📷 O presidente Lula discursa na Bahia, entre Jaques Wagner (E) e Rui Costa (D) |•| Imagem reprodução / Lula/YouTube |•| ARTE URBS MAGNA
| Salvador (BA)
01 de agosto de 2026
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, neste sábado (01/ago), que o adversário político do próximo ciclo eleitoral deixou de ser uma pessoa e passou a ser a inteligência artificial, usada para fabricar mentiras por quem, segundo ele, não tem argumentos reais para contestar os resultados do governo.
A fala ocorreu na convenção do PT que oficializou a candidatura de Jerônimo Rodrigues à reeleição no governo da Bahia, em Salvador.
O que Lula disse, exatamente
Ao pedir união e disposição para a campanha, o presidente declarou: “Agora o nosso inimigo não vai ser mais um homem, vai ser a inteligência artificial, porque eles não têm o que falar, então eles vão mentir. Eles não têm o que falar desse país, e eles não podem disputar conosco porque, se a gente for debater com eles o que nós fizemos…” — trecho de discurso feito ao lado do governador Jerônimo Rodrigues, do senador Jaques Wagner e do vice-governador Geraldo Júnior, no Parque de Exposições Agropecuárias de Salvador.
A frase resume uma tese que Lula já vinha construindo: a de que a desinformação deixou de ser um efeito colateral da política e passou a ser a própria estratégia de campanha de adversários que, na leitura do presidente, não têm um histórico de governo para apresentar ao eleitor.
Como essa história começou: os disparos em massa de 2018
O uso industrial da desinformação na política brasileira tem data e método de nascimento bem documentados. Durante a eleição presidencial de 2018, entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, empresas contratadas por apoiadores da campanha vencedora dispararam mensagens em massa pelo WhatsApp, driblando os limites de encaminhamento então vigentes — prática que o próprio aplicativo reconheceu publicamente ter ocorrido.
Pesquisadores da Universidade Federal da Bahia descreveram o fenômeno como uma “campanha 3.0”, organizada com produção profissional de conteúdo, uso de bots e comportamento automatizado — um modelo para o qual, à época, a Justiça Eleitoral não teve resposta clara.
Processos posteriores no Tribunal Superior Eleitoral reconheceram a gravidade do esquema, tratando os disparos em massa como parte de uma “estrutura piramidal” financiada para disseminar conteúdo falso contra adversários, ainda que a ação que pedia a cassação da chapa vencedora tenha sido julgada improcedente.
O método por trás da mentira: Steve Bannon
O ponto de origem internacional dessa engenharia de desinformação remonta ao estrategista americano Steve Bannon, ex-conselheiro de Donald Trump e um dos idealizadores da frase que resume sua doutrina: “flood the zone with shit” — inundar o debate público com tanto ruído, mentira e distração que a verdade se torna irrelevante.
A tática, batizada de flood the zone, buscava exaurir cognitivamente o público até que buscasse simplificações e identidades fortes em vez de fatos.
Bannon também é apontado como o elo que trouxe essa engenharia para o Brasil: por meio do The Movement, organização internacional de extrema direita que teve o deputado Eduardo Bolsonaro como representante brasileiro, segundo apurou a Agência Pública.
A mesma reportagem descreve como Bannon já disseminava, ainda no primeiro turno da eleição de 2022, a falsa tese de fraude nas urnas brasileiras — mais de quatro anos antes de a alegação reaparecer na fala de Flávio Bolsonaro em 2026.
A fala de Lula sobre inteligência artificial atualiza, para a era dos modelos generativos, um diagnóstico que pesquisadores da desinformação já fazem desde 2018: o problema nunca foi a ferramenta em si — WhatsApp, redes sociais ou IA —, mas o modelo de negócio político construído sobre ela, que substitui debate de propostas por saturação de ruído.
A diferença entre 2018 e 2026 é de escala: se os disparos em massa exigiam estrutura de empresas e financiamento, ferramentas de inteligência artificial generativa reduzem drasticamente o custo de produzir volume de conteúdo falso — o que torna o alerta do presidente tecnicamente plausível, independentemente da avaliação política que se faça dele.
O que o Brasil e o mundo estão fazendo contra isso
O Brasil e outros países implementaram regras rígidas contra deepfakes e a manipulação de campanhas eleitorais. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu o uso de conteúdos fabricados digitalmente, estabelecendo sanções severas, como cassação de candidaturas. Normas incluem aviso sobre conteúdo sintético, um apagão tecnológico antes da votação, restrições a algoritmos de sugestão de votos e um acordo com big techs para remoção rápida de perfis falsos.
Internacionalmente, a União Europeia classifica o uso de IA em processos eleitorais como de alto risco, exigindo marcas d’água e penalidades severas para deepfakes.
Nos EUA, a regulação é fragmentada, enquanto na América Latina, há exigência de supervisão humana em decisões automatizadas de IA.
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