“…a menos que o Brasil seja atacado pelo chefe de Estado” hermano. “Se isso acontecer, Lula vai reagir“
O governo do Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), está pisando em ovos sobre a nova relação com o líder da República Argentina recém eleito Javier Milei, trazendo muita agitação via uma série de medidas polêmicas, como privatização de empresas públicas, que é o caso da petroleira YPF e da Aerolíneas Argentina, além do corte de ministérios e, pior, a redução de direitos trabalhistas.
Milei ofendeu Lula durante sua campanha à eleição e ainda não pediu desculpas, apesar de ter enviado carta convidando-o para sua posse ocorrida em 10 de dezembro. O Presidente brasileiro segue orientação de evitar conflitos com o homólogo argentino, “a menos que o Brasil seja atacado pelo chefe de Estado” hermano. “Se isso acontecer, Lula vai reagir“, escreve a jornalista Janaína Figueiredo, no ‘Globo‘.
Segundo seu texto, Lula tem agenda internacional carregada para 2024 e grandes desafios pela frente, entre elas a Presidência do G20 e o processo eleitoral na Venezuela. Assim, o estadista olha para a Argentina com pragmatismo que chega ao ponto de estar disposto a colaborar com o problema herdado por Milei, que é a dívida com o FMI (Fundo Monetário Internacional).
Recentemente, a Corporação Andina de Fomento (CAF), um dos principais bancos regionais latino-americanos, concedeu um empréstimo de US$ 1 bilhão ao governo argentino, essencial para saldar um vencimento da dívida do país com o Fundo este mês. O Brasil de Lula apoiou e, segundo a mesma fonte, vai respaldar a Argentina em suas negociações com o Fundo.
Enquanto Milei não fizer nenhum movimento contra o Brasil, a relação bilateral não sofrerá grandes sobressaltos. Lula não fará comentários sobre o DNU (Decreto de Necessidade e Urgência) do presidente argentino que revoga de uma canetada mais de 300 leis vigentes no país.
O decretaço é considerado inconstitucional por importantes juristas locais. Também tem a polêmica “lei ônibus”, na qual pede amplos poderes para governar até 2025 sem necessidade de passar pelo Congresso, podendo prorrogar a medida até 2027.
Durante a campanha eleitoral do vizinho, Lula disse que “a Argentina precisa de um presidente que goste de democracia e do Mercosul”. Foi a maneira que o chefe de Estado brasileiro encontrou de apoiar o peronista Sergio Massa, derrotado nas urnas por Milei.
Agora que o líder da ultradireita argentina comanda a Casa Rosada, Lula está pragmático e nem foi na posse de Milei. Nos últimos dias, circulou nas redes sociais uma entrevista de Milei realizada durante a campanha, na qual o então candidato é perguntado sobre democracia. Sua resposta, após muita insistência dos jornalistas que o entrevistaram, foi que “a democracia tem muitas falhas”.
O pedido de plenos poderes ao Parlamento está em sintonia com um chefe de Estado que claramente não tem fortes convicções democráticas. Sobre o Mercosul, outro elemento importante para Lula, o novo governo argentino ainda não mostrou a que veio.
Mas o projeto de abertura econômica que permeia o decretaço e a “lei ônibus” sinaliza um caminho que poderia levar a dificuldades de convivência com os sócios da Argentina no bloco, em crise há anos.
Nada disso está sendo visto no Palácio do Planalto como algo que justifique uma reação. A bola, dizem fontes do governo, está no campo de Milei, e a Argentina já está numa pindaíba tão grande que o Brasil não criará problemas.
O pragmatismo de Lula tem como pano de fundo duas preocupações centrais: a estabilidade regional e o comércio bilateral. Só uma ofensiva dramática de Milei contra o Brasil ou o Mercosul tirará Lula do modo paciência estratégica.
