Em artigo de opinião publicado no jornal estadunidense, o estadista reforça limites firmes em negociações bilaterais , destacando princípios nacionais intocáveis
Brasília, 14 de setembro de 2025
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou neste domingo,(14/set), um artigo de opinião no renomado jornal The New York Times, no qual expressa disposição para diálogos construtivos com o governo dos Estados Unidos, mas estabelece fronteiras claras em temas sensíveis.
No texto, intitulado “Lula: Brazilian Democracy and Sovereignty Are Non-Negotiable”, ele direciona críticas diretas às políticas tarifárias impostas pelo presidente Donald Trump, qualificando as tarifas de 50% sobre produtos brasileiros como “não apenas equivocadas, mas também ilógicas”.
A publicação surge em meio a uma escalada de tensões bilaterais, desencadeadas em julho quando Trump ameaçou elevar impostos sobre importações do Brasil caso o país não interrompesse a perseguição judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Acusado de conspirar para subverter os resultados eleitorais de 2022 e fomentar ataques à democracia, Bolsonaro foi condenado recentemente pelo Supremo Tribunal Federal (STF), com o ministro Alexandre de Moraes atuando como relator do caso.
Em resposta às pressões externas, Lula adotou um tom nacionalista, inundando suas redes sociais com referências à soberania e prometendo tarifas retaliatórias.
No artigo, o estadista enfatiza que, apesar de aberto a negociações que promovam benefícios mútuos, certos pilares nacionais permanecem fora de qualquer barganha.
“Presidente Trump, permanecemos abertos a negociar qualquer coisa que possa trazer benefícios mútuos. Mas a democracia e a soberania do Brasil não estão na mesa”, escreveu ele, em uma declaração que ecoa discursos inflamados proferidos em diversas cidades brasileiras desde o início do impasse.
Analistas internacionais veem o texto como uma estratégia para posicionar Lula como guardião da independência nacional às vésperas das eleições de 2026, quando buscará um quarto mandato aos 80 anos.
O embate também destaca contrastes com os Estados Unidos, onde tentativas de responsabilizar líderes por ameaças à democracia, como os eventos de 6 de janeiro de 2021, enfrentaram resistências institucionais.
No Brasil, ao contrário, o sistema judiciário agiu com rapidez para conter os apoiadores de Bolsonaro após a invasão ao Congresso Nacional, ao STF e ao Palácio do Planalto em 8 de janeiro de 2023.
A matéria do The New York Times gerou repercussão imediata, com o procurador-geral brasileiro, Paulo Gonet, publicando um texto complementar no mesmo veículo em julho, defendendo que diferenças entre os países sejam resolvidas por meio de “negociação e respeito mútuo, não por medidas punitivas”.
Essa disputa comercial e política não apenas testa as relações entre Washington e Brasília, mas também o futuro da maior democracia da América Latina em um contexto global de ascensão autoritária.
Leia a íntegra do artigo de Lula:

“Decidi escrever este ensaio para estabelecer um diálogo aberto e franco com o presidente dos Estados Unidos. Ao longo de décadas de negociação, primeiro como líder sindical e depois como presidente, aprendi a ouvir todos os lados e a levar em conta todos os interesses em jogo.
É por isso que examinei cuidadosamente os argumentos que foram apresentados pela administração Trump para impor uma tarifa de 50 por cento sobre produtos brasileiros.
Recuperar empregos americanos e a reindustrialização são motivações legítimas.
Quando no passado os Estados Unidos levantaram a bandeira do neoliberalismo, o Brasil alertou para seus efeitos nocivos.
Ver a Casa Branca finalmente reconhecer os limites do chamado Consenso de Washington, uma prescrição política de proteção social mínima, liberalização comercial irrestrita e desregulamentação geral dominante desde a década de 1990, reivindicou a posição brasileira.
Mas recorrer a ações unilaterais contra estados individuais é prescrever o remédio errado.
O multilateralismo oferece soluções mais justas e equilibradas.
O aumento de tarifas imposto ao Brasil neste verão não é apenas equivocado, mas ilógico.
Os Estados Unidos não estão enfrentando um déficit comercial com nosso país, nem estão sujeitos a tarifas elevadas.
Nos últimos 15 anos, acumularam um superávit de US$ 410 bilhões no comércio bilateral de bens e serviços.
