| São José do Rio Preto (SP)
05 de setembro de 2026
O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em cerimônia na Universidade Federal de São Carlos, que o país herdado pelo atual governo apontava para o “futuro do obscurantismo” e para as “trevas do conhecimento”. Sem pronunciar a palavra bolsonarismo, usou a imagem do “gado” e do “rebanho” para descrever o que ocorre quando o Estado deixa de investir em educação e em cultura.
O que Lula disse sobre “gado” e “trevas do conhecimento”?
A passagem de maior densidade política veio no trecho em que o presidente recusou o discurso genérico de “futuro” em ano de disputa eleitoral e perguntou qual projeto de país havia sido deixado para trás. “Que futuro é que você está falando? Que futuro? Nós herdamos esse país em que a merenda escolar estava há 7 anos sem reajuste. Que futuro tem uma criança na escola que não tem nem reajuste do preço da comida?”
Em seguida, listou o desmonte institucional que encontrou: país “desmantelado”, sem Ministério da Cultura, sem Ministério do Trabalho, sem Ministério da Igualdade Racial, sem Ministério da Mulher e sem Ministério dos Direitos Humanos. A síntese veio na frase que organiza o sentido da visita: “Que futuro as pessoas previam para esse país? Era o futuro do obscurantismo. Ou seja, a gente ia voltar para as trevas do conhecimento.”
Lula afirmou: “um país que não investe em educação e não investe em cultura, sabe, trata tanto do povo como se fosse gado, como se fosse um rebanho, vai para onde eles quiserem.”
A contraposição, no mesmo bloco, foi a de que investir em educação e cultura não se limita a transmitir conteúdo. “A gente quer dar às pessoas o direito de livremente pensar o que quer, fazer o que quer, trabalhar o que quer, procurar o emprego que precisa e ser livre.”
IMPORTANTE: O estadista não citou Jair Bolsonaro, não usou a palavra “bolsonarismo” e não nomeou partido. A referência ao governo anterior aparece por fatos concretos citados por ele — merenda sem reajuste por sete anos, extinção ou esvaziamento de ministérios e o diagnóstico de “obscurantismo”. A leitura que associa a fala ao ciclo bolsonarista é interpretativa, não uma declaração explícita do orador.
Por que a metáfora do rebanho pesa no debate público
A análise do Urbs Magna aponta que a escolha lexical não é ornamental. No vocabulário crítico ao bolsonarismo retrógrado, o recuo da escola, da ciência e da cultura nunca foi tratado como detalhe administrativo. Foi lido como método: reduzir o espaço público da dúvida, esvaziar órgãos de mediação e apresentar o conhecimento como suspeita.
Lula desloca o termo “gado”. Não o dirige, no texto da fala, a um eleitor específico. Aplica-o ao efeito de um Estado que recusa educação e cultura: o povo deixa de ser cidadão com juízo próprio e passa a ser conduzido. Sob a ótica deste portal, essa é a costura política da frase. O obscurantismo não aparece como gosto estético. Aparece como engenharia de poder.
A mesma lógica atravessa a denúncia da merenda congelada. Uma criança sem reajuste da comida escolar não é apenas vítima de planilha. É o ponto em que o discurso de “futuro” se desfaz. Sem escola alimentada, sem ministérios de direitos e sem investimento em universidade, o que resta é comando, não formação.
As outras falas de Lula, por ordem de impacto
Depois da imagem do rebanho e das “trevas do conhecimento”, o bloco de maior peso foi o da dívida histórica da elite com a escola. O presidente afirmou viver “o misto de tristeza e o misto de alegria” e situou o Brasil como último país da América do Sul a ter universidade, último a proclamar a independência, último a acabar com a escravidão e último a garantir o voto da mulher. A pergunta que organizou o raciocínio foi direta: “por que que a elite brasileira nunca levou a educação a sério nesse país?”
A resposta que ele mesmo ofereceu recua à origem colonial e escravista. Com muitos indígenas e com escravizados, a educação teria sido reservada aos senhores — Paris, Londres, Harvard, Madri — enquanto ao pobre cabia “cortar cana”, fazer ponte e prédio. “Pra que a educação? Eles achavam que a gente só tinha que trabalhar.”
