Mundo repercute fala do Presidente do Brasil no evento de celebração do 80.º aniversário da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, que defendeu reformas globais e tributação de ricos para combater a fome, ligando-a à justiça climática
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Lula na FAO – Destaques do discurso
Brasília, 13 de outubro 2025
O Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), discursou na celebração do 80.º aniversário da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), nesta segunda-feira (13/out).
O estadista focou na questão política da fome e na importância do multilateralismo para a sua erradicação.
Lula destacou que o mundo produz alimentos suficientes, mas a distribuição desigual e os conflitos persistem, e defendeu a necessidade de reformas financeiras globais e tributação dos super-ricos para financiar a segurança alimentar.
O líder brasileiro realçou ainda o sucesso do programa brasileiro Fome Zero, o qual tirou o país do mapa da fome, e a necessidade de interligar a luta contra a fome com as políticas de justiça climática. No momento desta fala, Lula foi muito aplaudido.
Íntegra do discurso do Presidente Lula na FAO
Meu caro Qu Dongyu, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação da Agricultura, minha querida companheira Janja, sua majestade, Letsie III do reino do Lesoto, meus amigos chefes de estados, chefes de governo, delegados aqui presentes e ministros que me acompanham nessa viagem. O meu ministro de relações exteriores, Mauro Vieira, o meu ministro de combate à fome e à pobreza, Wellington Dias, e meu ministro da agricultura familiar, Paulo Teixeira.
Amigos e amigas, celebramos neste fórum os 80 anos da FAL. Há 10 anos tive o privilégio de participar da comemoração dos 70 anos dessa organização. Muito mudou nesse período. Vivemos então o entusiasmo da adoção da agenda 2030. O mundo havia se unido em torno de objetivos comuns e caminhava rumo a um futuro promissor.
Hoje, tanto nossa capacidade de agir coletivamente quanto o otimismo que nos animava estão abalados. O desafio se aprofundou, mas não temos alternativa senão persistir. Enquanto houver fome, a FAO permanecerá indispensável. É simbólico que sua fundação tenha precedido a própria ONU. Uma semana antes de os líderes mundiais se reunirem em São Francisco em outubro de 1945, representantes de mais de 40 países se encontraram no Canadá para criar essa organização. O brasileiro Josué de Castro, que presidiu o Conselho Executivo da FAO nos anos 50, dizia que metade da humanidade não come e a outra metade não dorme com medo da que não come. O acesso a alimentos continua sendo um recurso de poder. Não há como dissociar fome das desigualdades que dividem ricos e pobres, homens e mulheres, nações desenvolvidas e nações em desenvolvimento.
Nos anos 70, alguns acreditavam que a produção agrícola não acompanharia o crescimento populacional. O progresso tecnológico desbancou essa previsão. Hoje, o mundo produz comida suficiente para alimentar uma vez e meia a população mundial. Ainda assim, 673 milhões de pessoas, segundo a FAO, estão em situação de insegurança alimentar. Com base em dados do Programa Mundial de Alimentos, é possível estimar que garantir três refeições diárias a essas pessoas custaria cerca de 315 bilhões de dólares. Isso representa 12% dos dois trilhões e 700 bilhões de dólares consumidos anualmente com gastos em armas. Estabelecendo um imposto global de 2% sobre os ativos dos super-ricos, obteríamos esse montante.
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A fome é irmã da guerra, seja ela travada com armas e bombas ou com tarifas e subsídios. Conflitos armados, além do sofrimento humano e da destruição da infraestrutura, desorganizam cadeias de insumos e alimentos. Barreiras e políticas protecionistas de países ricos desestruturam a produção agrícola no mundo em desenvolvimento. Da tragédia em Gaza à paralisia da Organização Mundial do Comércio, a fome se tornou sintoma do abandono das regras e das instituições multilaterais.
Roma é sede de três agências que salvam vidas. O trabalho da FAO, do Programa Mundial de Alimentos e do Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura não deixa dúvidas de que o mundo seria um lugar pior sem o multilateralismo. Graças à FAO, um número crescente de países reconheceu o direito à alimentação em sua legislação. A peste bovina e a doença da cegueira nos rios foram erradicadas e a comida que consumimos segue parâmetros definidos em um código universal que garante sua segurança e sua qualidade. A FAO é exemplo de um multilateralismo que escuta os países em desenvolvimento, valoriza o conhecimento local e constrói soluções adaptadas a cada realidade.
O Brasil tem orgulho de fazer parte da história desta organização. Seu apoio foi fundamental para fortalecer políticas brasileiras que se tornaram referências globais durante seus dois mandatos. Como diretor geral, o professor José Graziano da Silva, aqui presente, contribuiu para essa fertilização cruzada. Acolhido pela FAL, nosso programa Fome Zero serviu de inspiração para o segundo objetivo de desenvolvimento sustentável. Aliando o programa de transferência de renda, alimentação escolar e fortalecimento da agricultura familiar, conseguimos tirar o Brasil do mapa da fome em 2014. O retrocesso que vivenciamos nos anos seguintes demonstrou que o combate à fome deve ser uma luta perene. Não se trata de assistencialismo. É preciso colocar os pobres no orçamento e transformar esse objetivo em política de Estado para evitar que avanços fiquem à mercê de crises ou marés políticas. Mesmo líderes de países com orçamento pequeno podem e precisam fazer essa escolha.
Desde 2023 temos trabalhado incansavelmente para reconstruir políticas sociais. As sementes que plantamos frutificaram. Neste ano, a FA anunciou que, outra vez, o Brasil saiu do mapa da fome. 30 milhões de pessoas começaram a almoçar, jantar e tomar café. Em 2024, alcançamos a menor proporção de domicílios em situação de insegurança alimentar grave da nossa história. Registramos ainda a menor proporção de domicílios com crianças menores de 5 anos em situação de insegurança alimentar grave desde 2004. Estamos interrompendo o ciclo de exclusão.
