Para evitar isso, o Presidente sugeriu, durante o encontro “Democracia Sempre“, a integração regional como estratégia e revitalização da CELAC e UNASUL
Santiago de Chile, 21 de julho de 2025
O Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou da cúpula “Democracia Sempre” no Palácio de La Moneda, em Santiago, Chile, nesta segunda-feira (21/jul), ao lado dos presidentes Gabriel Boric (Chile), Gustavo Petro (Colômbia), Yamandú Orsi (Uruguai) e do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez.
O encontro, marcado por forte simbolismo histórico, abordou a defesa da democracia, o fortalecimento do multilateralismo, o combate às desigualdades e a crise ambiental, em resposta ao avanço de discursos autoritários e desafios globais, como as tensões comerciais com os Estados Unidos.
A reunião reforçou a importância da integração regional e da cooperação entre América Latina, Caribe e Europa.
O Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, foi palco de um dos episódios mais trágicos da história latino-americana: o golpe militar de 1973, que derrubou Salvador Allende e instaurou a ditadura de Augusto Pinochet. Lula destacou essa memória em sua fala nas redes sociais:
“Este encontro no Palácio de La Moneda, ao lado dos presidentes @GabrielBoric, @sanchezcastejon, @petrogustavo e @OrsiYamandu, tem uma simbologia especial. Aqui a democracia chilena sofreu um dos atentados mais sangrentos da história da América Latina”.
Ele enfatizou que as democracias da região, construídas após longos períodos de ditaduras, enfrentam hoje uma “nova ofensiva anti-democrática” impulsionada pelo descrédito de sistemas políticos e partidos.
A cúpula “Democracia Sempre” é uma resposta direta ao avanço de narrativas autoritárias e extremistas, com destaque para as tensões entre o Brasil e os Estados Unidos, após o presidente norte-americano Donald Trump anunciar tarifas de 50% sobre produtos brasileiros.
Um manifesto assinado pelos líderes, publicado na véspera do encontro, defende a necessidade de “resolver os problemas da democracia com mais democracia” e critica discursos de ódio nas plataformas digitais, propondo a regulamentação das big techs.
A iniciativa é uma continuação do esforço conjunto de Brasil e Espanha, iniciado na Assembleia Geral da ONU em 2023, para consolidar uma frente democrática global.
Lula reforçou a urgência de fortalecer instituições democráticas: “Nossos países conhecem de perto os horrores de ditaduras que mataram, perseguiram e torturaram. O caminho para a reconquista da liberdade foi longo. Democracias não se constroem da noite para o dia”.
Ele também criticou a prevalência da “lei do mais forte” no sistema internacional, defendendo o multilateralismo como ferramenta para enfrentar desafios globais.
“É urgente insistir na diplomacia e refundar as estruturas de um verdadeiro multilateralismo, capaz de atender aos clamores de uma humanidade que teme pelo seu futuro”.
A cúpula abordou a luta contra as desigualdades como pilar para a legitimidade das democracias. Lula destacou a disparidade econômica global: “O salário médio global de um presidente de multinacional é 56 vezes maior que o de um trabalhador”.
Ele criticou políticas de austeridade que, segundo ele, “obrigam o mundo em desenvolvimento a conviver com o intolerável: 733 milhões de pessoas passam fome todos os dias”.
Como resposta, o presidente brasileiro resaltou a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada durante a presidência do Brasil no G20 em 2024, com a meta de alcançar 500 milhões de pessoas com programas de transferência de renda até 2030.
A justiça tributária também foi um tema central. Lula defendeu a taxação dos super-ricos, citando estudos do G20 que indicam que um imposto de 2% sobre o patrimônio dos mais ricos poderia gerar US$ 250 bilhões anuais para enfrentar desafios sociais e ambientais.
“Os super-ricos precisam arcar com a sua parte nesse esforço. Só o combate às desigualdades sociais, de raça e de gênero pode resgatar a coesão e a legitimidade das democracias”.
A crise climática foi outro ponto de convergência entre os líderes. Lula alertou que “a crise ambiental introduz novas formas de exclusão, com impactos desproporcionais para os setores mais vulneráveis”.
Ele reforçou o compromisso do Brasil com a COP30, a ser realizada em Belém em 2025, que será “não apenas a COP do Brasil, mas de toda a América Latina e Caribe”.
O presidente destacou a vulnerabilidade da região, citando riscos como o colapso da Floresta Amazônica e a elevação do nível do mar, que ameaça ilhas caribenhas e zonas costeiras.
A integração regional foi apresentada como estratégia para fortalecer a América Latina e o Caribe diante de desafios globais. Lula defendeu a revitalização de mecanismos como a CELAC e a UNASUL, criticando a fragmentação regional:
“Se seguirmos separados, a comunidade latino-americana e caribenha corre o risco de regressar à condição de zona de influência em uma nova divisão do globo entre superpotências”.
Ele também destacou o potencial econômico da região, com o comércio entre países da CELAC representando US$ 86 bilhões anuais para o Brasil, superando o comércio com os EUA.
A presença de Pedro Sánchez reforçou os laços entre América Latina e Europa. Lula destacou que as duas regiões compartilham “uma longa história e laços econômicos e sociais”, enfrentando desafios comuns como discriminação racial, xenofobia e mudanças climáticas.
A Espanha, como ponte entre a América Latina e a Europa, foi vista como peça-chave na construção de uma ordem multipolar. O manifesto conjunto assinado pelos líderes reforçou a necessidade de estratégias comuns para o desenvolvimento sustentável e a proteção dos direitos humanos.
A cúpula ocorre em um momento de tensões geopolíticas, especialmente com os Estados Unidos, devido às tarifas impostas por Trump. Posts no X destacaram o encontro como uma resposta ao “avanço autoritário” e uma tentativa de fortalecer laços multilaterais.
A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, elogiou o artigo conjunto dos líderes, destacando sua relevância em tempos de discursos autoritários. O encontro também foi visto como uma oportunidade para consolidar a liderança de Lula como articulador global, em um momento em que o Brasil se prepara para sediar a COP30 e liderar debates no BRICS.
A cúpula “Democracia Sempre” no Palácio de La Moneda marcou um momento de união entre líderes da América Latina e da Europa para enfrentar desafios globais. Com foco na defesa da democracia, multilateralismo, justiça tributária e combate às desigualdades, o encontro reforçou a importância da integração regional e da cooperação internacional.
Lula, ao lado de Boric, Petro, Orsi e Sánchez, enviou uma mensagem clara: a democracia e a justiça social são essenciais para um futuro multipolar e sustentável.
Presidente Lula em declaração à imprensa: Democracia sempre https://t.co/JoWL8uJZOg
— Lula (@LulaOficial) July 21, 2025