Em seguida veio o argumento de desenvolvimento. “Não existe na história da humanidade nenhum país que conseguiu se desenvolver sem antes investir na educação.” Distinguiu inteligência e conhecimento: a educação, disse, “não dá inteligência, ela dá conhecimento”; a inteligência se revela na aplicação do que se aprendeu.
O terceiro bloco de impacto foi biográfico e político ao mesmo tempo. Lula recordou ser torneiro mecânico, sem diploma universitário, com primário e curso técnico. Por esse curso, afirmou, foi o primeiro de oito irmãos a ganhar mais que o salário mínimo, o primeiro a ter geladeira, televisor, carro e casa. A conclusão operacional: quando vê jovens em universidade e em instituto federal, o debate deixa de ser abstrato.
O quarto bloco foi o da comparação histórica de expansão. Ao ouvir o ministro da Educação, disse sentir vergonha do atraso acumulado. Na conta que apresentou, em cerca de 15 anos ele e Dilma Rousseff teriam feito 200 campi, diante de um estoque nacional de 344. “Significa que nós, em 15 anos, fizemos o que eles fizeram em cinco séculos.” No estado de São Paulo, citou 58 institutos federais, 40 feitos em seus governos e no de Dilma.
O quinto bloco foi programático. Pediu à reitora que cobrasse celeridade da reforma do prédio para já no Enem de 2027 caber “muito mais gente”, na casa de dois mil estudantes, com cursos novos. Quis a prova de que “chinês não é melhor do que nós, nem americana é melhor do que nós, nem inglês é menor do que nós”. O que faltou, insistiu, foi oportunidade, não competência.
Fechou com a regra de justiça escolar que recusa o discurso de confiscação. “Eu não quero tirar nada de ninguém.” O que quer, disse, é que o estudante pobre da periferia possa fazer a USP, a UFSCar ou qualquer universidade, sentar na mesma mesa, prestar o mesmo Enem e que vença quem estudou mais — e que quem não passar não desista.
A nota prática do encerramento explicou a compra do imóvel. Havia terreno doado pela prefeitura, mas “a tramitação demora muito, e demora muito, e demora muito e nunca sai”. A Caixa avaliara o prédio como negócio vantajoso. “Nós compramos. Então, tá pronto já.” Prometeu voltar na primeira edição do Enem no campus.
O que aconteceu em São José do Rio Preto?
A cerimônia marcou a compra do prédio que deve consolidar o campus da UFSCar em São José do Rio Preto, no noroeste paulista, com retrofit previsto para conclusão em cerca de seis meses e transferência de atividades do Instituto Federal para o novo espaço. A reitora informou que a primeira oferta ocorreu em 2026 e que o campus foi pensado para o trabalhador, com ensino noturno e, após a entrega do prédio, também diurno, no modelo da UFABC.
Foram apresentadas autoridades que não discursaram na transcrição fornecida: o reitor do Instituto Federal de São Paulo, Silmário Batista dos Santos; a presidente do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros; o presidente da Caixa, Carlos Vieira; o diretor do campus, Danilo Giroldo. Também foram cumprimentados a primeira-dama Janja Lula da Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Padilha.
O que disse o ministro Leonardo Barquini?
O segundo discurso de maior densidade institucional foi o do ministro de Estado da Educação, Leonardo Barquini. Ele deslocou a inauguração do prédio para uma narrativa de longo prazo: investir em educação, no Brasil, teria sido tratado como gasto, não como base de país.
Os números que apresentou, todos na fala da cerimônia, desenham o atraso. No século XX, enquanto outros países investiam 2% a 5% do PIB em educação, o Brasil teria investido 1%. No ano 2000, só 30% dos jovens concluíam a educação básica; entre negros, 15%. Citou a Lei Saraiva, de 1881, que barrou o voto do analfabeto quando cerca de 80% da população era analfabeta. O direito do analfabeto votar, disse, só retornou em 1985 e na Constituição de 1988. Até 1988, a escola não era obrigatória. Quando Lula assumiu em 2003, a obrigatoriedade ia dos 7 aos 14 anos.
