Presidente defendeu previsibilidade, Reforma Tributária e acordos internacionais – Ponto alto do discurso do estadista foi quando ele elencou os “cinco pilares de estabilidade que o Estado deve oferecer: Política, Econômica, Fiscal, Jurídica e Social“
Brasília, 20 de novembro 2025
O Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) utilizou a pré-inauguração do 31º Salão Internacional do Automóvel de São Paulo, nesta quinta-feira (20/nov) – véspera de sua viagem para o G20 na África do Sul –, para fazer um discurso vibrante focado na importância da estabilidade e da confiança para o crescimento econômico do Brasil.
O retorno do evento, que não ocorria desde 2018, foi uma demanda do próprio presidente, que agradeceu à Anfavea e seu presidente, Igor Calvet, pela realização.
O ponto mais contundente da fala do estadista foi a defesa da previsibilidade no papel do Estado como motor de atração de investimentos e desenvolvimento. Lula traçou um paralelo pessoal e político para enfatizar a necessidade de harmonia e segurança.
“Duas pessoas só saem junto, só decide morar junto se houver um grau de confiança entre as pessoas. Um país, ele só se desenvolve, ele só cresce se houver um grau de confiança entre o conjunto da sociedade brasileira.”
Em seguida, ele elencou os cinco pilares que o Estado deve oferecer: Estabilidade Política, Econômica, Fiscal, Jurídica e Social:
“Quando tudo isso tiver pronto e houver previsibilidade no comportamento do Estado com relação à sociedade, as pessoas começam a acreditar e as coisas começam a acontecer.”
Destaques e Críticas da Indústria Automobilística
O presidente não poupou críticas à gestão anterior da indústria e celebrou o retorno do salão, prevendo um futuro promissor para o setor com a volta da credibilidade.
Crítica ao Fim do Salão do Automóvel:
Lula criticou a interrupção do evento em anos anteriores, classificando a decisão como um erro estratégico que prejudicou a visibilidade do setor.
“Eu sinceramente quer dizer, algum imbecil em algum momento da história desse país resolveu que não era necessário ter feira do automóvel, ter Salão do Automóvel.”
A suspensão do Salão do Automóvel de São Paulo, especialmente a edição prevista para 2020, foi uma decisão conjunta da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e da Reed Alcântara Machado (organizadora do evento na época), após a desistência de várias montadoras em participar.
A interrupção se deveu a uma combinação de fatores, sendo o principal os altos custos e baixo retorno para as montadoras:
Insatisfação com Custos: Mesmo antes da pandemia, grandes montadoras já demonstravam descontentamento com os altos custos de participação (que podiam chegar a dezenas de milhões de reais por expositor).
Baixo Retorno: As fabricantes alegavam que o investimento era muito caro e de baixo retorno, pois o formato tradicional, em que não era permitida a venda direta de veículos, dificultava a medição do impacto direto nas vendas.
Evasão de Marcas: Essa insatisfação levou várias marcas importantes (como Toyota, BMW e General Motors) a anunciarem sua desistência da edição que estava prevista para 2020, antes mesmo da pandemia.
O Impacto da Pandemia de COVID-19 acabou servindo como o argumento final e a pá de cal para o cancelamento da edição de 2020, que já estava enfraquecida pelas desistências. O evento foi adiado e, posteriormente, cancelado definitivamente.
Modelo Considerado “Antiquado”: O formato tradicional, com carros estáticos em um pavilhão fechado (indoor) e focado em apenas exposição, era considerado defasado e ultrapassado pelas montadoras e pela Anfavea.
O mercado e o público passaram a exigir mais experiências, interatividade e a possibilidade de test drives, algo que o modelo antigo não oferecia de forma satisfatória.
Situação Atual (A Volta em 2025)
Após anos de cancelamentos e tentativas de criação de novos formatos, como o São Paulo Motor Experience, o Salão do Automóvel de São Paulo retorna após um hiato de sete anos, totalmente renovado.
O novo formato promete:
- Mais foco em experiências e interatividade.
- Estandes padronizados para reduzir os custos fixos para as marcas.
- Ênfase na tecnologia e nos carros eletrificados.
