📷 Deputados aliados do condenado por tentativa de golpe de Estado Jair Bolsonaro durante a votação do requerimento de urgência ao projeto de anistia, na Câmara dos Deputados / Foto: Gabriela Bilo / Folhapress |•| Ao lado, o Presidente Lula / Foto: reprodução redes sociais |•| ARTE URBS MAGNA
| Brasília (DF)
01 de agosto de 2026
Lula tem uma frase que atravessa cinco anos de discurso político sem perder atualidade: a comparação entre o Congresso Nacional e uma raposa dentro do galinheiro. Usada pela primeira vez em 2021, a
metáfora reaparece cada vez que o presidente enfrenta resistência legislativa a seus projetos, e ilustra uma tensão que já dura três mandatos.
Setembro de 2021: a origem da frase
A primeira vez em que a expressão aparece publicamente atrelada ao contexto eleitoral e legislativo foi em 1º de setembro de 2021.
Na ocasião, ainda como pré-candidato, Lula afirmou que não adiantava eleger “um presidente de esquerda” sem eleger, ao mesmo tempo, “pessoas comprometidas” para o Legislativo — o embrião do raciocínio que sustenta o título desta reportagem.
Não basta eleger um presidente de esquerda. Tem que pensar no Congresso e eleger pessoas comprometidas. Não adianta colocar raposa pra cuidar do galinheiro.
— Lula (@LulaOficial) September 2, 2021
Abril de 2022: a campanha e a bancada
Já em plena corrida presidencial, em 26 de abril de 2022, Lula reforçou o argumento em entrevista à imprensa independente, reproduzida pelo Brasil de Fato.
O estadista disse que o eleitor precisava entender que “não pode continuar colocando raposa para tomar conta das galinhas”, defendendo que a eleição para o Legislativo mereceria tanta atenção quanto a disputa pela Presidência.
Dezembro de 2023: o veto derrubado do marco temporal
Já na Presidência, em evento à margem da COP28, em Dubai, Lula voltou a usar a imagem para criticar a iminente derrubada, pelo Congresso, de seu veto ao marco temporal das terras indígenas — medida contrária a uma decisão do Supremo Tribunal Federal.
Segundo apurou a Rádio Pampa, o presidente afirmou que “querer que uma raposa tome conta do nosso galinheiro é acreditar demais”, num recado direto ao Legislativo em um dos primeiros grandes atritos institucionais do terceiro mandato.
Outubro de 2025: a pior qualidade do Congresso “que já vi”
Em outubro de 2025, dias após o governo sofrer derrota na derrubada da Medida Provisória sobre o aumento do IOF, Lula discursou ao lado do presidente da Câmara, Hugo Motta, e classificou o Legislativo atual como o de “qualidade de baixo nível” mais evidente que já presenciou, conforme relatou o Brasília eu vi.
Na mesma fala, o presidente voltou a acionar a imagem da raposa e do galinheiro, desta vez para criticar a atuação do deputado Eduardo Bolsonaro em defesa de sanções americanas contra autoridades brasileiras.
Dezembro de 2025: o “sequestro” do Orçamento
O ponto mais recente e talvez mais duro dessa sequência de críticas ocorreu em 4 de dezembro de 2025, durante a última reunião do ano do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável (Conselhão), no Palácio do Itamaraty.
Ali, Lula classificou as emendas parlamentares impositivas como um mecanismo que faz o Congresso Nacional “sequestrar 50% do Orçamento da União”, chamando a prática de “grave erro histórico”, segundo registrou a CartaCapital.
Mesmo fazendo a crítica, o presidente evitou admitir uma crise institucional aberta, afirmando que o governo não tinha “problema” com o Legislativo.
Janeiro de 2026: o veto que confirmou o discurso
A retórica ganhou consequência prática em 14 de janeiro de 2026, quando Lula vetou R$ 400 milhões em emendas parlamentares na Lei Orçamentária de 2026, direcionando o recurso de volta a políticas sociais como o Auxílio Gás e o Pé-de-Meia.
O veto, noticiado pelo Congresso em Foco, retomou explicitamente a fala de dezembro sobre o “sequestro” do Orçamento como justificativa institucional para a decisão.
Julho de 2026: a frase na campanha
Já em plena disputa eleitoral, com a candidatura à reeleição em curso, Lula voltou a recorrer à mesma metáfora em evento de campanha ao lado do governador do Ceará, Elmano de Freitas, pedindo que o eleitor pesquisasse os candidatos antes de votar e evitasse, mais uma vez, “colocar uma raposa no galinheiro” — desta vez em um apelo mais amplo, dirigido ao conjunto do processo eleitoral de outubro.
A sequência de falas do Lula ao longo de cinco anos destaca uma estratégia contínua que merece ser analisada: ele mantém uma imagem coesa e firme, tanto na oposição quanto no exercício do poder. Essa abordagem é fundamental para mobilizar apoio e justificar decisões, como os vetos ao Orçamento.
O aspecto mais importante não é apenas a repetição de suas mensagens, mas sim o fato de que, entre 2021 e 2026, a crítica que antes se dirigia a um Congresso hipotético se transformou em um direcionamento a um Congresso real, já consolidado e com um poder orçamentário ampliado.
Isso confere à sua posição uma relevância prática e uma conexão direta com a realidade política, tornando suas queixas não apenas retóricas, mas efetivamente operativas a cada novo desafio que enfrenta.
FAQ rápido
Quando Lula usou pela primeira vez a frase sobre a raposa no galinheiro?
Em 1º de setembro de 2021, ainda como pré-candidato, ao defender a eleição de parlamentares comprometidos junto com um presidente de esquerda.
Por que Lula chama as emendas parlamentares de “sequestro” do Orçamento?
Porque, segundo ele, as emendas impositivas obrigam o governo a destinar cerca de 50% do Orçamento da União por indicação de deputados e senadores, reduzindo a margem de decisão do Executivo.
Essa crítica de Lula ao Congresso é recente?
Não. A reportagem identificou declarações semelhantes em pelo menos seis momentos distintos entre 2021 e 2026, incluindo campanhas eleitorais, a COP28 e vetos orçamentários concretos.
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