmente dos setores de café, carne e minério, expressaram preocupação com o impacto da tarifa. Cerca de um terço do café consumido nos EUA vem do Brasil, maior produtor mundial, e a alta tarifária pode elevar preços nos EUA e reduzir a competitividade brasileira.
Representantes da Confederação Nacional da Indústria (CNI) pediram diálogo diplomático urgente para evitar uma guerra comercial, enquanto algumas empresas já avaliam redirecionar exportações para mercados como China e União Europeia. A queda do real frente ao dólar após o anúncio da tarifa reflete a preocupação do mercado, embora a reação tenha sido considerada moderada até agora.
A fala de Lula sobre a jaboticaba, embora bem-humorada, carrega um apelo por diálogo e respeito mútuo em um momento de escalada de tensões. O Brasil tem até 1º de agosto para negociar com os EUA e evitar a implementação da tarifa, mas Lula já sinalizou que o país está preparado para sobreviver sem o comércio com os EUA, se necessário, fortalecendo parcerias com nações do BRICS, como China e Rússia.
A retórica de Trump, por sua vez, indica que ele não recuará facilmente, o que pode levar a uma guerra comercial prejudicial para ambos os lados. Analistas, como Andre Pagliarini, da Louisiana State University, apontam que a ação de Trump pode, paradoxalmente, fortalecer Lula politicamente, ao mobilizar um sentimento nacionalista contra a interferência externa.