Um país soberano é um país capaz de alimentar o seu povo. A fome é inimiga da democracia e do pleno exercício da cidadania. É possível superá-la por meio de ação governamental, mas os governos só podem agir se dispuserem de meios. Por isso, ampliar o financiamento ao desenvolvimento, reduzir os custos de empréstimos, aperfeiçoar sistemas tributários e aliviar a dívida dos países mais pobres são medidas cruciais.
Não basta produzir, é preciso distribuir. Poucas iniciativas contribuiriam tanto para a segurança alimentar e nutricional quanto uma reforma da arquitetura financeira internacional que direcionasse recursos para quem mais precisa. A América Latina e o Caribe vivem o paradoxo de ser o celeiro do mundo e conviver com a fome. A África atravessa crescimento econômico ao mesmo tempo em que registra um aumento preocupante dos níveis de insegurança alimentar.
Sob a liderança do diretor-geral da FAO, o Brasil tornou-se parceiro em mais de 40 países, fortalecendo a cooperação Sul-trilateral. Seis instituições brasileiras, entre as quais a EMBRAPA, foram agraciadas este ano com o prêmio da FA de reconhecimento técnico a boas práticas que o Brasil se dispõe a compartilhar sem condicionalidades. O combate à fome e à pobreza é um dos principais pilares da política externa brasileira. Em maio, promovemos o segundo diálogo Brasil-África sobre segurança alimentar, combate à fome e desenvolvimento social.
Há poucas semanas, realizamos na cidade de Fortaleza a segunda cúpula global da coalizão para alimentação escolar. No ano que vem, sediaremos a 39ª Conferência Nacional da FA para a América Latina e Caribe. Foi desse espírito que nasceu a aliança global contra a fome e a pobreza, lançada pela presidência brasileira no G20. Ela já conta com 200 membros, dos quais 103 países. Hoje, inauguramos o mecanismo de apoio que impulsionará a implementação de projetos piloto em diversas regiões. Convidamos todos, mas todos mesmo, a contribuir com a iniciativa.
Senhoras e senhores, um planeta mais quente será um planeta com mais fome. A escassez de água, a perda da biodiversidade e as catástrofes naturais afetarão a produtividade agrícola e o preço dos alimentos. As inovações técnicas e científicas que transformaram a agricultura no século XX ficaram conhecidas como a Revolução Verde. A mudança climática exigirá de nós uma revolução mais verde e mais inclusiva.
Reduzir as emissões do setor agrícola e adaptar sistemas alimentares a uma nova realidade climática são tarefas que demandam tecnologias e muitos recursos. Para que essa transição seja justa, é preciso redobrar a cooperação. Não haverá justiça climática se o enfrentamento ao aquecimento global não caminhar lado a lado com o combate à fome e à pobreza. Entrelaçar essas duas lutas será a missão da COP 30 em Belém. As contribuições nacionalmente determinadas podem se tornar veículos para a promoção da segurança alimentar e nutricional. Isso é possível, fomentando a agropecuária de baixo impacto ambiental, apoiando a agricultura familiar, produzindo bioenergia como alternativa renovável e compensando quem preserva a natureza. Vamos lançar em Belém o Fundo Florestas Tropicais para sempre, um mecanismo inovador que vai remunerar tanto quem investe quanto quem mantém a floresta em pé. A FAL será uma parceira incontornável na construção de um futuro sustentável.
No Brasil, a escritora brasileira Carolina de Jesus, mulher negra, que registrou as aflições cotidianas dos moradores de uma favela em São Paulo, disse que a escravidão do mundo atual se chama fome. Nossa maior missão é concretizar a promessa inscrita na Constituição da FA e livrar, enfim, a humanidade desse mal. Só vamos combater a fome, a pobreza, a desigualdade de forma eficaz quando os pobres deixarem de ser invisíveis para a elite política.
Meus amigos e minhas amigas, eu penso que é importante que cada um de nós, ao terminar esse encontro da FAL, em que comemoramos hoje seus 80 anos, volte para os nossos países com a certeza de que a fome não é simplesmente um problema econômico. A fome é, sobretudo, um problema político. É uma questão de opção. É uma questão de saber para onde vai o dinheiro que o Estado arrecada. É preciso saber se as pessoas estão pagando os tributos certos por aquilo que ganham no país.
No Brasil, nós acabamos de aprovar uma lei que nenhum trabalhador que ganha até R$ 5.000, o equivalente a US$ 1.000, pagará mais imposto de renda. E aprovamos ao mesmo tempo que todas as pessoas que ganham acima de 1 milhão por ano irão pagar um pouco mais para que possamos isentar as pessoas mais pobres. Portanto, é preciso que cada governante assuma responsabilidade na hora de fazer o orçamento do seu país, na hora de discutir quanto vai para as forças armadas, na hora de discutir quanto vai para a diplomacia, na hora de discutir que benefício vai ser dado de isenção para os empresários. É importante lembrar que os pobres não são invisíveis e é preciso enxergá-los, porque eles um dia nos enxergarão e aí nós vamos pagar o preço da irresponsabilidade de não cuidar dos pobres em igualdade de condições como se cuida do rico.
Muito obrigado e boa sorte".








Sou de acordo com o presidente Lula, quanto mais pobre e faminta a população mundial, mais dinheiro é acumulado por quem tem mais.
E, é a acumulação de bens e riquezas que faz essa população ficar cada vez mais pobre, dependente e frágil, fácil de ser manipulada.
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