Estadista destaca riscos à democracia e defende governança multilateral durante evento em Nova Délhi que reúne líderes globais
Nova Délhi (IN) · 19 de fevereiro de 2026
Em seu primeiro compromisso oficial na viagem à Índia, o Presidente da República Federativa do Brasil, Excelentíssimo Senhor Luiz Inácio Lula da Silva (PT) discursou nesta quinta-feira (19/fev) na Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial, realizada em Nova Délhi.
O evento, que dá continuidade ao processo iniciado no Reino Unido em 2023 e marca a primeira edição no Sul Global, reuniu chefes de Estado e de Governo, incluindo o primeiro-ministro Narendra Modi, o presidente francês Emmanuel Macron e o secretário-geral da ONU, António Guterres.Lula enfatizou o caráter dual da inteligência artificial, comparando-a a grandes marcos tecnológicos como a aviação, o átomo e a engenharia genética.
“Toda inovação tecnológica de grande impacto possui caráter dual e nos confronta com questões éticas e políticas”, afirmou.
Lula reconheceu os benefícios da IA para produtividade industrial, serviços públicos, medicina, segurança alimentar e conexões sociais, mas alertou para perigos graves: armas autônomas, discurso de ódio, desinformação em massa, pornografia infantil, feminicídio, violência contra mulheres e meninas, precarização do trabalho e, especialmente, a manipulação de conteúdos falsos que “distorcem processos eleitorais e põem em risco a democracia”.
O estadista foi enfático ao criticar a concentração de poder tecnológico: “Capacidades computacionais, infraestrutura e capital permanecem excessivamente concentrados em poucos países e empresas. […] Quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação”.
O chefe do Executivo brasileiro defendeu a regulação das big techs para proteger direitos humanos, a integridade da informação e as indústrias criativas, combatendo a apropriação de dados sem contrapartida para os países de origem.
O líder do Brasil propôs que a ONU lidere uma governança global “multilateral, inclusiva e orientada ao desenvolvimento”. No Brasil, citou o lançamento do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial em 2025 e os projetos em tramitação no Congresso para um marco regulatório nacional.
Ainda durante a cúpula, Lula se reuniu, a pedido do executivo, com Sundar Pichai, CEO do Google. Pichai destacou investimentos da empresa no Brasil, como o Centro de Engenharia em São Paulo.
Lula apresentou a visão brasileira de IA focada em serviços públicos digitais e atração de investimentos em datacenters, além de discutir riscos à integridade de meninas e mulheres.
O discurso reforça a posição histórica do Brasil de defesa de soberania digital e inclusão, com destaque para o avanço sobre o modelo de negócio das grandes plataformas.
O encontro foi realizado no Centro de Convenções Bharat Mandapa.
A cúpula prossegue até sexta-feira (20/fev) com debates sobre governança.
Leia a íntegra do discurso e assista ao vídeo depois:
“É uma satisfação participar da cúpula de impacto de inteligência artificial organizada pelo governo indiano, sendo esta a primeira ocasião em que se realiza no sul global. Aqui em Nova Délhi, o mundo digital retorna à sua terra natal; foram matemáticos indianos que nos legaram, há mais de 2000 anos, o sistema binário que viria a estruturar a computação moderna.
Fazemos o caminho de volta para debater um dos maiores dilemas da atualidade: nossas sociedades encontram-se em uma encruzilhada. A quarta revolução industrial avança rapidamente enquanto o multilateralismo recua perigosamente. É nesse contexto que a governança global da inteligência artificial assume um papel estratégico.
Toda inovação tecnológica de grande impacto possui caráter duplo e nos confronta com questões éticas e políticas. A aviação, o uso do átomo, a engenharia genética e a corrida espacial são exemplos desse fenômeno; elas podem multiplicar o bem-estar coletivo ou lançar sombras sobre o destino da humanidade. A revolução digital e a inteligência artificial elevam esse desafio a níveis sem precedentes; elas impactam positivamente a produtividade industrial, os serviços públicos, a medicina, a segurança alimentar e energética, e a forma como conectamos uns com os outros, mas também podem fomentar práticas extremamente nefastas, como o emprego de armas autônomas, discurso de ódio, desinformação, pornografia infantil, feminicídio, violência contra mulheres e meninas, e precarização do trabalho.
Conteúdos falsos manipulados por inteligência artificial distorcem processos eleitorais e põem em risco a democracia. Os algoritmos não são apenas aplicações de códigos matemáticos que sustentam o mundo digital; são parte de uma complexa estrutura de poder. Sem ação coletiva, a inteligência artificial aprofundará desigualdades históricas.
Capacidades computacionais, infraestrutura e capital permanecem excessivamente concentrados em poucos países e empresas. Os dados gerados por nossos cidadãos, empresas e organismos públicos estão sendo apropriados por poucos conglomerados, sem contrapartida equivalente em geração de valor e renda em nossos territórios. Segundo a União Internacional de Telecomunicações, 2,6 bilhões de pessoas estão desconectadas do universo digital. As estimativas mostram que, em 2030, ainda teremos 660 milhões de pessoas sem eletricidade.
Quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação. A regulamentação das chamadas big techs está ligada ao imperativo de salvaguardar os direitos humanos na esfera digital, promover a integridade da informação e proteger as indústrias criativas de nossos países. O modelo atual de negócio dessas empresas depende da exploração de dados pessoais, da renúncia do direito à privacidade e da monetização de conteúdos chamativos que amplificam a radicalização política. O regime de governança dessas tecnologias definirá quem participa, quem é explorado e quem ficará à margem desse processo.
Colocar o ser humano no centro das nossas decisões é uma tarefa urgente. O Congresso Brasileiro discute uma política de atração de investimentos em torno de um marco regulatório de inteligência artificial. O Brasil lançou, em 2025, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial; esse plano expressa nosso compromisso com a melhoria da qualidade de vida das pessoas, através de serviços públicos mais ágeis e maior estímulo à geração de emprego e renda.
Este foi o paradigma da declaração sobre inteligência artificial que aprovamos na cúpula dos BRICS, no Rio de Janeiro, no ano passado. Essa é a postura que o Brasil adota no diálogo com outros parceiros e fóruns. Participamos da iniciativa da China sobre a criação de uma organização internacional para a cooperação em inteligência artificial, com foco nos países em desenvolvimento.
Dialogamos com a Parceria Global em Inteligência Artificial, que nasceu no G7, mas nenhum desses fóruns substitui a universalidade das Nações Unidas para uma governança internacional da inteligência artificial que seja multilateral, inclusiva e orientada ao desenvolvimento. O Pacto Digital Global que aprovamos em Nova York, em setembro de 2024, estabeleceu um mecanismo crucial: o Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial é o primeiro órgão científico global sobre o tema e reúne especialistas, fatos e evidências em suas manifestações.
O Brasil defende uma governança que reconheça a diversidade de trajetórias nacionais e garanta que a inteligência artificial fortaleça a democracia, a coesão social e a soberania dos países. Senhoras e senhores, a Índia, ao longo de sua história, legou à humanidade contribuições fecundas e extraordinárias em diversos campos do conhecimento, nas artes, na ciência e na filosofia, uma herança que traz à luz grandes dilemas éticos sobre a justiça, a diversidade, a inclusão e a resiliência. Este patrimônio é um poderoso referencial na busca por respostas aos desafios que a inteligência artificial impõe às sociedades contemporâneas. Muito obrigado.”
Presidente Lula participa da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificialhttps://t.co/RUjT8DaFM6
— Lula (@LulaOficial) February 19, 2026

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