A virada institucional, no relato do ministro, foi a emenda constitucional nº 53 e o Fundeb, em 2006, que teriam assegurado livro, transporte, obra, alimentação e a obrigação estatal sobre o ensino médio. Até então, segundo Barquini, o Estado nem sequer tinha obrigação de pagar salário de professor no ensino médio. Daí a dívida que ainda cita: 64 milhões de brasileiros sem educação básica concluída, apesar de mais de 80% agora concluírem na idade adequada.
No ensino superior, contrastou 5 milhões de brasileiros com diploma no mercado de trabalho no início do governo Lula com 25 milhões hoje. Campi universitários: 140 em 2003, 360 hoje; 200 feitos por Lula e Dilma no conjunto da história recente; o campus de Rio Preto seria o 18º da gestão atual. Escolas técnicas e institutos federais: de 140 em cem anos para 657 no ciclo Lula-Dilma, com 113 entregues neste mandato, segundo a fala.
O ministro atravessou 17 ministros antes de ocupar a pasta e se apresentou como servidor de 32 anos no MEC. O fecho foi político e direto: quando “eles” governam, a primeira coisa atacada é a educação, o professor e a universidade federal. “Este aqui é um patrimônio do povo brasileiro e é a única forma da gente atingir o desenvolvimento econômico e social do Brasil.”
O que disse a reitora Ana Beatriz de Oliveira?
A reitora da UFSCar e presidente da Andifes, Ana Beatriz de Oliveira, abriu a fala institucional. Informou ser a terceira visita de Lula à universidade nos últimos anos — Lagoa do Sino, São Carlos e agora São José do Rio Preto — todas ligadas a conquistas: retomada de campus, serviços no hospital universitário e a compra do prédio.
Descreveu o trabalho colaborativo para definir cursos, o início das atividades em 2026 e o retrofit. Agradeceu o MEC, na pessoa do ministro e do secretário Marcos Davi, o vice-presidente Geraldo Alckmin, o diretor Danilo Giroldo, a diretora acadêmica Lisandra, docentes que aceitaram o deslocamento e os estudantes da primeira turma.
O ponto político da reitora foi a vinculação explícita entre universidade pública e soberania. O campus, disse, amplia acesso e transforma vidas porque há um presidente que “acredita na educação, acredita na ciência, defende a universidade pública”. Encerrou à disposição do governo: as federais estariam prontas “para fortalecer ainda mais a soberania nacional”.
Presidente Lula visita o Campus São José do Rio Preto da UFSCar https://t.co/f4zQiq5oIu
— Lula (@LulaOficial) September 5, 2026
Como a fala se encaixa no confronto com o bolsonarismo retrógrado
O bolsonarismo, na leitura crítica que se consolidou em setores progressistas, não se limitou a um governo de corte de gasto. Organizou um desprezo ativo pela mediação ilustrada: universidade como inimiga, professor como suspeito, cultura como desperdício, direitos humanos como ideologia. A lista de ministérios ausentes lida por Lula funciona, nesse registro, como inventário de uma recusa civilizatória.
A merenda sem reajuste por sete anos é o chão material dessa recusa. Não é metáfora. É política do corpo da criança. As “trevas do conhecimento” nomeiam o outro lado da mesma operação: um país que trata ciência como ameaça precisa de rebanho, não de estudante.
Por isso a frase do gado, mesmo sem a etiqueta partidária, entra no centro da disputa. Ela descreve o avesso da cidadania. Escola, cultura e universidade aparecem como antídoto à condução. O campus de Rio Preto, nesse enquadramento, não é só obra. É tese: o interior também forma juízo próprio.
O que acontece agora?
A reitora projeta a adequação do prédio em cerca de seis meses e a ampliação da oferta. O presidente cobrou velocidade para o Enem de 2027 e prometeu nova visita quando a primeira edição do exame ocorrer no campus. O ministro estimou que mais de 2.860 pessoas estudarão na unidade. O ritmo da obra e o número real de vagas permanecem como desdobramento a ser conferido na execução, não na retórica da sessão.
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