| Brasília (DF)
22 de agosto de 2026
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta sexta-feira (21/ago) que deixou claro ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que o Brasil aceita cooperar no combate ao crime organizado, mas não tolera qualquer forma de interferência externa.
A ligação, que durou cerca de uma hora e vinte minutos, já rendeu um primeiro resultado prático: a retomada das negociações comerciais entre os dois países.
“Conversei com o presidente Trump e deixei claro: o Brasil quer trabalhar junto no combate ao crime organizado, mas não aceita interferência. Um país que se respeita exige respeito. E o Brasil sabe defender sua soberania”, afirmou o estadista em um vídeo compartilhado em suas redes sociais, nos primeiros minutos deste sábado (22/ago).
O Presidente do Brasil esteve em Minas Gerais na sexta-feira (21/ago), onde informou, durante o evento, o contato feito com o republicano, mais cedo.
Conversei com o presidente Trump e deixei claro: o Brasil quer trabalhar junto no combate ao crime organizado, mas não aceita interferência.
— Lula (@LulaOficial) August 22, 2026
Um país que se respeita exige respeito. E o Brasil sabe defender sua soberania. 🇧🇷 pic.twitter.com/UfEd1SoBW6
O que foi discutido na ligação
Segundo o Palácio do Planalto, a conversa teve “tom amistoso e cordial” e girou em torno de dois eixos principais: as tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros e a cooperação em segurança contra organizações criminosas.
No relato de Lula, ele contestou diretamente as justificativas do tarifaço, dizendo a Trump que as alegações sobre desmatamento e trabalho escravo no Brasil não correspondiam à realidade, já que o país registra hoje o menor índice de desmatamento de sua história e mantém ações de combate ao trabalho escravo.
Segundo o presidente, Trump “reconheceu” os argumentos apresentados.
Crime organizado: o ponto de atrito
O segundo eixo da conversa envolveu a recente classificação, pelo governo americano, de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.
Lula rejeitou esse enquadramento, defendendo que o Brasil já dispõe de legislação própria para o enfrentamento dessas estruturas — referência à Lei Antifacção (Lei nº 15.358/2026), que instituiu o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, e à Proposta de Emenda à Constituição da Segurança Pública.
Na fala publicada em vídeo, Lula resumiu a posição: disse a Trump que a Polícia Federal está disposta a “combater crime organizado” junto com os Estados Unidos, mas que o que o Brasil não aceita é “ingerência” em assuntos internos.
Desdobramento imediato: negociação comercial retomada
Segundo apurou a Agência Brasil, o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, entrou em contato com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, logo após o encerramento da ligação entre os dois presidentes, propondo uma reunião entre as equipes técnicas dos dois países já na próxima semana.
Márcio Elias Rosa, representantes do Ministério das Relações Exteriores e integrantes do USTR deverão se encontrar para tentar destravar o impasse tarifário.
A ligação também abordou temas de política internacional: Lula e Trump defenderam, segundo o Planalto, uma solução negociada para a guerra entre Rússia e Ucrânia, enquanto o americano comentou as perspectivas de seu governo para o conflito com o Irã.
O presidente brasileiro aproveitou para criticar a inércia do Conselho de Segurança da ONU diante dos conflitos globais e sugeriu a convocação de uma reunião extraordinária do órgão.
O timing do telefonema não é neutro: ele ocorre em meio a um discurso opositor que atribui a falta de diálogo entre os dois governos ao alinhamento de Lula com o Brics e a críticas diretas feitas a Trump, enquanto o ministro Fernando Haddad já havia afirmado publicamente que a ausência de conversa decorria da falta de sinalização do lado americano — e não de recusa brasileira.
O fato de a retomada das negociações ter partido de uma iniciativa do próprio representante comercial americano, horas depois da ligação, sugere que o discurso de firmeza de Lula obteve algum resultado concreto, ainda que o mérito das tarifas siga em aberto.
A reunião entre o ministério brasileiro e o USTR ainda não teve data definida — as equipes dos dois países devem se falar novamente na segunda-feira para fechar os detalhes.
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