Quase 75 por cento das exportações dos EUA para o Brasil entram livres de impostos.
Pelos nossos cálculos, a tarifa média efetiva sobre produtos americanos é de apenas 2,7 por cento.
RECEBA NOSSAS ÚLTIMAS NOTÍCIAS EM SEU E-MAIL
Oito dos 10 principais itens enfrentam tarifas zero, incluindo petróleo, aeronaves, gás natural e carvão.
A falta de racionalidade econômica por trás dessas medidas deixa claro que a motivação da Casa Branca é política.
O subsecretário de Estado, Christopher Landau, teria dito isso mesmo no início deste mês a um grupo de líderes empresariais brasileiros que trabalhavam para abrir canais de negociação.
O governo dos EUA está usando tarifas e a Lei Magnitsky para buscar impunidade para o ex-presidente Jair Bolsonaro, que orquestrou uma tentativa de golpe fracassada em 8 de janeiro de 2023, em um esforço para subverter a vontade popular expressa nas urnas.
Tenho orgulho do Supremo Tribunal Federal brasileiro por sua decisão histórica na quinta-feira, que salvaguarda nossas instituições e o Estado democrático de direito.
Isso não foi uma “caça às bruxas”.
O julgamento foi o resultado de procedimentos realizados de acordo com a Constituição brasileira de 1988, promulgada após duas décadas de luta contra uma ditadura militar.
Seguiu-se meses de investigações que revelaram planos para me assassinar, ao vice-presidente e a um ministro do Supremo Tribunal Federal.
As autoridades também descobriram um rascunho de decreto que anulariam efetivamente os resultados das eleições de 2022.
A administração Trump ainda acusou o sistema de justiça brasileiro de direcionar e censurar empresas de tecnologia americanas.
Nos últimos dois anos, reduzimos a taxa de desmatamento na Amazônia pela metade. Somente em 2024, a polícia brasileira apreendeu centenas de milhões de dólares em bens usados em crimes ambientais.
Essas alegações são falsas. Todas as plataformas digitais, sejam domésticas ou estrangeiras, estão sujeitas às mesmas leis no Brasil.
É desonesto chamar a regulação de censura, especialmente quando o que está em jogo é a proteção de nossas famílias contra fraudes, desinformação e discurso de ódio.
A internet não pode ser uma terra sem lei onde pedófilos e abusadores têm carta branca para predar nossas crianças e adolescentes.
Igualmente infundadas são as alegações da administração sobre práticas injustas do Brasil em comércio digital e serviços de pagamento eletrônico e sua suposta falha em fazer cumprir as leis ambientais.
Ao contrário de ser injusto com os operadores financeiros dos EUA, o sistema de pagamento digital do Brasil, conhecido como PIX, permitiu a inclusão financeira de milhões de cidadãos e empresas.
Não podemos ser penalizados por criar um mecanismo rápido, gratuito e seguro que facilita transações e estimula a economia.
Mas a Amazônia ainda estará em perigo se outros países não fizerem sua parte na redução das emissões de gases de efeito estufa.
O aumento das temperaturas globais pode transformar a floresta tropical em uma savana, perturbando os padrões de chuva em todo o hemisfério, incluindo o Centro-Oeste americano.
Quando os Estados Unidos viram as costas para um relacionamento de mais de 200 anos, como o que mantém com o Brasil, todos perdem.
Não há diferenças ideológicas que devam impedir dois governos de trabalharem juntos em áreas onde têm objetivos comuns.
“Presidente Trump, permanecemos abertos a negociar qualquer coisa que possa trazer benefícios mútuos. Mas a democracia e a soberania do Brasil não estão na mesa”.
Em seu primeiro discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas em 2017, você disse que “nações soberanas fortes permitem que países diversos com valores diferentes, culturas diferentes e sonhos diferentes não apenas coexistam, mas trabalhem lado a lado com base no respeito mútuo”.
É assim que vejo a relação entre Brasil e Estados Unidos: duas grandes nações capazes de se respeitar e cooperar para o bem dos brasileiros e americanos.
Luiz Inácio Lula da Silva é o presidente do Brasil.“








Esse é o meu presidente! 👏👏👏
Não negocia a nossa soberania, como uns e outros que se dizem patriotas.
Os comentários estão fechados.