Alguns jornais publicaram: “Lula diz que traficantes são vítimas de usuários” – De fato, o estadista disse exatamente assim, mas palavra usada pelo presidente no final da frase é um elo para todo um contexto que justifica a afirmação, ainda que o substantivo tenha sido empregado erroneamente – ASSISTA E SAIBA QUAL
Brasília, 24 de outubro de 2025.
Durante conversa com jornalistas brasileiros em Jacarta, capital da Indonésia, na madrugada desta sexta-feira (24/out), pelo horário de Brasília, o Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), abordou o tema da tensão entre os EUA e a Venezuela.
Recentemente, o presidente do país da América do Norte afirmou que pretende “matar” narcoterroristas no mar do Caribe, o que levou a um questionamento de uma jornalista sobre a opinião de Lula.
Após afirmar que ninguém tem que matar ninguém, mas sim prender, julgar e, em caso de culpabilidade, condenar, Lula buscou abordar a complexidade da relação entre oferta e demanda no tráfico de drogas, destacando a interdependência entre usuários e traficantes, ainda que a escolha do vocábulo “vítimas” para se referir aos criminosos tenha sido inadequada.
Lula disse que “traficantes são vítimas de usuários”, o que de fato soa como um absurdo. Mas a argumentação precisa ser analisada com atenção para evitar interpretações equivocadas de que seria de fato este o pensamento do presidente.
A frase, isoladamente, pode parecer controversa ou imprecisa, especialmente pelo uso do termo “vítimas”, que sugere uma inversão de responsabilidade. No entanto, ao examinarmos o trecho completo da declaração, temos:
“Toda vez que a gente fala em combater as drogas, possivelmente fosse mais fácil a gente combater os nossos viciados internamente. Os usuários. Os usuários são responsáveis pelos traficantes, que são vítimas dos usuários também“, disse Lula.
Note que o “também” no final expande a interpretação do leitor, que passa a ver o usuário como “vítima” em paralelo com os “traficantes“, dividindo o peso da atribuição do adjetivo, ainda que o Presidente tenha feito o emprego deste termo para os criminosos de modo equivocado.
O estadista prosseguiu sugerindo que a responsabilidade pelas drogas pode ser vista como de ambos, tanto do traficante quanto do usuário, algo como o velho questionamento popular: “quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”
“Você tem uma troca de gente que vende porque tem gente que compra, de gente que compra porque tem gente que vende”, disse apontando uma dinâmica cíclica: o consumo de drogas por usuários sustenta a atividade dos traficantes, enquanto a oferta de drogas por traficantes alimenta o vício dos usuários.
A intenção é enfatizar que o problema do tráfico não pode ser reduzido apenas à repressão aos traficantes, mas deve incluir ações voltadas para a redução da demanda, como o tratamento de dependentes químicos.
O uso do termo “vítimas” para descrever traficantes, embora infeliz, parece tentar ilustrar que os traficantes, em muitos casos, são parte de um sistema maior, onde a demanda dos usuários perpetua o ciclo do tráfico.
Lula não isenta os traficantes de responsabilidade, mas sugere que a existência do tráfico depende diretamente do consumo.
Uma palavra mais adequada, como “dependentes” ou “condicionados”, teria evitado a impressão de que o presidente minimiza a culpa dos traficantes.
O contexto mostra que a fala busca propor uma abordagem mais ampla para o problema das drogas, considerando tanto a oferta quanto a demanda, em vez de focar exclusivamente na criminalização.
Assim, apesar da escolha equivocada do termo “vítimas”, a argumentação de Lula reflete uma tentativa de destacar a necessidade de políticas públicas que ataquem as raízes do problema, como a dependência química, para enfraquecer o ciclo do tráfico.
A frase, quando compreendida em seu contexto, não busca justificar ou vitimizar traficantes, mas sim chamar a atenção para a interconexão entre consumo e tráfico, sugerindo que combater apenas um lado da equação é insuficiente.
Assista ao trecho a partir de 02:33
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