A Crise de 2008 e as Tarifas:
Ao comentar a instabilidade global, o presidente relembrou a crise do subprime de 2008, defendendo a forma como o Brasil navegou o período:
“Quando o mundo todo tava caindo aos pedaços, eu dizia, ‘essa crise vai ser uma marolinha no Brasil’. E a crise foi uma marolinha no Brasil.”
Ele também celebrou a recente redução de tarifas de importação impostas pelos Estados Unidos:
“Hoje eu tô feliz porque o presidente Trump já começou a reduzir algumas taxações que eles tinham feito em alguns produtos brasileiros.”
Gabinete de Oportunidades: Alckmin e Haddad
Lula dedicou grande parte do discurso a elogiar a escolha de seus ministros, especialmente Fernando Haddad (Fazenda) e o vice-presidente Geraldo Alckmin (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – MDIC).
A Proeza da Reforma Tributária:
O presidente exaltou o ministro Haddad pela aprovação da Reforma Tributária, um feito considerado “democrático” apesar da base parlamentar minoritária. A reforma visa baratear o custo dos investimentos, com entrada em vigor prevista para 2027.
“Conseguiu fazer com que esse país fizesse a Reforma Tributária mais democrática nesse país, aprovada por um Congresso totalmente adverso. (…) que vai entrar em vigor no dia 1º de janeiro de 2027 para baratear o custo dos investimentos nesse país.”
O Vendedor de ‘As Cartas’: Alckmin no MDIC
Lula justificou a escolha de Alckmin citando sua experiência como ex-governador de São Paulo, definindo-o como um ministro com ‘sensibilidade’ e ‘qualidade de conversação’.
“Eu tomei a decisão: ‘Eu vou chamar alguém que já fez acontecer’. E chamei o meu companheiro Geraldo Alckmin (…), para ser o meu ministro da Indústria e Comércio.”
Expansão e Estratégia: África e Colômbia
Na pauta externa, Lula destacou a importância de buscar mercados próximos e de disputar a liderança tecnológica em transição energética.
Acordo com a Colômbia:
O presidente citou a renovação do acordo automobilístico com a Colômbia, que havia sido suspenso em setembro. A negociação, segundo ele, demonstra o papel do Estado na defesa dos interesses nacionais.
“A Colômbia estava rompendo o acordo automobilístico com o Brasil (…). Nós conversamos com o presidente Petro e foi renovado por mais um ano o acordo automobilístico pro Brasil continuar vendendo o carro para Colômbia.”
Contexto: O acordo, que garante isenção tarifária (cota de 50 mil veículos/ano) e evita uma taxação de 16,1% nas exportações brasileiras, é vital para o setor, visto que a Colômbia é o terceiro maior destino de veículos leves brasileiros. A renovação, anunciada dias antes do Salão, garante a competitividade da indústria nacional.
Visão Global: África e Transição Energética
Em linha com sua agenda de viagem ao G20, Lula reforçou a necessidade de o Brasil priorizar o mercado africano. Ele defendeu que o país explore sua proximidade geográfica, referindo-se ao Oceano Atlântico como “um rio chamado Atlântico”.
Além disso, o presidente fez um apelo para que o Brasil abandone a postura de mero exportador de commodities e invista em tecnologia, citando a transição energética como a grande chance de liderança:
“Nós precisamos garantir que nenhum país no mundo hoje pode competir conosco quando se trata de inovação para a transição energética.”
“Por que que a gente vai ser a vida inteira importador de coisa que a gente pode exportar? Por que que a gente vai ser a vida inteira só exportador de commodite e não exportador de inteligência (…), exportador de tecnologia?”
O investimento no setor automotivo reflete essa visão. Segundo o governo federal, a indústria se comprometeu a investir R$ 140 bilhões até 2033 no Brasil, focado em descarbonização e P&D, impulsionado por programas como o Mover (Mobilidade Verde e Inovação).
Futuro e Legado:
Ao final, o presidente expressou a confiança de que o evento marcará um novo ciclo para o setor no Brasil, voltado para a inovação e para a busca pelo status de país desenvolvido.
“A história da indústria automobilística será marcada entre antes e depois desse Salão do Automóvel.”
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